Mais uma vez trago um assunto genérico mas que nos toca a todos. Desta vez trago um tema que nos últimos dias voltou a estar na agenda mediática, em concreto pelo facto de ter sido divulgado um estudo do Serviço de Biomédica e Ética Médica da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Refiro-me, claro está, à questão da eutanásia. Podem não fazer a mínima ideia mas quando foi necessário efectuar a minha tese de licenciatura em sociologia (na altura ainda se faziam ensaios dessa natureza) quis num primeiro momento fazer uma investigação sobre eutanásia e só não avancei com essa ideia porque senti que necessitava de uma reflexão teórica anterior. No fim de contas fiz a dita tese sobre a bioética em Portugal, depois acabei por me afastar dessas temáticas, exceptuando a minha participação de vários anos a título voluntário num projecto sobre cuidados paliativos, o que não faz de mim um especialista mas tem sido uma experiência que de modo algum rejeitaria.
Voltando à questão da eutanásia, o mais importante a referir é a abordagem da comunicação social, não sei se por "vontade própria" ou se para isso orientada por especialistas. Essa abordagem é quase fatalista, a ideia que fica é que os cerca de 50% dos idosos inquiridos favorável à eutanásia quer praticar eutanásia. Bem, seria importante debater a diferença entre eutanásia e suicídio assistido, bem como entre eutanásia activa e passiva, mas isso alongaria a discussão.
Creio que existe um conjunto de variáveis sociais a ter em conta, não as vou enumerar uma a uma mas vão desde as dificuldades económicas do momento, que afectam de sobremaneira os mais desfavorecidos, a questões familiares, que normalmente correspondem a uma situação de isolamento dos mais idosos após terem trabalhado a vida inteira para depois virem partir os seus à procura de novas oportunidades , não podemos ignorar o facto dos mais idosos estarem mais vulneráveis a determinadas doenças. Estes são apenas alguns exemplos que me ocorrem.
Sem que sejam a solução para todos os problemas os cuidados paliativos, principalmente os que são prestados ao domicilio por equipas com diversas valências - um médico, um enfermeiro, um psicólogo (para apoiar doente e familiares) e nos casos em que se justificar um fisioterapeuta - são de facto a única possibilidade de contribuir para que a família e o doente possam ter o mínimo de qualidade de vida num momento especialmente delicado. Sem colocar a eutanásia de lado, pelo menos das possibilidades em discussão, os cuidados podem contribuir para que o doente volte a sorrir e não sinta que está a ser um fardo para os seus. Em vez de uma morte doce o doente poderá ter essa qualidade de vida mínima que lhe permita encarar os dias que lhe restam com um sorriso para quem o visita e para os seus, garantindo-lhe que morre juntos dos seus com dignidade, esse talvez seja a maior das virtudes da prestação de cuidados paliativos ao domicilio, contribuindo para que a morte não seja anónima, encerrada na cama de um hospital.
publicado por José às 22:29