A nossa terra tem história, memórias vivas e rituais que se devem perpetuar, por vezes até independentemente das convicções de cada um, pois cultura não é apenas a que leva uma minoria a uma exposição, cultura é também, ou sobretudo, a expressão da vivência popular, quer pagã, quer de cariz religioso. Vem esta introdução a propósito da romaria em honra de Santa Eufémia, a realizar no próximo domingo dia 16, e que este ano tem mais um argumento: com a ajuda de todos foi possível realizar obras na Igreja do nosso Folhadal, que agora ressurge com maior esplendor ainda.


Nota: a imagem é anterior às obras

Não referi nessa altura, mas só lamento que a 16.ª Feira do Vinho do Dão não tenha tido a amabilidade de aguardar uma semana para conseguir integrar a romaria a Santa Eufémia no seu "programa". Não quero com isto misturar a fé e a venda de vinho. A experiência que sempre vivi relativamente a Santa Eufémia tem uma dimensão etnográfica que deveria merecer um pouco de atenção, caso contrário irá perder-se, isto pelo simples facto da agricultura, de uma forma geral, e da vitivinicultura em particular, não fazerem parte do quotidiano das nossas gentes como acontecia em tempos ainda recentes.

Recordo a Santa Eufémia como o momento do fim das colheitas, relativamente às quais existia a preocupação de ter sido retirado das eiras até o último grão de milho, até porque o Verão estava a chegar ao fim e poderia chover a qualquer momento. Mas esse era também o momento de transição, a preocupação seguinte seria organizar as vindimas, lavar os lagares e o vasilhame, bem como marcar a data da vindima na Cooperativa Agrícola. Não sei que memórias guardam, mas estas são algumas das memórias que guardo, perfeitamente enquadradas no espírito da festa da vinha e do vinho, celebrando as nossas gentes e a sua relação com a terra.

Da romaria guardo outras memórias, das gentes a percorrem as ruas, muita gente, de todos os lugares e feições a reencontrar-se ano após ano, das janelas enfeitas, dos tabuleiros integrados na procissão e que depois seriam leiloados no final.

Caros amigos, se é certo que a fé a cada um diz respeito, também é certo que existem expressões de um povo que não se esgotam na sua devoção. Por outro lado, são um sintoma de sã convivência e respeito mutuo da Igreja  e das suas gentes, integrando mutuamente rituais no seu quotidiano, após anos a sedimentarem-se.

Sem que tal seja um exercício de vaidade ou de soberania da nossa terra face a outras, incluindo Nelas, que poucas memórias tem para transmitir dada a sua curta história, não deixo de apelar à continuidada destas e outras tradições, só assim seremos capazes de marcar a diferença, garantindo a quem venha este importante legado. Obviamente que uma romaria não é uma expressão de cultura de massas, todavia não deixo de apelar para que apareçam e se juntem às nossas gentes nesta sua festa.

publicado por José às 18:13