Tentei encontrar dados de suporte ao problema que quero colocar mas sobre esta matéria não é fácil, não porque os dados não existam, mas pelo simples facto do ritmo da natureza ter influência na questão - falo da produção de vinho na nossa terra, com colheitas diferentes todos os anos, o que baralha a abordagem. Poderia seguir os dados do INE sobre a população que se dedica à agricultura, mas penso que numa terra como a nossa são pouco consistentes, pelo simples facto de não existir monocultura da vinha, mas uma diversidade de culturas de tal ordem que coloca quem se dedica ainda a estas tarefas numa roda vida.

Tudo isto vem a propósito das mudanças ocorridas ao longo das últimas duas décadas, as quais, basicamente, se traduzem pelo aumento dos produtores que comercializam o seu próprio vinho e pelo estabelecimento de regras apertadas por parte das associações aos pequenos produtores. É esta última questão que me preocupa. Naturalmente que o vinho do Dão terá de estar sujeito a regras bem apertadas, todavia esse processo não terá sido julgado com as necessárias cautelas, não por falta de tempo mas porque parece ter falhado a comunicação entre as partes. Nem esse processo arrancou na devida altura.

Muito provavelmente nos próximos anos os pequenos proprietários, já depauperados, vão deixar de produzir, o que é bom para aumentar a qualidade do vinho da região mas constitui o golpe final na frágil economia doméstica agrária. Sendo bem verdade que a vinha actualmente apenas dá despesa: o preço pago pelas uvas não compensa sequer o seu transporte. Mas isso impunha uma reconversão a tempo e horas das pequenas vinhas, ora, não sendo feito nada disso só resta ao agora agricultor de fim de tarde e de fim-de-semana arrancar tudo, excepto o que sustenta o seu consumo.

Foi bonita a Feira do Vinho do Dão mas mostrou exactamente esse outro lado: o vinho do Dão é cada vez mais uma actividade "industrializada" (salvo seja), com objectivos bem claros por parte de produtores conhecedores. A questão que se coloca é a de saber o que fazer aos pequenos produtores e o que podem eles fazer. Claro que não tenho soluções fora de tempo, isso teria de ser prévio. Por agora ficaria contente com a concretização do que sempre foi um desejo meu - a constituição do Museu do Vinho do Dão, já apenas como repositório de um modo modo de vida de outrora, para que as gerações futuras saiba que existimos com outras formas e outras cadências.

Naturalmente que não esqueço os pequenos proprietários, devem ser identificadas as suas dificuldades e devem merecer, principalmente, orientação técnica. Sem esquecer que a produção de castas não autorizadas deve ter uma atenção especial, não basta rejeitar as uvas, é uma vida ou pelo menos uma colheita que está em causa, não vamos por isso destruir as expectativas de quem deu o seu suor, só para seguir cegamente lógicas de marcado.

 

publicado por José às 13:09