Relegada para a categoria de “Fim do Mundo” por uma pujante camada de residentes, esta pequena aldeia guarda para os ausentes um simbolismo que ultrapassa o extenso planalto, perfurando as margens que ladeiam o Mondego, por forma a invadir o sopé e o cume da Serra da Estrela.

Deste enorme miradouro fazem-se em poucos instantes viagens de quilómetros, que permitem absorver com o olfacto tudo o que a vista alcança.

Aos “locais” ausentes, permite, nos momentos de reencontro, a redescoberta do espaço perdido, o enfrentar de uma solidão sem ausências, porque cheia das presenças das pessoas que ao pisar de cada pedra da calçada nos dão os “bons dias”, nos arrastam para um passado sempre presente.

Este espaço de fuga. Fuga para um mundo cada vez mais competitivo, fuga de um mundo onde os interesses anulam as oportunidades.

Ao mesmo tempo, é um espaço sem fuga: porque nos conduz até à nossa infância, porque nos permite recordar o que por momentos se pensa estar esquecido, porque nos permite acreditar que nunca fomos esquecidos.

De uma cidade distante, ou de um país que sempre soube acolher os nossos entes mais distantes, sente-se o cheiro da terra a ser massacrada de forma desajeitada pela chuva, que sem surpresa vai escorrendo quase gota-a-gota das enormes nuvens que palmeiam o horizonte.

Sente-se o verde dos pinheiros a dançar ao sabor do gelado vento de inverno, cobrindo assim, na distância que a vista consegue alcançar, grande parte da superfície com uma manta, retalhada aqui e acolá pelos casarios que se avistam ou então pelos destroços dos incêndios que em cada ano deflagram nestas paragens.

Na memória, sente-se o cheiro das correrias pelos lameiros a abarrotar de água e da erva a ser cortada ao fim da tarde pelas mulheres com as mãos enegrecidas pelos calos e pela aragem fria que devasta os seus narizes.

Nos campos, correm os ribeiros que um dia assistiam às brincadeiras das crianças, que um dia assistiram aos encontros das mulheres a lavarem a roupa dos maridos.

Os penedos, gastos pelo espezinhar das cabras e ovelhas, escondem-se agora por entre o que outrora eram tímidos arbustos.

Na aldeia de hoje, as imponentes casas de granito surgem com a sua beleza por entre as novas habitações que um ou outro residente, que um ou outro ausente, foram erguendo com o suor do trabalho de parte das suas vidas.

Enquanto isso, as ruas guardam memórias quase milenares: testemunham a azáfama destas gentes e o percurso tomado pelos forasteiros em dias de procissão e romaria, ou em dias de baile, cruzando os destinos com os caminhos, fazendo do Folhadal um lugar de confraternização e de encontro da alma beirã.

Nota importante:
Tornou-se para mim quase obrigatório elaborar o presente texto depois da leitura do excelente artigo de Eduardo Proença-Mamede “Folhadal no Tempo e na História”, publicado no Planalto n.º679, de 15 de Dezembro de 1997. Agradeço ao Paulo Sá o ter feito chegar até mim o referido artigo.


José Gomes Ferreira
publicado por José às 11:15