Mais uma vez recorro às minhas memórias, por sinal bem recentes, para escrever umas breves palavras neste nosso Planalto. Como muitos dos leitores sabem, antes de rumar a Lisboa e de me movimentar em territórios da sociologia, passei cerca de um quarto de século nesta nossa terra, onde adormeci e acordei com as sementeiras e as colheitas. Tantas foram as vezes que a terra se viu rasgada pelo meu suor, tantas foram as vezes que a madeira se viu desfeita na lenha que nos dias frios me ajudava a aquecer e me concedia ao longo do ano o sabor das refeições cozinhadas com o odor a natureza viva.
Não quero com este remate inicial escrever um qualquer artigo autobiográfico, como muitos de vós sabem muitas são as vezes que prefiro o anonimato e o silêncio, quero, isso sim, obter um ponto de ancoragem para este meu texto. Nele recordo o calor do verão, o milho a crescer debaixo de um sol escaldante regado pela água tantas vezes partilhada em míngua entre vizinhos, à medida que o verão avança e a terra seca engole o próprio pó que gera. Também o milho que mais tarde juntará a família e os vizinhos em seu redor, primeiro ainda nos lameiros, depois debulhado em sonhos e colocado num pequeno pedaço de uma eira já repleta de suor.
Hoje em dia dou-me conta de que infelizmente esta descrição começa a fazer parte unicamente da memória colectiva, pois, factores como a procura de novas oportunidades de emprego e os impactos da Política Agrícola Comum (PAC) estão a reduzir a um insólito passado a nossa agricultura, ou uma substancial parte dela. Felizmente permanece o calor e a azáfama das vindimas, nelas se vão reunindo as nossas gentes para que em uníssono possam ainda partilhar um momento de glória, embora por vezes nem sempre abonatória.
O verão é também o momento em que se plantam as couves que na feira de agosto se compram e no Natal vão permitir a reunião da família. Esse verão que nos trás os nossos parentes que durante todo o ano laboram neste ou em outro país, esse verão em que devido aos actos tresloucados de alguns a floresta é consumida por chamas de vergonha e ineficácia.
Por minha conta retomo aqui o que outrora poderia ser uma descrição do quotidiano rural das nossas gentes, vejam-se como prova alguns pequenos excertos publicados ao longo de décadas nesse nosso jornal, que, muita embora os factores acima referidos, ainda se podem ler em breves linhas nos dias de hoje. A par das referências de casamentos, baptizados, óbitos e curiosidades, podemos ainda fazer a história da nossa tradição rural a partir dos relatos deste exemplar da imprensa local. Confesso o meu interesse por fazer uma historiografia deste povo com suporte na imprensa escrita e nos relatos dos ainda vivos, seria por certo não tanto um projecto de uma vida mas uma contribuição singular de um rebento desta terra pelas suas gentes, numa narrativa ainda por ensaiar, apesar da riqueza cultural deste povo.
Aproveito este esboço sobre o mundo rural para insistir junto de vós numa das questões sobre as quais mais me tenho batido - a participação dos cidadãos no espaço público político. Perdoem-me se serei inoportuno, mas os habitantes desta terra e todos aqueles que dela brotaram não devem permanecer na sombra dos acontecimentos, limitando-se muitas vezes a esperar algo dos outros, sendo que em muitas dessas vezes têm um desejo irreverente de denegrir o que é feito. Estou certo que não é essa a atitude correcta que um cidadão responsável deve assumir e capaz de corresponder às expectativas que em volta dele se geram, sobretudo no tocante à sua participação no processo político quotidiano. Como tenho assinalado ao longo dos já inúmeros artigos publicados neste nosso cantinho, participar no processo político não é votar quando nos chamam, mais do que esse ritual, corresponde, ou deveria corresponder, a uma preocupação de cada um para com os outros no dia a dia, quer sejam familiares, vizinhos ou meros habitantes do mesmo planeta, tanto os agora vivos como as gerações futuras, num sentido de comunidade que poderia muito bem fundar-se nos laços de comunidade característicos do mundo rural, onde a entreajuda tantas vezes superou o oportunismo de alguns. Nesse sentido, devemos reclamar de nós mesmos uma mudança de atitude em que, desculpem-me os termos, a banal intriga deve ser substituída pela participação do cidadão nos processos de tomada de decisão, caso contrário, a indiferença permitirá novas formas de oportunismo e se descobrirá a incapacidade de serem encontradas e discutidas as questões que a todos devem interessar. Tome-se de novo o exemplo dos trabalhos agrícolas enquanto ponto alto da afirmação desse sentido de comunidade e desejo de pertença, assim se poderá perspectivar uma participação efectiva de todos nos processos que a todos dizem respeito, caso contrário a nossa identidade rural, beirã, portuguesa, tende a diluir-se na numa manta de pó subvertido por uma ideia de global e de absoluto, em desfavor de uma identidade singular como a nossa, questões sobre as quais me ocuparei certamente em tempo mais oportuno, pois neste pequeno articulado de palavras quis apenas recuperar cenários de um mundo em abandono e perspectivar uma responsabilização de todos nesse como em outros processos que somente a nós dizem respeito. Da parte do amigo leitor espero que faça uma reflexão nesse sentido, que se questione e vá questionando os outros, pois é com o debate de ideias que a mudança para a permanência se poderá efectivar. Deste vosso amigo sabem que podem obter todo o tipo de apoios e esclarecimentos. Sendo este um artigo dedicado ao mundo rural não posso terminar estas minhas palavras sem expressar a todos o meu desejo de que tenham este ano "Boas colheitas".


José Gomes Ferreira
publicado por José às 11:17