Caros amigos! Mais uma vez em jeito de carta partilho convosco umas quantas palavras e umas quantas angústias, angústias não porque aproveite este nosso jornal para vos falar sobre a minha luta, angústias sim porque partilho convosco o que o ser humano é capaz de fazer a outro ser humano, tantas vezes sem escrúpulos, movendo-se unicamente pela ambição, pela vontade do lucro e do proveito somente para si mesmo.
Falo-vos assim porque nos meus olhos estão ainda presentes as imagens televisivas dedicadas a alguns exemplos de trabalhadores da Europa de Leste, agora em novo período de legalização, que neste nosso país são espoliados da sua força de trabalho e da sua dignidade. Prometem-lhes o paraíso, um lugar tranquilo onde o trabalho não falta, mas com essas promessas retiram-lhes todo o dinheiro que com tanto sacrifício tinham angariado para a viagem e retiram-lhes parte da sua condição de humanos. Muitos acabam por ficar dias, meses e até anos a vaguear por entre as nossas ruas e as plantas dos nossos jardins, contando a si mesmos que nas suas terras foram médicos, arquitectos ou engenheiros, enquanto se alimentam com a boa vontade que a eles possa chegar, pelos menos uma vez por dia, pois sabem que as lágrimas são o seu maior alimento, sem esperança de si e de cuidar dos seus lá longe, deixam que os seus rostos se disfarcem no meio da indiferente multidão, escondendo assim a sua dor.
Amigos, dou uma especial atenção ao caso de Nicolae, um ainda jovem moldavo que esgotando os seus sonhos acabou tetraplégico num hospital do Algarve e a contar uma história insólita, tudo aquilo tinha acontecido numa praia. Insólita porque em quatro meses com o suor do seu trabalho pagou as suas dívidas e encheu de alegria a sua família, insólita porque a praia algarvia por certo não se destina a um qualquer trabalhador da construção civil vindo da Moldávia, por sinal o mais pobre país da Europa. Certamente que a praia para pessoas como Nicolae se apresenta unicamente como uma miragem, bem vista lá do alto à medida que os empreendimentos que constróem para "outros" turistas vão ganhando forma. No ecrã a esposa de Nicolae e os filhos em agonia sentem a sua falta, no limiar da pobreza sentem que perderam o seu ente querido e com ele perderam também o pão que as suas bocas contariam comer. Tal como na história de tantas famílias portuguesas, fica a vida das pequenas crianças famintas entregue ao suor da mãe solitária e dos seus avós, fica um futuro marcado pela dor do presente.
Numa altura em que no país se procede a um novo processo de legalização de estrangeiros, para muitos somente investidos do rótulo de imigrantes ilegais, importa reflectir sobre todo este processo e sobre o nosso próprio passado. É triste meus amigos o que se passa com os estrangeiros ilegais neste país! Como portugueses, parece que estamos a votar ao esquecimento o nosso passado recente e mesmo o nosso presente, tudo aquilo que na verdade somos. Cabe-nos lembrar que os nossos pais foram os estrangeiros tantas vezes escorraçados de outros países, mas que ao erguerem-se permitiram a Portugal poder vencer gradualmente os seus desafios. Quantos anos as remessas dos nossos emigrantes foram um factor de desenvolvimento para o país? Nas nossas vilas e aldeias, nas nossas cidades, nas nossas universidades e no mercado de trabalho corre ainda o suor de uma geração que sobretudo em França e na Alemanha deixaram e continuam a deixar o suor do seu sangue para que as suas e as nossas gerações futuras possam ver garantido um futuro melhor. É essa uma das mais humildes e belas páginas da nossa história recente e é também um dos mais corajosos momentos da nossa existência, somente igualável à epopeia dos descobrimentos e da conquista de novos mundos. Novos mundos que outrora podemos revelar e que durante o século passado foi possível retomar em cada sonho que partia no silêncio da noite através da fronteira, e que tantas vezes se desfez e que tantas vezes se retomou.
É toda a nossa história que se repete, contudo, nós agora estamos do lado cá a ver chegar os sonhos dos outros. Não compreendo, nem aceito, como se pode quebrar o que outrora foram os nossos sonhos. Não sei como pode este país permitir que empresários, por vezes sem escrúpulos, possam explorar da forma que é pública quem na verdade quer tão somente trabalhar para assim dar de comer aos seus lá longe. Tal como todos nós deposito as minhas esperanças na nova Lei, sei no entanto, tal como todos nós, que as leis somente são eficazes se para tal forem criados os instrumentos eficazes, caso contrário Portugal poderá ser palco de novas formas de o homem escravizar o homem que nos devem envergonhar.
E logo nós portugueses, por vocação e por nascimento, que fomos capaz de em condições tantas vezes dramáticas conquistar esses novos mundos, de que acima vos falo. Tantas vezes misturados com o gado, fechados durante o dia em autênticos currais para animais, viajando pela incerteza da noite, sem comida que se digne desse nome e sem condições de higiene, partimos e conseguimos vencer, colocando um fim a tantas angústias, a tantos dias em que um pedaço de pão teria de ser dividido pelos olhares dos membros da família. Por isso, Amigos, não posso aceitar que assim se cuide de quem quer dar continuidade à nossa obra, acredito o necessário nas instituições para ter confiança num futuro melhor, que não nos envergonhe e que seja capaz de conferir a verdadeira dignidade a todos aqueles que lutam pelos seus ideais e pelo bem estar das suas famílias. É essa a nossa própria bandeira enquanto portugueses no mundo, por isso nos cabe igualmente a sua defesa quando se trata de quem connosco partilha o seu suor e as suas lágrimas, lágrimas pela ausência dos seus, lágrimas por ter sido espoliado dos seus magros haveres e da sua condição de iguais.
Antes de terminar gostaria de frisar o seguinte: falei-vos de moldavos, ucranianos e outros da Europa de Leste, mas na verdade poderiam bem ser de um qualquer país irmão, de Angola, Moçambique, Guiné - Bissau, Santo Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Brasil e Timor; por certo os seus dramas são idênticos a todos estes, por certo os seus dramas são idênticos aos dramas da nossa diáspora, que tantos portugueses levou a todo esse mundo; embora muitas vezes a língua comum se possa permitir pensar como uma emoção comum e possa facilitar que as palavras tomem na saudade as suas sílabas.


José Gomes Ferreira
publicado por José às 11:17