Prezados leitores! Decidi falar-vos de algo que porventura todos os dias se nos apresenta, que invade as nossas emoções e as nossas razões, mas que talvez por isso nos deixa indiferentes, ainda que todos os dias a comunicação social de massas insista na tematização de idênticas matérias. Falo-vos do património deixado pelos nossos antepassados. Elementos que, como sabem, encontram grande visibilidade no nosso concelho, embora sem que muitas das vezes vejam a sua importância na nossa história e no nosso quotidiano devidamente restituída à nossa terra e às nossas gentes.
Se se recordam de outros momentos em que cheguei até vós sabem como me encanta este espaço verde, brilhante, sempre a sorrir mesmo nos momentos de maior tristeza. São os nossos pinheiros que nos invadem com o seu cheiro a resina, as nossas oliveiras a lembrarem o gelo de inverno, as nossas vinhas a lembrarem as nossas gentes reunidas em enorme azáfama prolongando por séculos a partilha de tarefas pelos membros da comunidade.
São também as memórias que me movem. As minhas e as que ao longo da minha modesta existência me foram sendo reproduzidas em histórias que soube escutar e guardar. Hoje, no entanto, não vos vou falar dessas memórias. Falo-vos de outras que nos surgem todos os dias, mas perante o qual tantas vezes persiste a nossa indiferença. Como acima referi, falo-vos do nosso património, das heranças de antepassados longínquos esculpidas no granito pelo suor, lágrimas e paixões dos homens. O objectivo destas palavras, também elas cinzeladas, é dar um contributo no sentido da tomada de consciência de todos nós para o necessário cuidado merecido por essas heranças. É a defesa do nosso património que está em causa, como expoente máximo da nossa identidade, e tão sujeito a várias ameaças, sendo a maior de todas elas o nosso próprio esquecimento ou a memória retraída das nossas heranças.
Onde está a história do nosso povo? Não deve ser certamente silenciada pela indiferença no silêncio dos granitos ou das casas destelhadas. Deve ser enobrecida toda essa herança para que as gerações vindouras possam igualmente delas usufruir e para que as gerações vindouras sintam a nossa preocupação, quer para com elas quer para com os nossos antepassados. Só através da consciência de todos poderemos ver garantida a passagem desta herança colectiva para os que a seguir a nós virão. Não nos basta deixar palavras, gestos de intenções que se guardam para momentos de maior solenidade, importa sermos capazes de deixar a todas as gerações seguintes não só o património intacto mas, e talvez o mais importante, a importância que esse património assumiu ao longo das nossas vidas, quer como memória reposta de outros antepassados quer como juízo simbólico ao nosso sentir a sua presença em nós.
Cabe-nos a nós, cidadãos conscientes e responsáveis, zelar por este património colectivo, contando para tal com a intervenção efectiva de todos, seres individuais ou mesmo representantes institucionais. Certo é que os poderes públicos, centrais ou locais, têm de assumir as suas responsabilidades nesta como em outras matérias, contudo não podemos permanecer apáticos à espera que esses mesmos poderes públicos tomem qualquer iniciativa com o qual vamos concordar ou discordar. Cabe-nos a nós, em primeira instância, enquanto cidadãos e membros desta comunidade não só zelar por essas heranças como, se for esse o caso, solicitar junto dos poderes públicos a sua intervenção. É a nossa intervenção que dá voz ao nosso sentir toda esta pesada herança e garante a nossa participação efectiva na denominada sociedade civil, fundada neste aspecto como expressam da nossa responsabilidade.
Aproveito esta minha curta intervenção para vos apelar a um sentido maior de preocupação com tudo aquilo que nos rodeia e que tantas vezes se nos apresenta de forma indiferente. Sinto que estamos a perder um pouco de nós mesmos. Ora são as nossas crianças a trocarem tantas vezes o olhar atento das meras pedras da calçada por um qualquer artefacto desmembrado em plástico e infelizmente produzido por outras crianças, ora são os nossos idosos que não conseguem ver recolhido o testemunho original das suas vidas. Entre esse eixo de preocupações decidi reflectir com vós sobre o nosso tão valioso património que, como sabem, devidamente salvaguardo pode ainda ser um importante elemento de promoção da nossa região. Património e espaço natural são, sem dúvida, duas mais valias que possuímos e delas podemos e devemos tirar partido através da sua inclusão em iniciativas culturais e turísticas, entre outras.
Não podendo fazer aqui, por razões óbvias, um levantamento exaustivo de todas as situações deixo como exemplo as sepulturas antropomórficas localizadas no Largo do Colóquio/Rua do Pombal - em total abandono- , e o praticamente lendário Buraco da Moira, ambos localizados no Folhadal. O mesmo se aplica a tantos cruzeiros existentes em todo o concelho, os quais não devem ser unicamente encarados enquanto meros pedaços de granito trabalhado, como sabem, simbolizam o sangue derramado sobre a terra, nessa medida, cabe-nos a nós zelar pela sua conservação e pela sua identificação, cumpre-nos esse ensejo. Tantos outros exemplos diariamente se nos apresentam, basta que cada um lance o seu olhar atento. Tantas histórias porventura se estão a perder, porque não promover a sua divulgação e estudo? Estou certo que em muitas localidades do nosso concelho temos um valioso património a defender e promover.
Concluindo a minha exposição, deixo como sugestão que se proceda, de modo genérico, da seguinte maneira relativamente a tudo quanto possa revelar-se de interesse histórico: limpeza e melhoria de acessos nos casos necessários, colocação de placa de identificação no local, levantamento fotográfico com fins de catalogação. A estas primeiras intenções deve seguir-se a realização de uma exposição fotográfica e etnográfica com o material recolhido, paralelamente ao qual é possível, assim penso, organizar visitas de estudo regulares dos alunos das nossas escolas e de todos os interessados, podendo mesmo incluir-se em roteiro turístico. Por mim, fica a sugestão e a disponibilidade para colaborar em qualquer iniciativa. Obrigado!

José Gomes Ferreira
publicado por José às 11:18