À memória da minha avó Teresa,
que me ensinou a trilhar tanto estes como outros caminhos da vida


Após ter publicado no final do ano passado, neste nosso jornal, um artigo genérico dedicado à problemática da preservação do património, designado "Memórias que não se querem apagar", no que agradeço desde já as fotografias que ilustraram fielmente as minhas palavras, achei por bem dar sequência ao carácter ainda mitigado da reflexão nele contida. Desta feita, embora sem possuir o engenho e a arte de um jornalista, parti para este imenso reservatório de cultura que são as nossas tradições, os nossos antepassados, a nossa ligação à terra fértil e cheia de encantos, em direcção aos símbolos da presença do homem sobre a terra e aos objectos utilizados na sua conquista. Assim, para dar cumprimento a esses objectivos encetei uma pequena recolha fotográfica desses elementos que penso serem caracterizadores da nossa história e do património do nosso concelho, sendo certo que a essas imagens estáticas acrescem outras tantas rendilhadas de movimento, de um labutar quotidiano das nossas gentes e de um descontraído gesticular da natureza vivido no sublime voo das aves e no sequencial correr das águas rumo ao grande oceano. É assim que surge o presente artigo, certamente também ele construído com os materiais que a memória de acontecimentos vividos e contados coloca à disposição e sem os quais seria uma tarefa em vão partilhar convosco estes momentos.
Sublinho desde já que, de modo a aproveitar o acervo fotográfico iniciado já há cerca de dois anos e agora reforçado, penso vir ainda a publicar nos próximos meses dois outros artigos, respectivamente com os subtítulos "Instrumentos do quotidiano rural" e "Lugares da História", podendo eventualmente haver lugar para mais alguma apresentação. Cumprindo-se assim uma trilogia de exemplos apresentada a partir da reflexão generalista acima referida
Feitas as anotações a esta peça cabe frisar que a sua tematização obedece unicamente a critérios que se prendem com a necessidade de cuidar e dar a conhecer os elementos do património em risco de destituição da memória e da sua própria narrativa. Move-me a vontade de contribuir com estas minhas palavras para o engrandecimento dos nossos valores naturais e patrimoniais, e para a necessidade não só da sua protecção e preservação, mas tanto mais da partilha com as gerações mais novas. A sua publicação num jornal com as características do Planalto aumenta, quanto a mim, o sentido de oportunidade do texto, uma vez que enquanto testemunho, singular por certo, da identidade e dos elementos locais surge, assim espero, como um contributo ao não esquecimento e como um esforço no sentido de um cuidar de si para aos outros dessa identidade e desses elementos locais. Tarefa para o qual a imprensa regional e local tem um papel importante a desempenhar, embora seja a nós mesmos que cumpre todo o empenho e sentido de participação neste como em outros processos, é essa aliás uma das nossas responsabilidades de cidadãos, face ao qual de modo algum nos devemos abster.
Caros amigos! Chamei a este artigo "Profissões de outrora", embora dedicado a lugares e presenças, sabendo que desses lugares e desses gestos doces retirados à Natureza, como se pode ver pelas fotos, nada mais resta do que um amontoado de granitos submersos em silvas e mato maior que os sonhos do Homem. Foi por causa disso que me aventurei a fotografar um desses lugares, já sem profissões, já sem gentes e sem o singelo sabor a humanos sorrisos. Digo-vos que foram enormes as dificuldades que passei para obter estas fotografias, mas estou consciente de que essas barreiras naturais e a sua beleza exigem um pouco de empenho na sua reconquista, para mim não são essas dificuldades que fazem sentido, partilho com todo o prazer estes momentos, sabendo que a película não registou as tantas vezes que por ali passei nem as tantas vezes que por ali me detive.
Como podem observar, esta é assim a história da aventura de muitas vidas, aqui somente deixo uma alusão minimal do lugar, uma breve viagem que agora eu próprio também efectuei por entre giestas, silvas e coisas tantas. O motivo de apresentar este artigo prende-se basicamente com a necessidade de reflectir e de fazer incidir as minhas reflexões sobre outros lugares do concelho, sem que com isso deixe de estar presente a realidade vivida de muitos anos na minha outrora pequena aldeia e os laços bem fortes que nos unem. Como muitos sabem, a minha ligação à terra durante muitos anos tomou o ritmo que as colheitas nos dão e por causa disso tomou o rumo de vários locais nem sempre próximos, tomou o rumo das vinhas, dos olivais, do milho para regar, do frio singelo de Inverno e do colorido estonteante das outras estações do ano. Foi, pois, em face das últimas palavras que procurei uma encruzilhada de tempos e de lugares.
O trecho de água que move o moinho de água aqui exposto localiza-se a noroeste das Caldas da Felgueira, a uns escassos metros da ponte sobre o ribeiro que já moveu esta mó, na confluência da minha infância e adolescência com a distância forçada da idade adulta. Recordo ainda, embora de poucas vezes, haver por ali um moleiro que com um burro transportava as sementes para o seu moinho, como num ritual de harmonia entre as águas e a cadência da mó. Enquanto a farinha haveria de retomar todo aquele percurso, com o burro e o seu dono a subirem a pequena ravina em esforço com o suor de um dia de trabalho. Lembro-me de ter espreitado algumas vezes para o rodopiar daquele imenso granito sobre as sementes, também elas colhidas com suor da Natureza. Encantava-me aquela cadência! Além disso não sabia o porquê daquele homem ter as suas roupas salpicadas de branco, ainda por cima numa terra em que as roupas pretas sempre serviram para enlutar os corações. Como se fosse magia, homem, animal e naturezas aparentemente mortas, faziam parte de um imenso quadro com uma beleza sem igual, onde as máquinas se ficavam por um velho relógio, também ele salpicado de farinha, retirado do velho colete e onde as palavras se limitavam a tantas ausências como às vezes que o velho moleiro reclamava com o seu burro, pois nem sempre tinha com quem partilhar um "Bom dia!" que fosse.
Os lugares de que vos falo vivem agora inertes a si mesmo, sem vozes, num imenso silêncio, sem silêncios, sem o suor dos homens e a companhia dos animais. Não sei se ainda haverá vivos moleiros de moinhos de água no nosso concelho, penso que constituiria um gesto de gratidão a recolha do testemunho das suas vidas e partilha dos seus rituais de ocupação da natureza com todos os leitores. Não me refiro tanto a uma recolha científica exaustiva, mas a um relato sabido e verosímil que na sua transcrição permita constituir-se como testemunho vivo de uma profissão e de uma memória imensa.
Através destas palavras levo até vós, Amigos, o exemplo de profissões que entretanto se extinguiram, pelo menos nos moldes em que era outrora exercida, considerando o exemplo dos moleiros como um dos mais ricos nessa qualidade de exemplo pelo facto da sua herança, os moinhos, nos permitir pensar na sua labuta e na sua relação tranquila com a natureza. Embora sabendo que este é somente um dos múltiplos exemplos de profissões que o avanço do modelo sócio-técnico praticamente extinguiu, outros exemplos podem ser dados e posteriormente trabalhados.
Ao terminar cumpre referir que a tematização de uma matéria, que para muitos poderá nem sequer ser classificada como notícia, ganha maior dimensão ao permitir levar à discussão outros elementos, como sejam: a utilização de energias alternativas, neste caso a força quase inesgotável da energia das águas no mover da mó; o património construído como factor de promoção turística, certamente de grande interesse neste caso dada localização do moinho nas proximidades das Termas das Caldas da Felgueira, local turístico por excelência da nossa terra; e o problema da poluição das águas, o ribeiro em referência transportou durante anos "escorrências" porventura radioactivas dos minérios da Urgeiriça, não sei até que ponto devidamente tratadas e salvaguardada a saúde pública. Aqui fica simplesmente a referência de alguns desses tópicos, os quais merecem só por si uma reflexão atenta e a recolha de outros elementos que possam servir de suporte a outra qualquer reflexão, sem os quais não me quero atrever a falar no vazio.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 11:19