Como tinha prometido cumpro neste artigo a apresentação de uma trilogia de exemplos sobre as questões do património existente no nosso concelho herdado dos nossos antepassados, depois de em finais do ano passado ter publicado um artigo com características teóricas relativo à mesma matéria.
O rol de exemplos que aqui incluo para muitos de vós talvez sejam a ilustração de algo não classificado integralmente como de património construído, aliás, à semelhança do que possa ter acontecido com os artigos anteriores. No obstante, quando se fala em património e na necessidade de o conservar, preservar e valorizar, não falamos somente de monumentos, de palácios, de conventos ou de gravuras do Paleolítico. Falamos, igualmente, nas pequenas coisas que por singulares que são invadem suavemente o nosso quotidiano, é essas pequenas coisas que eu procuro divulgar e fomentar um "cuidar de si" por todos nós e para os outros. Assim apresentei os moinhos de água e a sua importância enquanto exemplares únicos de ligação do homem, no caso o moleiro, à terra. Assim apresentei os objectos do quotidiano rural que gradualmente tendem a desaparecer, por isso a urgência de manter pelo menos exemplares únicos em estrutura própria. Desta vez, neste número do nosso Planalto, preocupei-me em alargar o âmbito desta pequena viagem com outros símbolos da nossa riqueza cultural e natural. As fotografias apresentam três momentos únicos da nossa história em três exemplares nada semelhantes. Procurei recolher alguns ícones da sociedade civil, da vida religiosa e da dimensão sócio-técnica: por isso apresento o pelourinho do Folhadal, pilar da fundação desta terra, uma dádiva de D. Dinis aos seus 26 moradores e um legado que nos ficou desses moradores; por isso apresento o cruzeiro, um símbolo da religiosidade das nossas gentes e do seu respeito pelos mortos; e por isso apresento o denominado marco geodésico, que apesar de ser um monumento classificado não passa de uma desconhecida torre a fitar a beleza da Serra da Estrela como se a distante montanha fosse uma miragem.
Sei que outros exemplos se podem oferecer ao leitor, por agora vão ter de ficar de fora, mesmo assim tenho a convicção de que os exemplos apresentados despertaram em vós o interesse pelas questões que aqui me trazem. Se bem se lembram tinha um objectivo à partida, que era exactamente o de elucidar a população e os seus representantes para a necessidade de dar continuidade ao projecto de comunidade ensaiado pelos nossos antepassados, sobretudo no que se refere ao respeito pelos valores naturais e patrimoniais, tarefa a executar mediante a valorização das suas heranças e pela sua transmissão às gerações vindouras. Dizer que esse objectivo foi conseguido corresponderia à valorização de mim próprio, não é isso que pretendo concretizar. Estou convicto que alcançar os objectivos a que me propôs não é obra de uma única pessoa nem se consegue num só dia, terá de nos comprometer a todos e de ser um processo continuado, não um processo de intenções, antes um processo de constante aprendizagem e reprodução dessa aprendizagem, também ela a passar dos pais para os filhos, de gerações para gerações. O meu maior desejo é contribuir para a efectivação desse projecto de aprendizagem.
Cabe a cada um intervir na defesa dos seus legítimos interesses, ainda que em verdade não sejam interesses individuais. Neste processo cabe às escolas, como principais instituições socializadoras, a par da família, participar no processo educativo e civilizacional das nossas crianças, incutindo-lhe esses princípios colectivos e promovendo um cada vez maior envolvimento destas crianças com o meio natural e cultural que as envolve. Em contrapartida, cabe aos poderes públicos satisfazerem os anseios das populações que representam, agindo em consonância com os princípios para o qual foram eleitos, na sua qualidade de representantes do interesse público.
Na conclusão deste texto e desta trilogia deixo uma ideia, que penso possível de concretizar, pois os custos são certamente menores que a herança que permitem deixar. A ideia foi sendo ao longo dos últimos meses que convosco estive apresentada, refiro-me à catalogação em livro ou publicação similar de monumentos e lugares da nossa história e do nosso concelho. Esta obra, por certo, iria encher de orgulho as nossas gentes e acabaria por ser também ela um monumento da nossa história, para além de um catálogo turístico por excelência. Até lá deixo estes meus artigos, que em papel ou no futuro em microfilme, podem também servir de breve testemunho das nossas riquezas e, infelizmente, da nossa manifesta incapacidade de as reconhecer enquanto total. Por mim, por todos nós, não é esse o meu desejo. Aliás, felizmente, sinto que não é esse o desejo de nenhum de nós, prova disso está na atenção dada por todos ao problema focado no meu artigo "Água imprópria para consumo", espero pela sua continuidade. Aproveito para apresentar as minhas desculpas a todos aqueles a quem quer que a água faz falta para regar os seus canteiros, espero que compreendam que quando se trata de Saúde Pública o interesse colectivo não pode de modo algum ser colocado em risco. Obrigado!

José Gomes Ferreira
publicado por José às 11:20