Onde estão os velhos carros de bois? Poderá ser este o mote para uma longa discussão em redor da perpetuação do passado no presente. Esta foi uma das questões que coloquei várias vezes quando efectuei a recolha fotográfica de que vos falei no artigo anterior. Não obtive até hoje qualquer resposta agradável, sei que não fiz uma busca exaustiva mas devem ser raros os carros de bois, sobretudo os carros de juntas de bois, existentes hoje no nosso concelho. Ganham assim maior importância, pelo menos é o que eu penso, as palavras e as fotos que aqui exponho, uma vez que assim se manifesta ser urgente promover iniciativas que permitam salvaguardar estas heranças do passado. Atrevo-me a lançar o seguinte alerta: “Não vamos deixar morrer a nossa história!” Estamos a falar do testemunho da presença dos nossos antepassados sobre a terra, da cultura do nosso povo, da labuta quotidiana das nossas gentes, do suor, sangue, alegrias e lágrimas de muitas gerações. É nosso dever respeitar e zelar por essa herança de modo a transmiti-la da forma mais intacta possível às gerações vindouras.
Para satisfazer, em parte, o objectivo que acabo de referenciar apresento pequenos objectos que rotulei de “Instrumentos do quotidiano rural” mas que na verdade são objectos da nossa história presente, objectos que foram incapazes de reagir à gradual mecanização dos processos agrícolas e que por isso envelhecem escondidos por entre palavras, restos de madeiras, ferros e num amontoar de ausência de cuidar e prolongar.
São meros exemplos, eu sei, tão banais como o amanhecer no vale do Mondego. Mas é perante tamanhas marcas herdadas da relação do homem com a terra que me movo e removo ao sentir que nada se tem feito no sentido de as preservar. Esta é a tradição cultural de uma terra de gentes que toda a vida amanharam a terra para dela retirarem o seu sustento e que por isso mesmo nos conferem a responsabilidade, enquanto cidadãos de pleno direito e atentos à odisseia das civilizações, de intervir no cuidar destes objectos utilizados na conquista desta terra rica em experiências humanas e em afectos.
Na minha opinião, assim nos cabe, em primeiro lugar, proceder ao diagnóstico do que ainda se pode aproveitar e zelar pela sua conservação futura. Nesse sentido, seria desejável existir no nosso concelho uma estrutura do tipo Museu Etnográfico ou uma instalação semelhante. Essa estrutura teria como principal objectivo estabelecer uma ponte entre passado, presente e futuro na nossa terra, cuidando das heranças do passado, expondo ao público no presente essas heranças para assim tornar possível prolongar a sua existência pelo futuro. Muito me agradaria saber que este meu desejo vai de encontro a desejos semelhantes e que juntos, com dedicação e carinho pela nossa terra, fossemos capazes de erguer este monumento de homenagem a todos quantos já partiram e nos deixaram os seus testemunhos em forma de objectos.
Além da referência aos carros de bois apresento nesta peça fotografias de três exemplos ainda bem presentes na memória das nossas gentes, embora saiba que muitos outros exemplos já se escaparam dessa memória e são para muitos de nós meros complementos do imaginário colectivo, por isso mesmo, como acima referi, ganha um estatuto prioritário proceder à recolha e gestão deste enorme reservatório de cultura. Estou certo de que muitos dos instrumentos de que vos falo, na eventualidade de se proceder à sua salvaguarda numa estrutura idêntica à referida, seriam cedidos de boa vontade por muitas das pessoas que os possuem, pois não sendo indiferentes ao que nos rodeia teriam todo o prazer em contribuir para algo que nos dignifique a todos. Por mim deixo já através destas palavras e destas fotografias um contributo primeiro para que uma iniciativa desse género possa vir a ter lugar, dispondo-me a outras contribuições futuras caso seja para tal solicitado. Estou certo que uma tarefa deste género implica superar muitas dificuldades, sobretudo institucionais, dadas as limitações de verbas para fazer coisas de raiz, mas também estou certo que a vontade das pessoas é capaz de mover montanhas e dar os seus proveitos, por isso confio essa tarefa a todos nós, em geral, e aos nossos representantes, em particular.
Feitas as devidas considerações resta-me fazer uma breve referência aos objectos apresentados. São eles: um serrote de lenhador, um charrueco (parente mais próximo e mais pequeno da charrua ou arado) e por último uma “traiéla” (em muitos locais designado por malho). Talvez nem tanto o charrueco, mas o serrote e a "traiéla" representam talvez ainda mais o sentir comunitário das nossas gentes, com as tarefas a serem realizadas em conjunto, tantas vezes com as tristezas a dissolverem-se nas alegrias das cantigas que acompanhavam cada cereal ou cada tronco a cair no solo. O charrueco representa mais especificamente o rasgar dos sonhos dos homens e a realização desses sonhos, por sinal a realização depois alcançada em plenitude quando o resultado tombar já sobre a eira à espera de ser tocada pela azáfama de homens, mulheres e crianças, com os ancinhos, as “traiélas” e os dias de verão.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 11:21