Embora Verão, momento para o descanso de muitos e aumento da azáfama para outros, parece ser também este um momento oportuno para falar sobre um dos mais graves problemas de Saúde Pública que durante décadas terá afectado silenciosamente muitos de nós ou dos nossos antepassados. Refiro-me, claro está, à radioactividade gerada por via da exploração de urânio nas Minas da Urgeiriça.
A sua oportunidade advém, por um lado, da apresentação de um documento por parte de um dos partidos com assento na Assembleia da República, da autoria de um deputado originário da região. A este respeito convém reforçar que, pessoalmente, não assumo, nem expresso, qualquer preferência política, como tantas vezes digo, o meu partido são os cidadãos, são eles que me interessam e não o aparelho do partido A, B, ou C. Não quero com isto dizer que os partidos não sejam importantes, naturalmente que o são, pois assumem-se como um dos pilares da Democracia, embora sem a criação dos chamados círculos uninominais se coloquem várias questões, mas não é sobre elas que escrevo este artigo.
A oportunidade advém, por outro lado, pelo menos foi um dos motivos que serviu de inspiração a este artigo, da exibição em momento oportuno pela RTP1 de um programa da série Planeta Azul dedicado ao problema das minas portuguesas de urânio e dos problemas a elas associados, que pela parte que me toca espero que venha a dar atenção às minas da Urgeiriça. Confio na objectividade do Planeta Azul, um dos programas que, sem sombra de dúvidas, cumpre o tão falado Serviço Público de Televisão, peca talvez pela hora em que tem ido para o ar, que como muitos sabem tem lugar aos Domingos antes da emissão do Jornal da Tarde, sendo posteriormente repetido no final da tarde de Segunda-feira.
Não vou aqui tomar as linhas de apresentação quer do texto apresentado à Assembleia da República, nem imaginar quais as linhas do intervenção do programa Planeta Azul, ou então esperar pela sua emissão, esses são apenas motivos acrescidos, só por si não justificam, pela minha parte, este artigo, embora sejam da maior importância. Focados estes dois elementos cabe assim dar sequência ao artigo.
Assim, pela parte que me toca, retomo, como tantas vezes o tenho feito, as minhas memórias. Como muitos sabem, vivi e cresci a trabalhar na agricultura, vivi e cresci entre o nosso Folhadal e Nelas, mas também entre as Caldas da Felgueira, Vale de Madeiros e Canas de Senhorim. Porque a minha avó Teresa casou em segundas núpcias com o meu avô José Valério, sendo este último natural de Vale de Madeiros e proprietário de vários terrenos agrícolas dispersos entre as três últimas localidades.
Esta referência mais pessoal, neste caso justifica-se, pois foram essas vivências que me levaram a outros lugares e a conhecer outros rostos, tantas vezes incapazes de deixarem de comentar aquele quadro com duas crianças tão jovens em tarefas e em lugares já em progressivo abandono. Foi assim que cedo me confrontei com as águas poluídas de um ribeiro, cujo nome de momento não tenho presente, mas que referi num anterior artigo dedicado aos moinhos de água. Este ribeiro corre das proximidades das minas da Urgeiriça em direcção às Caldas da Felgueira.
Não sei se era da limpeza de algum minério, porventura urânio, porventura do que restava da exploração do volfrámio, esse ribeiro corria amarelo, por vezes quase laranja, recordo-me que não impedia o milho de crescer, mas crescia num verde opaco. Ao seu lado, as ervas daninhas que crescem em redor de todos os milharais quase não cresciam, por sua vez a terra parecia uma esponja,, quase como um doente em coma, como quem sem dor e sem prazer.
Recordo-me de ver pessoas andarem muitas vezes descalças com os pés na água, talvez eu tenha feito o mesmo. Nunca soube o que era aquilo que corria para o Mondego, recordo-me apenas de regar aquele milho com aquela água e de muitas vezes fazer o mesmo a umas oliveiras que estavam bem junto à velha ponte do dito ribeiro nas Caldas da Felgueira.
Não tenho memória das populações serem advertidas para os perigos daquele ribeiro. Sei que na altura não era tão pública como agora a problemática da radioactividade, sei também que as problemáticas do Ambiente e da Saúde Pública eram na altura, infelizmente tal como em muitos casos agora, praticamente ignoradas. Mas sei também que, culpados haja, nunca é tarde assumir as culpas e fazer o Rastreio da população, penso ser o mínimo que se pode esperar, quer da Empresa Nacional de Urânio, quer do próprio Estado português, pois são ambos culpados. De uma coisa me recordo, uma vez por ano chegava uma carta da E. N. U., para se receber determinada importância em dinheiro, que para muitos era o suficiente para regressarem aos seus lameiros regados por aquelas águas e apenas regressarem no ano seguinte.
Não venho aqui pedir nada, até porque talvez seja difícil provar que a radioactividade terá tido efeitos nefastos sobre a Saúde dos nossos antepassados. Mas venho aqui, apenas, pedir que se encarem os erros do passado e se encarem de frente todos os problemas que no futuro possam surgir. Não peço, como é lugar comum, que se faça justiça, mas sim que se informem os cidadãos de todos os problemas que os possam afectar, melhorando o seu bem-estar e a sua qualidade de vida. Pela parte que me toca, penso não ser pedir muito. Assim espero, que quem de dever cumpra a sua parte, é certo que tenho as minhas dúvidas, pois meses passados ainda encontro as manilhas quebradas como há 20 anos. Parece que assim jaze a nossa História. Deste Vosso Amigo, com desejo de um Bom Verão.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 11:24