Num país em que se gastam milhares de contos em sondagens cujo objectivo é dissertar nas primeiras páginas dos jornais e na abertura dos telejornais acerca de qual será na verdade "a cor do cavalo branco de Napoleão", chegando em alguns dos casos a formarem-se comissões de inquérito para o efeito ou então ver-se a oposição e os governantes a usarem com toda a legitimidade longos períodos de debate parlamentar onde ambos querem concordar que a dita cor é branca, mas acabam por discordar entre a branca e a branca, porque não fica bem concordarem com os seus opositores, num país como este, dizia, ficam por debater algumas das mais importantes questões do interesse nacional. Neste caso, falo-vos do Euro, essa ilustre e desconhecida moeda única.
Dizem-me: "Mas a comunicação social tem falado nisso!", "É verdade!", digo eu. A questão é que comunicação social, apesar de ser um importante veículo de transmissão de informação ao público, ocupando na opinião de muitos o lugar de quarto poder, por vezes, até uns degraus mais acima, pode ser também um factor de distanciamento em relação às informações que produz/reproduz. Com a familiaridade dos acontecimentos muitas são as vezes que não deixa no público mais do que um lamento face ao que se passa lá longe, levando as pessoas a habituarem-se a ver as imagens que no quotidiano chegam aos seus lares e a distanciarem-se dos seus conteúdos. Por vezes uma lágrima é solta em cada rosto porque as televisões "vivem" os dramas de uma ponte que caiu, por vezes uma dor aperta o coração porque a fome e a sida levam crianças indefesas.
O que aqui vos trago remete-nos para o facto desse factor de proximidade desta vez ser tão real quanto tão despreocupante por parte de quem de direito e de todos nós. Desta vez somos nós, e outros europeus claro, os motivos da notícia, ainda assim somos teimosos, não queremos saber do que se passa, o problema é que no final do presente ano o Euro vai fazer parte dos nossos quotidianos.
Como sabem, o Euro é já a moeda oficial dos países da União Europeia que participaram na União Económica e Monetária, embora ainda não estando disponível em forma de notas e moedas. A 1 de Janeiro de 1999 tornou-se possível efectuar pagamentos em Euros através de cartões de crédito e de débito, cheques ou transferência bancária. Como igualmente sabem a 1 de Janeiro de 2002 começam a circular as notas e as moedas de pagamento em Euros.
O quadro que se apresenta resume em traços gerais o calendário da introdução do Euro, generalizando a dita moeda pelos países aderentes. 1 de Janeiro de 2002 Entrada em circulação de notas e moedas em Euros
Início da retirada de circulação das notas e moedas nacionais
Janeiro a Fevereiro 2002 O Euro e as moedas nacionais vão coexistir sob a forma de notas e moedas
1 de Março de 2002 Retirada definitiva de circulação das moedas e notas nacionais e utilização exclusiva do Euro
A nova moeda tem como grande vantagem não necessitar de ser trocado nos países onde circula, uma vez que é a moeda corrente em todos eles. Note-se que a possibilidade de poderem ocorrer enganos nas conversões dos Escudos para os Euros foi reduzida no momento em que foi fixada a taxa de conversão, em que 1 Euro corresponde a 200, 482 Escudos.
Estas e outras informações já os meus amigos leitores do Planalto conhecem através das campanhas entretanto lançadas. O que está em causa, na minha opinião, é que essas campanhas não me parecem ser eficazes, por isso, talvez se imponha uma mudança de estratégia que, pela urgência do problema, deve passar por informação do tipo porta-a-porta, caso contrário, penso ser preocupante a possibilidade, infelizmente bem real, de ocorrem situações de burla, sobretudo em meios mais fechados e mais isolados, envolvendo grupos etários específicos, provavelmente os mais idosos. Não é a preparação dos bancos e das empresas que me preocupa, isso são questões técnicas que a essas entidades cabe resolver, essa é a sua obrigação. Quem me preocupa são os cidadãos indefesos capazes de caírem na trama dos burlões, não tenho dúvidas que isso se trata de uma questão de segurança nacional e que por isso mesmo cabe ao Estado garantir a segurança de todos os cidadãos, segurança que neste caso é melhorada com campanhas de informação adequadas e capazes de irem ao encontro dos reais interessados, que por acaso somos todos nós. Jovens, adultos e idosos, pobres ou ricos, com ou sem formação académica, portugueses ou europeus, somos todos nós que rapidamente vamos deixar de usar o escudo como moeda de circulação, com tudo o que isso implica, num país em que o escudo sempre foi um símbolo nacional, mesmo nos momentos trágicos das sucessivas desvalorizações. O que será das pessoas que sempre viveram com o escudo? Essa é a questão que se coloca, pois não se trata de fazer uma qualquer diferença cambial, como o fazem os nossos emigrantes, mas de passar a viver de acordo com uma lógica de troca assente numa outra moeda - o Euro. Por mim, termino aqui as palavras que tinha guardadas para vós, espero com elas alertar para possíveis situações gravosas do bem público e contribuir de alguma forma para a informação do leitor sobre esta matéria. A vós cabe-vos escutar de forma atenta o que o simpático senhor do anúncio nos diz e, sempre que possível, questionar as respectivas entidades bancárias sobre a questão ou então recolher informações directamente junto da Comissão Nacional Euro e do Observatório Nacional do Euro, entre outros exemplos. Fiquem atentos!

José Gomes Ferreira
publicado por José às 11:25