Findo o mito de uma ciência unicamente criadora de benefícios, com capacidade de resolução dos problemas que quotidianamente se nos apresentam, os actuais momentos apresentam-nos novos e surpreendentes desafios.
Invadem-nos com os discursos acerca das novas tecnologias da informação. São para nós um labirinto infindável de oportunidades de circulação num espaço-tempo dissolvido na ilusão da presença de outrém. Como se o consolo da vizinhança nos cativasse em permanência.
Em nós emerge um desejo subalternizado. Somos reflexos distantes das memórias dos nossos antepassados. Surgimos como vozes e imagens de um mundo virtual. Cheio de luzes, de cores, de chamamentos. Inerte à faculdade de sentir.
Gestos e rituais são trocados por palavras dispersas. Configurados em catadupas de informação. Olhares diversos sobre realidades tão equidistantes que próximas.
Já não sabemos dormir sem dizer olá ao outro lado do mundo. Já não sabemos percorrer a rua e escutar quem chama por nós. Vivemos de imagens e sons. Circuitos que a Internet multiplica e os telemóveis sintetizam.
Prometem-nos discutir o poder das biotecnologias. Tudo esperamos dos poderes públicos, na ânsia de poder proteger os interesses privados, na expectativa de alguém anunciar defender a condição humana deste Homem artifício. Move-nos a Natureza, nela se dissolve a nossa capacidade de criar novos mundos a partir de um mundo objecto.
Esquecemos a importância de um olhar e de um poder sorrir bafejando as palavras trocadas em jeito de melodia, do crepúsculo ao amanhecer. Mais grave ainda, damos a nós mesmos a liberdade para legitimar a indiferença.
De nós são retirados meros pedaços de compaixão, levados à ribalta sob a forma de títulos de meros acontecimentos. Por eles damos a mão a Timor, por eles não sentimos serem nossos os horrores do Kosovo, do Ruanda e de Angola. Não são dados à nossa proximidade, são tomados como meras imagens que facilmente se confundem com filmes. É certo que uma ou outra lágrima se desprende no passar da película, dá para se acreditar na capacidade de ainda sentir dor.
Os écrans inundam-se de água e lodo. Moçambique já não chora porque os rostos estão ensopados na esperança!... Depressa os soldados são mobilizados para combater, lenta é a agonia de dar à luz uma criança na copa de uma árvore.
Num ou outro lugar são desperdiçados os alimentos que um povo tanto deseja. Num ou outro lugar é indiferente o sofrimento. Não nos movem as causas alheias. É tamanha a aceitação da dor que os outros sentem. É atroz a não dignificação da pessoa humana em todos os cantos de um mundo tão frequentemente apelidado de global.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 11:27