Nestes últimos meses têm sido tantas as imagens e palavras que todos os dias passam nas nossas televisões, rádios e jornais que o simples ser humano se sentirá como fazendo parte de uma história vertida para os ecrãs por um qualquer filme de Hollywood. O certo é que para ser um filme rodado na América nada lhe falta, pois tem os vilões e os heróis, bem à medida do cinema das terras do dito tio Sam.
Por cá reproduzem-se essas imagens e acrescentam-se as imagens de umas apáticas campanhas eleitorais, aliás também elas com vilões e heróis e, do mesmo modo bem aproveitados para aquecer as audiências da estação ou jornal.
Naturalmente nada tenho a obstar contra o direito à informação, nem contra qualquer meio de comunicação social, o mesmo não posso dizer do chamado agendamento das notícias, ou seja, sobre as notícias que "elegem" para figurar nos seus noticiários ou páginas de jornais e a posição que ocupam nesses minutos ou espaços de notícias (por exemplo, na primeira página ou nas páginas centrais). É esse agendamento que nos bombardeia com notícias tipo "pronto-a-vestir", deixando à margem os problemas quotidianos dos portugueses, e quando isso não acontece a notícia presta-se, por vezes, a servir de exposição da desgraça alheia. Com a agravante de quem vê, ouve ou lê ficar como que sonâmbulo face ao sofrimento, pois ele são tantas as mortes que todos os dias nos são anunciadas que a própria morte parece afirmar-se gradualmente como uma notícia que vai deixando de ser notícia, dada a sua frequência.
Assim se têm ignorado questões fundamentais, quer numa escala global quer numa escala local. Poderia dar vários exemplos, todos os dias surgem aos nossos olhos, mas em vez de deixar uma lista de exemplos vou unicamente centrar as minhas palavras em redor da temática que me tem absorvido nos últimos anos, porventura absorveu a vida inteira, estou a falar do Ambiente ou numa dimensão mais contemplativa e conceptual, da Natureza.
É preocupante que nas vésperas de mais uma Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, dez anos depois da Cimeira da Terra no Rio de Janeiro, (também conhecida como Eco 92), a comunicação social ignore de forma sistemática a realização da referida conferência. Com excepção de um círculo restrito de interessados na dita conferência ou apenas interessados em perceber o mundo que os rodeia mais ninguém está a par dos debates que vão ocorrer sobre o seu futuro. Certo é que não podemos culpar a comunicação social portuguesa desse esquecimento do seu dever de informar o que muitos dizem ser a opinião pública, pois estamos perante dinâmicas mediáticas de cariz empresarias inerentes a uma economia dita de global, que podem mesmo entrar em choque com critérios jornalísticos, bem como com o proclamado interesse e serviço público.
No caso concreto de Portugal o que é curioso é que, no momento pós eleitoral que vivemos muitas das ideias a serem defendidas na conferência a realizar em Joanesburgo no presente ano fizeram parte de alguns cartazes da campanha eleitoral e mesmo dos seus programas eleitorais.
Pela parte que me toca, pela oportunidade que tive em observar os capítulos relativos ao ambiente e ao ordenamento do território dos partidos com assento Parlamentar, considero-me maravilhado com algumas propostas, embora consciente do seu mero carácter de propostas, mas também me sinto assustado. Sobre este último aspecto posso deixar o exemplo da problemática, já longa, do processo da queima de resíduos indústrias perigosos pela indústria cimenteira, processo que conheço relativamente bem desde o eclodir deste conflito ambiental no ano de 1998. Ora, o que se verifica desde essa data, incluindo na campanha eleitoral, é que o problema tem vindo a ser adiado com pormenores de circunstância, sem que nesses pormenores se debatam as questões fundamentais. O que eu vejo são soluções pontuais. Com a agravante, penso que todos nós sabemos, da informação facultada ou omitida se dirigir a uma opinião pública tantas vezes incapaz de descodificar pareceres científicos, discursos políticos ou especulações jornalísticas. Uma opinião pública mais habituada a dar protagonismo aos ilustres da sua terra.
Enganem-se os leitores que pensam que esta temática nada tem que ver com a nossa terra. Tanto tem porque os problemas deste planeta a todos nós dizem respeito e porque as questões que todos implicam exigem a participação de todos no processo de tomada de decisão. À semelhança de outros meios de comunicação social de cariz local ou regional temos a vantagem de possuir este nosso Planalto, com as possibilidades que estes meios de comunicação podem conferir ao centramento das problemáticas no contexto local.
Estou convicto que não poderemos debater os problemas que afectam o planeta continuando a adiar a tomada de consciência da nossa intervenção ao nível local. É começando pela nossa terra, confinada ao planalto beirão mas com uma vista para o resto do país e para o mundo, que poderemos e deveremos participar nas decisões a tomar a uma escala planetária.
Por vezes penso que sou eu apenas a sonhar com a possibilidade de um quotidiano com mais qualidade de vida e com um amanhã promissor para quem cá estiver. Ainda que em muitas dessas vezes possa deixar-me invadir por algum desânimo não penso desistir deste meu propósito, em parte é isso que tenho feito em muitos artigos publicados neste nosso jornal, em parte é isso que tenho feito noutros campos da vida.
Estão em causa as nossas matas, que todos os anos são arrasadas por incêndios ou por outro tipo de acção humana directa, e que tantas vezes crescem sem qualquer tipo de ordenamento e de protecção. Estão em causa os nossos ribeiros e o nosso Mondego, cujos caudais são barrados ou libertos consoante a vontade particular. Estão em causa os nossos solos agrícolas, cujo uso de pesticidas os deve ter poluído irremediavelmente. Está em causa o ar que se respira, que felizmente ainda cheira a este verde imenso. Estão em causa as nossas ruas, que a cada dia são conquistadas por automóveis ávidos de ordenamento urbanístico. Estamos todos nós em causa.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 11:27