Nesta quadra festiva não poderia ficar remetido a um qualquer pálido silêncio. Muitos são os motivos para festejar, muitos são os motivos para reflectir. É a propósito destes últimos que se erguem estas minhas palavras.
No advento de um novo ano, bem como de um novo milénio, torna-se necessário repensar este Homem e o rumo que para ele se quer, uma vez que o legado histórico que nos deixa do séc. XX está repleto de múltiplas ocorrências de sinal divergente. Correu este Homem atrás da ideia de ciência e das suas potencialidades para a espécie humana. Correu tanto que na primeira oportunidade colocou em causa tanto a ideia de progresso como a existência da Humanidade. Inevitavelmente, a bomba atómica e todo o poderio que a energia nuclear, com fins de guerra ou pacíficos, é uma das imagens de marca do século que finda.
Oppenheimer, talvez o principal arquitecto das bombas atómicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, em 1954 depois de se conhecerem de facto os efeitos das bombas atómicas afirmou: A ciência transformou a vida dos homens. Materialmente, modificou o nosso trabalho, os nossos ócios, o nosso poder e os limites deste poder - tanto no que respeita aos homens como às comunidades de homens. Intelectualmente, modificou os instrumentos e o conteúdo dos nossos conhecimentos, os termos e a forma em que o problema do bem e do mal se nos apresenta. Mudou a maneira de pensar dos homens sobre si próprios e sobre o mundo. (Robert Oppenheimer "O homem perante a ciência", In Vida Mundial 5 de Junho de 1954)
A ciência transformou, igualmente, a relação que este Homem de que vos falo aqui tem mantido ao longo de gerações com a Natureza que o abriga e da qual ele é parte integrante e insubstituível. Neste aspecto cabe, aliás, referir que o Homem enquanto ser capaz de agir sobre a Natureza tem, por esse motivo, de assumir as suas responsabilidades face a ela. Ele é o único de todas as espécies existentes capaz de matar animais inofensivos para realizar os seus caprichos e é o único capaz de derrubar árvores e montanhas para exprimir a outros idênticos o seu poder de realização, do mesmo modo altera o curso dos rios e mares, altera o curso da sua própria existência. É este o novo Homem inaugurado pela ciência que ele próprio criou. Um Homem capaz de construir e de destruir, mas na verdade incapaz de dominar as forças da Natureza.
O séc. XX é também o século das catástrofes que o Homem "gerou" na Natureza. Em todos os tempos houve inundações, tempestades, secas,..., fome, contudo só recentemente se experimentou a fúria dos elementos devido a causas exteriores aos próprios elementos: a poluição cobriu de miséria lagos e florestas através de chuvas ácidas, os mares estão a esgotar os seus recursos, o clima altera-se, o buraco do ozono aumenta, o horror atómico mostrou em Chernobil como é frágil este progresso, como são frágeis as fronteiras que a guerra fria quis erguer.
De momento, muito cenários vividos ao longo destes últimos 100 anos estão a cair num absurdo esquecimento. Cada vez mais nos move o interesse, o desejo de ir mais longe, a utopia da perfeição. Estamos, segundo alguns, na denominada era da globalização, onde a identidade local procura não se dissipar no discurso globalizante, onde a cidadania recebe novos instrumentos para se realizar. Mas onde a indiferença substitui as relações de vizinhança.
Pessoalmente não reconheço fora da esfera económica o carácter global da nossa sociedade. Este é um planeta com mais desigualdades que recursos, é esse o pesado fardo que devemos evitar transportar para o novo ano e novo século. Sei que as denominações países ricos e países pobres estão fora de uso, o mesmo com a denominação de Terceiro Mundo, ainda assim, mesmo nas sociedades de tipo ocidental como a nossa, estão bem visíveis as desigualdades.
As desigualdades que mais me movem estão longe e aqui tão perto. O ano de 2000, a exemplo dos últimos, fica marcado por um grandioso avanço científico, tantos foram os milhões que se gastaram na sequenciação do Genoma Humano (tanto no Projecto do Genoma Humano como na Celera Genetics) e tantos foram os milhões que se gastaram a investigar doenças que algum personagem famoso entretanto terá contraído, pese embora o facto de várias outras ainda não serem passíveis de serem solucionadas pela ciência, como é o caso de algumas formas de cancro, da SIDA, ou das consequências no homem da BSE.
Contudo, nestes últimos anos o exemplo que mais nos move, pelos menos as consciências pelo elevado número de mortos daí resultantes, é a infeliz malária, infeliz porque devora milhares de indefesos todos os anos aqui tão perto, em África. Meus amigos, o que acontece com a malária e outras doenças tropicais que afectam sobretudo a África e alguns países da América Latina é algo que deve envergonhar o Homem que aqui vos trago, por tratar assim o seu semelhante. Esta malária é mais uma catástrofe a devastar o continente esquecido, mas não é por isso que os grandes laboratórios se envolvem na sua cura, mas não é por isso que os políticos dão voz aos povos que sofrem!
Do mesmo modo, enquanto a Internet e as novas tecnologias dominam os discursos e as relações humanas do mundo moderno, no mundo ignorado tanta é a comida que nesta sociedade dita de moderna se desperdiça que os corpos de crianças e de adultos que não chegam a ser adultos caem famintos só o pó da terra seca que os consome. Não podemos e não devemos ser insensíveis ao sofrimento dos outros.
Perante a perspectiva de tudo isto assumir proporções ainda mais inquietantes, que infelizmente é o cenário mais previsível, peço-vos para reflectirem um pouco nesta quadra festiva, pois, é legítimo que outros possam também ter motivos para festejar. Desejo que o novo ano seja capaz de derrubar as barreiras da indiferença e trazer a todos os Homens o respeito que merecem. Não devemos comprometer nem os direitos nem as esperanças de todos os povos realizarem a sua história.
Findo o meu texto desejando a todos votos sinceros de Boas Festas.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 11:28