Caros amigos! Desta vez chego a vós em larga medida porque foi solicitada a minha intervenção num processo que tem cerca de 20 anos e que vem sendo votado ao esquecimento, eu próprio pensei que tinha sido entretanto resolvido, infelizmente não. O caso que vos relato foi conseguido a partir de uma conversa que um nosso amigo e vizinho teve comigo, e a partir de outras pequenas conversas que posteriormente mantive com outras pessoas, claro está que conta largamente com a minha vontade de até vós chegar, bem patente no conjunto de artigos que tenho levado a todos vós.
Falo-vos aqui na já distante história das manilhas partidas na altura em que a câmara procedia à conclusão das obras de saneamento básico no Folhadal, no lugar do Maninho, pelo que sei com o envolvimento de um engenheiro a quem a partir daí alguns chegaram mesmo a denominar como o "parte maninhas", passando-se, por coincidência, a dita história em propriedade da família do dito engenheiro. Mas não são as águas passadas que vos trago aqui, embora neste caso ainda movam moinhos, os da indiferença pelo bem estar das populações. Apesar deste enredo não é directamente sobre ele que vos venho falar, não pretendo passado tantos anos vir a ser o delator de seja quem for, o meu papel neste artigo vai no sentido do pedido que me foi expresso e com o qual me identifico plenamente.
O que de momento está em causa não são as ditas maninhas partidas, até porque essas com vontade política deveriam ter sido substituídas, o que está em causa é que as ditas maninhas passados todos estes anos de forma alguma foram substituídas. Ora, em resultado desse deixa estar e da inexistência de uma qualquer Estação de Tratamento de Águas Residuais, as bem conhecidas ETAR's, no percurso que antecede essa ausência de maninhas, está em causa não só um atentando ao Ambiente, que é de todos nós, presentes e futuros, como um grave atentado à Saúde Pública das nossas populações, não só quem no Folhadal vive, que diariamente é presenteado com o mau cheiro dos esgotos da nossa aldeia, tão nauseabundo que afasta as nossas gentes das suas parcelas de terra e de pinhal nas proximidades, mas, igualmente, um atentado à Saúde Pública das populações serpenteados por este riacho de detritos humanos, que mais metro menos metro vai acabar por desaguar no caudal de uma das principais jóias da nossa Beira Alta - o nosso velho e amigo Mondego, que assim se vê cada vez mais poluído.
Amigos! Não compreendo como é possível tantos anos depois de terem sido concluídas as obras de saneamento básico da nossa terra a situação permaneça exactamente na mesma, parece impossível que não tenha sortido qualquer efeito a legislação ambiental implementada por Portugal, sobretudo desde a sua adesão à Comunidade Económica Europeia em 1 de Janeiro de 1986 e que teve como momento alto a publicação no ano seguinte do que ficou conhecido como a Lei de Bases do Ambiente. Perante estes factos questiono-me: de quem é a responsabilidade, por que não assume essa responsabilidade e onde anda metido o princípio do poluidor-pagador, será que não se aplica a entidades públicas?
Pode não parecer mas estamos perante um grave atentado aos nossos direitos, pois como cidadãos temos todo o direito a viver num ambiente limpo e saudável, não contaminado pelo mau cheiro e pela indiferença. Estamos perante motivos mais do que evidentes e suficientes para uma intervenção de quem de direito, suponho que em primeira instância da autarquia, não me cabe a mim aqui registar as responsabilidades políticas na questão, cabe no entanto registar que todos nós temos de assumir as nossas responsabilidades, é aliás por isso que não deixo de criticar a falta de empenhamento nesta e tantas outras situações por parte das próprias populações. Não aceito o virar das costas por parte dos responsáveis políticos mas também não aceito que cada um de vós se limite a uma conversa de café e depois na hora de agir se abstenha de qualquer tipo de intervenção, é minha convicção que essa indiferença serve apenas os interesses de quem quer assumir o exercício da governação sem ser incomodado, processo que de democrático nada tem, muito se assemelha ao monopólio na actividade económica. Não é a primeira vez, nem será a última, que insisto na necessidade de uma maior participação dos cidadãos nas actividades públicas, não duvido que a falta dessa participação está por detrás desta história de maninhas partidas e de esgotos a céu aberto, assim como de tantas outras situações.
Quem é feito daquele Folhadal que até cantado foi? Desculpem os autores do hino dedicado a este antigo paraíso mas não deixo de com mágoa escrever uma nova versão de parte da letra desse hino, assim surgindo:
Oh Folhadal
Que lindo és
Com esse esgoto a céu aberto
Mesmo a teus pés
...
Pode até ser motivo para um breve sorriso, mas acreditem que não tenho qualquer vontade de rir, estou consciente da gravidade da situação e não me conformo com a falta de atitudes quer dos governantes quer dos governados. Espero por uma qualquer reacção de quem de direito, tarefa que em última instância incumbe aos serviços do Ministério do Ambiente fazer cumprir, os quais à data da publicação deste artigo devem estar concentrados o recém formado Instituto do Ambiente, constituído a partir da fusão da Direcção-Geral do Ambiente com o Instituto de Promoção Ambiental. Espero, igualmente, pela intervenção directa dos poderes locais neste processo, pois foi iniciado por eles e a eles cabe dar continuidade, muito me desagradaria e a todos vós que estas minhas palavras não fossem escutadas, está em causa a Saúde Pública das populações e a defesa do meio ambiente, conjunto de aspectos prioritários na promoção da excelência desta nossa terra. Acredito que a promoção de um concelho com tanta beleza e tão rico em património se faça a partir de uma intervenção directa no ambiente e na saúde das populações, paralelamente à execução ou ao apoio a iniciativas com maior visibilidade, a exemplo do qual posso destacar o apoio a dar ao nosso rallye caso consiga fazer parte do conjunto de provas do campeonato nacional da modalidade. Mas quem promover iniciativas desta natureza terá obrigatoriamente de ter a noção do sentido de prioridade, de modo a dar resposta a alguns dos anseios das populações, caso contrário os apoios a dar não passam de meros caprichos de alguns, pois não interessa criar uma imagem de excelência da nossa terra no exterior quando por cá as populações se deparam todos os dias com estradas com profundas crateras ou, como no caso que aqui se apresenta, com esgotos a céu aberto sem qualquer tipo de tratamento.
Ao terminar este meu texto cabe-me referir que estando impossibilitado de viajar as vezes que pretendo a esta nossa terra, ao contrário do que tinha previsto acabei por escrever este artigo disponibilizando-o para publicação mesmo sem fotos, com pena minha, também não sei se nas fotos se iria conseguir sentir tamanho mau cheiro ou mesmo ver estas obras de Santa Engrácia, pois as silvas e mato devem servir de manto a este perfeito habitat de bactérias e vírus. Dadas as contingências da minha vida pessoal pedia-vos que em situações semelhantes fizessem chegar até mim as situações que pensem vir a ser notícia, se possível com fotos a acompanhar, será de todo mais simples preparar um texto nessas condições.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 11:29