Sem querer absorver todo o espaço deste nosso representante que dá pelo nome de Planalto, um jornal que não poucas as vezes se lê como se fosse uma carta escrita bem lá longe com todo o carinho e com toda a saudade, aproveito o início do período estival para deixar mais umas quantas palavras, que espero retocarem as memórias e os lugares de todos aqueles que nos visitam nesta altura. Neste, como em outros artigos, não me move a necessidade de qualquer protagonismo, nem tão pouco o tomar partido seja por quem for, nem associar a minha voz a qualquer movimento contestatário, como digo por vezes, quem me move são as pessoas, essas sim são o meu partido, o meu querer. São as nossas gentes que disputam em mim a necessidade de dar um contributo que tenho consciência poder dar, isto no caso dessas mesmas pessoas estarem predispostas o suficiente para receberem as minhas intenções e os meus gestos. Por certo não é na satisfação pessoal que me refugio, mas tão somente num dar-me a uma terra que tanto estimo e às suas gentes.
Além dessa questão de cariz mais particular não deixa de ser uma força motriz o facto dos poderes públicos e mesmo as vontades privadas necessitarem de serem reguladas por uma opinião pública atenta e elucidada sobre as várias matérias que a ela dizem respeito, no que cumpre a cada um participar. É certo que cada um utiliza, necessariamente, as ferramentas que possuí nessa actividade de regulação, pessoalmente utilizo as palavras, pois com elas partilho convosco uma emoção e tantas preocupações, pois com elas deixo o meu testemunho e um gesto que pretende ser um alerta à participação na construção de um futuro comum, pois com elas tenho vivido nos últimos anos.
Findo este pequeno trecho introdutório vamos ao assunto que aqui me traz desta vez. Na minha memória estão ainda enorme incêndios que, sobretudo, nas três últimas décadas foram devastando os pinheirais, os matos, as vinhas e as searas da nossa Beira. Por causa dessas memórias, e com a temperatura a subir depois de um Inverno rigoroso, e em parte pelo facto de profissionalmente ter elaborado um breve texto sobre as vicissitudes por que passou a floresta durante o séc. XX a partir da análise da tematização feita sobre a mesma matéria na imprensa escrita, aqui estou perante vós para vos falar sobre as nossas florestas. Certamente que não vou fazer deste pequeno texto um trabalho académico, até porque seria muito compacto e dificilmente percebido pela grande maioria de vós.
Posso até ignorar a grande campanha de arborização levada a cabo pelo Estado Novo nas serras, baldios e outros terrenos incultos, da qual resultou o que se pode chamar como a pinheirização do país. Posso até ignorar o período de enorme vivacidade sofrido pelas nessas florestas nas décadas de 80 e 90 devido ao ataque final aos terrenos baldios e ao forte lobby das indústrias de celulose, que acabaram por plantar eucaliptos em largas manchas florestais do país. Por isso falo-vos mais do reflexo na floresta do abandono dos campos outrora agrícolas, não sei se por culpa da reforma da Política Agrícola Comum, a bem conhecida PAC, se pela mera ausência de vontade das novas gerações em se dedicarem a uma agricultura que em muitos casos utiliza métodos ancestrais ou então pelo facto destas gerações encontrarem na indústria um futuro mais risonho. Seja como for, os campos foram sendo abandonados, multiplicando-se os terrenos incultos, crescendo os matagais e os perigos de incêndio.
Depois de mais um fim-de-semana na vossa companhia regressei preocupado a Lisboa, passou o país um período conturbado de luta contra os eucaliptos e contra as celuloses e agora o que se vê é os eucaliptos serem plantados nas encostas que nem couves compradas na feira de Agosto. É de pasmar o que se pode observar das Termas das Caldas da Felgueira, sei que quase todo aquele arsenal de eucaliptos está fora do nosso concelho mas está no nosso país, e não tarde contribuirá para um postal ilustrado inegavelmente angustiante do nosso cartaz turístico por excelência. Não sei quem permitiu tal acto, sei que não tarde as termas transformam a sua vocação, não ouso afirmar que se vão transformar numa fábrica de pasta de papel, podem muito é ver as margens do exuberante Mondego ser engolidas por uma praga verde capaz de deixar os solos ainda mais pobres e de secar as nascentes, talvez até mesmo a das termas. Com a agravante de servirem de combustível a novos incêndios que possam ocorrer.
Não me parece que os incêndios se combatam em pleno Verão com as chamas a destruírem as árvores indefesas. Por isso falo-vos, igualmente, da necessidade das políticas públicas, neste caso talvez mais as implementadas pelo poder central, dada a sua competência e a sua maior responsabilidade nesta matéria, procurarem concretizar estratégias de gestão da floresta que façam face a possíveis impactos negativos quer no ambiente quer na economia local. Sobre este último aspecto parece ser indiscutível o papel da floresta na economia local e nacional, ao gerar matérias-primas e ao ser uma fonte de emprego.
Uma política florestal adequada deve levar em conta não só os impactos referidos como quais as espécies mais adequadas a cada local, onde arborizar e como arborizar como ordenar o território a florestar. Certamente estas são algumas das questões a discutir, não nego que existam outras, como acima referi este não é um trabalho académico, é como que uma proposta para fórum de discussão. Estou certo que ainda vamos a tempo, podemos parar com algumas iniciativas, não quero no futuro ter as mesmas imagens do passado, com os incansáveis bombeiros a convidarem as chamas a colocarem pôr termo à sua vida, com os incansáveis bombeiros, voluntários de seu nome, a deixarem os seus lares e as suas famílias para no caldeirão da noite sentirem a luz de cada braseiro. Não me parece estar a dramatizar a questão, todos nós sabemos que assim é. Peço-vos a vós, amigos, para reflectirem sobre estas questões antes de permitirem que as vossas matas sejam utilizadas para plantações com eucaliptos. Peço às autoridades competentes para que não permitam estas situações e para que procedam ao arranjo e abertura de caminhos rurais que tanto jeito dão no combate aos incêndios, não só por facilitarem os acessos mas também por servirem de barreira natural à progressão das chamas. Eu e todos nós ficaremos futuramente agradecidos.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 11:30