Por vezes ser notícia de destaque nas diversas televisões, rádios, jornais e restantes meios de comunicação social significa que estamos perante uma situação anómala, que justifica a atenção redobrada por parte de quem tem por missão informar. O que não seria de esperar era que o concelho de Nelas fosse um dia alvo preferencial de notícias. Mas perante tamanha tragédia que se abateu sobre as nossas matas, as nossas culturas agrícolas, as nossas habitações e as nossas gentes, o que não se imaginava aconteceu.
Não tenho memória de tamanha tragédia. Recordo-me de um conjunto de incêndios que lá para o final da década de 70 assumiram grandes proporções, destruindo irremediavelmente os pinhais e propriedades agrícolas nas duas margens do Mondego. Tive oportunidade de confirmar que em 1985 toda a região beirã foi também fortemente afectada por vários incêndios. A partir daí outros incêndios ocorreram, sobretudo em áreas já atingidas, pois de ano para ano, sem qualquer esforço de reflorestação, o mato cresceu por tudo quanto era lado, facilitando o propagar dos incêndios.
O mês de Julho de 2002 ficará na nossa história como uma mancha cinzenta que nem a cor da televisão conseguirá disfarçar. Quem no futuro percorrer os arquivos televisivos ou as reportagens dos jornais encontrará os incêndios do concelho de Nelas como uma das principais catástrofes de sempre.
Calamidade Pública?
A dimensão da catástrofe, as implicações ambientais e sociais na região parecem mais do que motivos suficientes para levar o Governo a decretar medidas de excepção para a região, equivalentes à declaração do estado de calamidade pública. Só assim será possível intervir atempadamente em muitas situações: - quer recompensando de forma imediata os produtores florestais e os agricultores; - quer levando a cabo medidas que evitem a especulação com as madeiras queimadas; - quer equacionando desde já a reflorestação das áreas ardidas. O planalto de Nelas não tem a importância política de um Parque Natural Sintra-Cascais ou de um Parque Natural da Serra da Arrábida, tem, mesmo assim, igual dignidade, pelo que deverá ser intervencionado.
Em esforço percorri uma parte da área ardida, embora nem a metade tenha percorrido, infelizmente não seria possível em tão curta estadia percorrer a totalidade da área sinistrada. Como relato de tantos quilómetros percorridos, em cima de apenas cinzas, deixo as minhas palavras e algumas das fotografias que ao longo do percurso fui recolhendo para que fiquem na memória de todos.
As fotografias pretendem mostrar um pouco a extensão da calamidade, não tanto no sentido exacto da extensão, pois essa não a poderia colocar numa foto, mas mais na variedade de áreas ardidas. Duas das fotografias mostram como o fogo alastrou das matas para os campos cultivados. Numa dessas duas com um pouco de atenção consegue mesmo ver-se uma macieira carregada de fruto mas queimada, a mesma fotografia serve igualmente como exemplo da acção do fogo sobre as várias "palheiras" e outras pequenas casas rurais, também elas afectadas pelo fogo. A terceira fotografia tenta mostrar como o fogo atravessou a Estrada Nacional n.º 234 e como chegou perto de algumas das localidades do concelho de Nelas, neste caso foi tirada no cruzamento que dá acesso ao Hotel da Urgeiriça, embora tenha galgado o concelho, pelo menos, desde Canas de Senhorim, Vale de Madeiros, Caldas da Felgueira, Folhadal e Póvoa da Roçada.
Ao longo do meu percurso pelas cinzas da véspera recolhi também alguns argumentos, sobretudo de revolta de quem perdeu parte de si nas chamas. Por exemplo, assim escutei algumas criticas à actuação dos bombeiros no combate ao sinistro, a pergunta que fica é a seguinte: "Como foi possível arder tão extensa área com tantos homens e tantos meios empregues no combate ao incêndio?" Pela minha parte acredito que os nossos bombeiros tudo fizeram para inverter a situação, com o risco da própria vida, tal como foi noticiado em todos os meios de comunicação social, não deixo mesmo assim de remeter a questão para quem tem responsabilidades - ao nível local, regional ou nacional - na coordenação do combate aos incêndios.
Falando em combate aos incêndios registei outro comentário. Recordo-me que outrora perante o mínimo sinal de alerta de um incêndio tocava a rebate o sino da nossa capela, após o qual se juntava o povo e ajudava unido os bombeiros no combate ao fogo, antecipando-se por vezes aos bombeiros. Mas os tempos passam, as pessoas mudam, agora cada um parece mais interessado em salvar a sua pele do que em contribuir para o bem comum, pois, ao que tudo indica, preferem olhar ao longe as chamas.
Assim não dá! Sei que para muitos a agricultura e as matas são tidas com indiferença. Tidas como "coisas de velhos", mas convém que não se esqueçam que muitas das unidades industriais em que trabalham têm como suporte o que a terra lhe pode fornecer. Penso ser fundamental tomar todos os sectores de actividade de uma forma integrada e não olhar para alguns com desdém. Sei que a agricultura e a floresta surgem associadas aos mais velhos, tidas como coisas dos tempos antigos. Enganam-se os que com essa atitude que julgam ser Moderna assim pensam. Argumentos desse tipo apenas reflectem alguns laivos de analfabetismo estrutural, pois, nos países ditos desenvolvidos, ser Moderno corresponde, contrariamente, ao dar importância aos valores naturais. Por conseguinte, o desprezo por tais valores somente reflecte o quanto teremos de aprender.
Eucaliptização? Não, obrigado!
Sr. Presidente da Câmara, Sr. Ministro da Agricultura, Sr. Ministro das Cidades, Ordenamento do Território e Ambiente, Sr. Primeiro-Ministro e outras entidades com jurisdição na matéria, e porque não, Sr. Presidente da República, peço a todos a Vossa intervenção na reflorestação das áreas ardidas: o concelho de Nelas é um concelho praticamente livre da praga dos eucaliptos, Por Favor garantam essa continuidade.
Pela parte que me toca fiz não só este pequeno levantamento, como escrevo estas palavras a juntar a tantas outras. E fiz tudo isso convicto que estarei a ser um contributo válido, quer na apresentação dos problemas, quer na discussão de futuras medidas a adoptar. Medidas que no presente caso devem passar, obrigatoriamente, pela reflorestação das áreas ardidas, com as espécies arbóreas mais adequadas e com a devida gestão dos espaços. Espero que essa reflorestação não seja como é habitualmente, ou seja, inexistente, limitando-se a ver crescer o mato, sem qualquer plantio de novas árvores, sem abertura de novos caminhos. Em suma, sem qualquer tipo de acompanhamento de quem o deveria fazer.
Só assim se conseguirá recuperar algumas das perdas, mas essa recuperação passa, inevitavelmente, pelo trabalho de todos nós. Não vamos, mais uma vez, pensar que «Não é connosco», pois desta vez, como em tantas outras que ignoramos, é mesmo connosco.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 11:32