Caros Amigos! Mais uma vez chego a vós, pois são muitas as palavras que sempre se podem escrever e partilhar quando nos destroem as nossas riquezas. Falo emocionado dos incêndios que mais uma vez têm consumido irremediavelmente as nossas matas. Custa ver arder locais que de ano para ano são sujeitos à voracidade das chamas, ou apenas à voracidade e cobiça de homens cegos por um abanar de oportunidades. De ano para ano são desfeitas em cinzas partes de muitas vidas, retirando o verde dos nossos olhos para o transformar em apenas escuridão.
Custa acreditar que seja obra do acaso. Cheiram a esturro alguns incêndios! Não me cabe a mim apontar o dedo a ninguém, nem tenho provas, nem conheço os factos em concreto, por isso me limito a reflectir sobre as situações que sempre conheci e sobre as situações que as nossas televisões vão amargamente reproduzindo. É duro ver as chamas romperem sem rumo sobre as nossas matas.
Dirão vós, "Apanhem-me esses malandros!", ou como é comum, "Deveriam era arder no meio do fogo que atearam!". Não vos condeno por pensarem assim, embora não veja a questão da mesma forma. Não se resolveria o problema, pois tem "pessoas" que por dinheiro tudo estão dispostos a fazer.
Seria positivo eliminar algumas das causas possíveis. Volto aqui, como outras vezes o tenho feito, a referir a necessidade de se proceder à prevenção dos incêndios. Com ou sem mão criminosa, somente na hora do aperto os incêndios são tema de preocupação, mas no inverno, com a chuva, o frio, por vezes a neve, tudo esquece. Amigos! Assim dão dá! O país irá todos os anos continuar a arder, para gáudio de interesses ocultos.
O problema não é simples, como se sabe. Implica o estabelecer de regras claras quanto às madeiras queimadas. De penas pesadas para estes criminosos, mas não apenas estes, acima de tudo para os seus mandantes. Passa, igualmente, pelo correcto ordenamento e gestão da nossa floresta: com a construção de caminhos, a reflorestação das áreas ardidas com espécies adequadas, a limpeza das matas e o evitar de fazer fogueiras em momentos pouco adequados. Penso que são alguns exemplos dessa gestão e ordenamento. O que passará, acima de tudo, por uma mudança de mentalidades, tanto dos produtores florestais como dos políticos, pois "Esta do deixa andar que depois se verá" já deu provas que não é uma boa política. De nada servem aviões e meios pesados, quando o mato com a altura de um homem cresce pelas encostas inacessíveis.
Assim não dá! Como todos os anos as madeiras queimadas não têm regras. Como todos os anos as matas queimadas, mais artificio menos artificio, lá conseguem ser desanexadas dos usos a que os Planos Directores Municipais (os bem conhecidos PDM's) as destinavam, lá conseguem dar a volta à classificação de Reserva Agrícola Nacional (RAN), de Reserva Ecológica Nacional (REN), ou qualquer outra servidão ou restrição à ocupação humana.
Devem as autarquias, em colaboração com o poder centrar definir de uma vez por todos as áreas com potenciais para construção, eliminando de uma vez por todas a possibilidade de construir onde antes seria impossível. Para que servem os planos de ordenamento se depois, com engenho e posição "social", é possível rodear esses mesmos planos.
Amigos assim não dá! De uma vez por todos haja coragem para pôr termo a esta vergonha.
Assim ardem gerações de árvores e de gentes, transformando em cinzas parte da nossa história e das nossas belezas naturais. Sei que vou acreditar que tudo vai mudar no próximo inverno, que depois das cinzas e com a vinda das primeiras chuvas juntos vamos decidir o que será melhor para a nossa floresta. Juntos iremos então zelar pela sua conservação e pelo afastar do maior perigo que paira sobre ela - o próprio homem, esse ser impróprio para um mundo natural, da qual ele faz parte, mas que ele próprio se encarrega de destruir.
Amigos, pergunto a Vós "Será este o futuro que desejam para as gerações vindouras?" Penso que não, penso que querem deixar algo melhor como herança, não querem apenas deixar um triste baú cobertores de cinzas e teias de faúlhas, mas rios e ribeiros a correr com água límpida e peixes sem intervenções biotecnológicas, pinheiros e tojos a crescer, sem as chamas a extinguirem o verde que nos encanta.
Amigos! Sei que a minha visão do futuro parece irreal, parece um sonho sonhado. Mas não é um sonho, é uma probabilidade, basta para tal que se trabalhe em conjunto para debelar os males que no futuro nos vão ser fatais.
Deste Vosso Amigo.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 11:32