Corre o ano puxado por uma brisa que retoca, de quando em vez, as altas temperaturas que se têm feito sentir nestas últimas semanas. Aos poucos, as aldeias silenciosas e pintadas por tons homogéneos são retocadas por quem tão distante tem andado - os nossos imigrantes -, merecedores das palavras apresentadas seguidamente.
Sem querer deixar aqui um qualquer registo autobiográfico, move-me a emoção de pensar num regresso mais uma vez previsto e quase sempre anunciado de todos aqueles que outrora foram levados a procurar novas paragens para aí colmatarem a ânsia de muitos dos seus sonhos. Ultrapassando montes e vales na primeira etapa de uma luta que mais tarde os levaria a juntarem a si parte da família, desfazendo muitas das lágrimas que a distância cobrava aos seus rostos. Família que aos poucos cresceu.
Entretanto, muitos compatriotas, vizinhos, amigos e colegas de fábrica iniciaram o seu regresso. A casa nova na aldeia, o pequeno negócio, o simples desejo de regressar ou as crianças na escola com os primos que nunca conheceram outra paisagem, foram um chamamento ao coração. Os que permaneceram longe das suas terras assistiram a um novo aumento da família, agora devido ao casamento dos filhos. Agora, lá em casa a língua portuguesa, por vezes, só se houve quando toca o telefone e do outro lado está alguém que chama pelos netos a kilómetros infinitos de distância, quando a saudade bate mais forte que o sino da pequena capela pintada de branco.
Estamos hoje num momento de efémero regresso de alguns desses nossos imigrantes. Familiares, amigos ou, por vezes, pessoas indiferenciadas somente distinguíveis pelo automóvel com matrícula estrangeira e pelo aportuguesamento de uma qualquer língua, assim como pelo colorido das suas roupas e dos seus rostos felizes por estarem cá. Regressam com uma mancha de alegria que transborda mais do que as águas escaldantes do Mondego. Sei que param, embora menos distante também o faço, para inundarem os seus olhos e a sua ausência de tanto tempo com o verde dos pinheirais e com a magia de respirar fundo e tocar a sempre presente Serra da Estrela, exclamando: "Estou na Minha terra. Finalmente!"
A família alonga-se num perfilar de gerações. Por momentos, até os antepassados regressam, são recordados com toda a eloquência, pelos seus feitos ou pelos simples gestos de ternura que cativaram quem os recebia. Recordam-se as poucas sardinhas assadas que eram repartidas sem lamento por todos, recorda-se o milho verde e bucólico dos meses de Verão que depois deveria reunir família e vizinhos numa desfilar de cantigas por todos entoadas.
Do que vos falo já cada rua, cada moradia, cada localidade experimentou - o sabor dessa simples evocação ao regresso. Das romarias enquanto momentos de reencontro dos compadres, com aquele abraço que tantas vezes se tem repetido todos os anos pela mesma altura, estendendo-se a cumprimentos a toda a família, que não raras vezes com novos membros nem sempre habituados a todo o ritual. Segue a cerimónia, pé ante pé, no silêncio transmitido pelos andores, cruzam-se olhares, sorrisos trocados como apertos de mão. Observam-se as janelas engalanadas, admira-se a beleza dos santos eleitos de cada um, juntam-se todas essas alegrias depois no leilão das oferendas.
Surge a noite, em cada largo ou associação recreativa novos rituais de alegria e reencontro se sucedem, prolongando-se nas curtas presenças dos nossos imigrantes meses, ou até anos, de afastamento. Contudo, mais uma vez os dias rapidamente se sucedem e amanhã é dia de voltar a partir. Fica para trás a beleza de todos estes anos revivida em breves trechos. Por mais que se evite, o coração amargurado pela partida destroça ambos os lados da família. Sentem uma dor só quebrada numa próxima visita e, ao mesmo tempo, sentem a felicidade que guardaram dos últimos dias, que lhe permitirá superar mais um ano. Ambos sabem como estão próximos na distância que os separa. FORTES SÃO OS LAÇOS QUE NOS UNEM!

José Gomes Ferreira
publicado por José às 11:33