NOTA 1 Chamas e lágrimas num país moribundo
Dói o coração ver o país reduzido a cinzas e os olhares desfeitos em labaredas de lágrimas. Tem razão alguém quando diz: “Isto é pior que uma guerra!”. Com o fim de uma das nossas maiores riquezas – a floresta – e a destruição de colheitas e a perda de vidas humanas e não humanas o mês Agosto, mergulhado em elevadas temperaturas, mal teve tempo de conhecer o inimigo e a sua capacidade de destruição. Nada restou dessa batalha, nem a esperança de paz. Chamas de medo e de uma profunda angústia varreram vidas, destruíram habitações, deixaram imagens de um sofrimento atroz, sem cores, somente cinza, destruição e desespero. A única certeza não é a do fim deste inferno mas a de tudo terminar reduzido a despojos de dor e a do aniquilamento de soldados e civis, com igual exterminação da paisagem e de todos os valores naturais a que dava forma. Muito dói ver tamanha destruição, sobretudo quando não se acreditam em coincidências, tal é a profusão de chamas em todo o território.
É comovido que escrevo estas palavras. Se bem se lembram o nosso concelho sofreu tamanho pesadelo no Verão passado, por isso e porque perante imensa catástrofe natural, tantas vezes com mão humana, deveremos ser solidários com os concelhos que este ano foram dizimados pelos incêndios. Estamos perante os piores incêndios florestais registados no país, pelo menos de que há memória registada, apesar da coragem e determinação dos nossos heróis – os Bombeiros – a quem devemos uma sentida homenagem e agradecimento.
Lamento que este e outros governos, numa postura de aparente corte na despesa pública, tenham remetido a floresta nacional para um plano secundário. É absurdo chegar-se ao Verão e os postos de vigia da floresta permanecerem encerrados. Certo é que o país precisa de poupar, de conter a despesa pública, mas, pergunto-me, terá Portugal de conter a despesa pública através do sacrifico de vidas humanas e com a destruição de uma das suas principais riquezas? Estou convicto que não. Só um voltar das costas aos cidadãos e à natureza torna aceitável tal política. O meu desejo é que todo este sofrimento sirva de exemplo a quem tem poder de decisão e que a partir de agora não nos iludam mais com esta ideia feita de que a poupança se efectua com o corte nas despesas, parece claro que tal política está a deixar o país moribundo, aliás, já cadáver, do qual paira no ar um cheiro a carne, humana e animal, cremada em agonia. A poupança consegue-se prosseguindo os investimentos, dirigindo-os a áreas prioritárias como as de que aqui falo, não me parece que o envio de soldados de GNR para o Iraque seja uma prioridade, com os custos que implica.
Ainda que aponte o dedo ás políticas dos últimos governos considero que nestes momentos de nada vale procurar os culpados da incapacidade de combate aos incêndios, a questão de fundo não é essa. O problema é estrutural e requer, em primeiro lugar, vontade política, em seguida, a participação de todos os produtores florestais e de todas as populações envolvidas. Entenda-se, de uma vez por todas, que a floresta tem de ser tratada como um jardim, a precisar de ver as suas árvores plantadas e alinhadas correctamente e a necessitar de ser cuidada ao longo do ano. Enquanto persistir, por parte de todos, este olhar indiferente sobre uma riqueza ilusoriamente certa tudo se irá repetir de ano para ano.
É urgente o planeamento da floresta portuguesa, que seja capaz de projectar manchas florestais devidamente ajustadas aos respectivos territórios e os indispensáveis acessos, com as espécies arbóreas também elas adequadas e que não se limitem a satisfazer exigências do mercado. Não será com eucaliptais que o país se defende de agressões como estas. Do mesmo modo, é urgente que os produtores florestais assumam os seus deveres, não basta possuírem um pinhal, mostra-se necessário assumirem o seu usufruto legítimo. O que falta ao país é o sentido de prioridade, ele não precisa apenas de adquirir grandes aviões de combate aos incêndios, precisa, principalmente, de planear e agir, ou seja, de ver aplicado o princípio da precaução e ver assumido por cada um a sua responsabilidade, só assim será possível minorar tragédias como estas. POR FAVOR, não vamos fingir novamente.
Antevejo com tristeza que de nada serve agora esgrimir argumentos, acredito que lá para o Inverno todos vão esquecer o problema, excepto os directamente afectados. Veja-se o caso do concelho de Nelas, de que serviram as palavras que durante os incêndios do passado ano deixei aqui no Planalto no artigo “Verão em chamas”? Reconheço que não serviram absolutamente para nada, não sei se pela minha incapacidade de fazer mover os políticos locais ou se por incapacidade destes políticos e dos próprios governantes. Como se pode constatar a única coisa que até hoje foi feita foi o rentabilizar da madeira queimada, deixando antecipar que poderá ser apenas para isso que servem estas chamas.
NOTA 2 Um veto contra uma promessa
Relativamente ao processo de elevação a concelho de Canas de Senhorim quando tudo parece perdido o veto presidencial anula as festas já realizadas e desfaz os sonhos já desfeitos. Não sei é se deveremos elevar as mãos aos céus, pois, tal como referi nos anteriores artigos, foi aberta uma ferida difícil de sarar. Com a agravante dos responsáveis por este precedente irem a partir de agora fazer vénias ao silêncio. São estes os nossos políticos, chegam ao ponto de deusificarem as populações para posteriormente as abandonarem, num jogo em que os políticos locais são meros figurantes, sempre à espera de retirarem protagonismo.
Como é do conhecimento público o veto presidencial sempre se justificou, face aos erros processuais e face ao ridículo que é elevar duas localidades a concelho num dia e somente no dia seguinte ser votada a lei-quadro que os configurava. Curiosa é agora a atitude dos partidos políticos com representação parlamentar. A oposição que votou a favor da criação dos novos concelhos veio logo a terreiro elogiar o veto presidencial. O PS ficou igual a ele mesmo, quieto e caladinho. Entretanto, o PSD, com a cumplicidade do PP, como que a dizer que cumpriu a promessa eleitoral, promete deixar tudo como está, convicto que cumpriu a promessa e nada mais lhe cabe fazer, e de que a culpa não foi do partido, pois ele até se esforçou.
Sem me querer alongar nesta peça e nessa matéria, mesmo assim, aproveito a oportunidade para voltar a pedir ao Sr. Presidente da Câmara Municipal de Nelas e aos Srs. Vereadores para se demitirem, sendo que agora estendo esse pedido ao Sr. Presidente da Junta de Freguesia de Canas de Senhorim. Peço a ambos para se demitirem e para abandonarem a dita política activa, acredito que só assim as populações podem pensar em alguma concórdia. Veja-se o exemplo de Angola, onde a luta se particularizou até ao momento em que um dos dois intervenientes tombou no campo de batalha. Por esse exemplo e, essencialmente, pelo respeito que as populações merecem, repito, MEUS SENHORES DEMITAM-SE! Basta de levarem as populações para lutas particulares. Basta de irem ao sabor dos aparelhos de qualquer partido, sejam capazes, pelo menos, de respeitarem os eleitores.
NOTA 3 Desporto para todos nas noites de Verão do Folhadal
Nem tudo é negativo neste Verão, deixo para o fim uma breve nota sobre o torneio de futebol organizado pela Associação Cultural e Recreativa do nosso Folhadal. Quando o país espera ansioso o início do Euro2004 são as pequenas associações que demonstram aos senhores políticos e aos senhores do futebol que são elas a exercer um importante papel social em prol do desporto e da cultura, com repercussões evidentes nas sociabilidades, sobretudo dos jovens, mantendo e reforçando laços por vezes praticamente ancestrais.
Foi um regalo assistir aos encontros, com o público a incentivar os seus jogadores a participar de forma voluntária e descontraída numa importante acção social. Este é um exemplo do fazer e do levar as pessoas a aderir, sem necessidade do recurso a qualquer campanha consumista e sem serem gastos dezenas de euros no frenesim dos novos estádios. Lamento que o papel dos grandes clubes seja unicamente o do lucro, são agora meras empresas, sem qualquer função social palpável, os novos estádios são agora meras catedrais de consumo, onde só um produto se vende – o futebol e todo o que a ele se relaciona. Os clubes do coração e da adesão voluntária das massas disformes são agora os pequenos clubes e as pequenas associações recreativas, são elas as únicas a chegarem ao cidadão comum e a partilharem nos seus espaços as suas alegrias e os desgostos. Independentemente da classificação final, por tudo isso e porque é um bem sem igual na nossa terra saúdo esta e outras iniciativas da nossa Associação, convicto que é uma das nossas maiores riquezas.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 11:33