Pela primeira vez na história do nosso concelho os habitantes juntaram-se para que num registo comum manifestassem o seu descontentamento por qualquer situação. Espantou-me a capacidade de mobilização! Exemplo único por estas bandas. Falou-se de 24 autocarros e cerca de 1200 a 1500 pessoas presentes em Lisboa para se manifestarem contra a criação do concelho de Canas de Senhorim e para fazerem valer, finalmente, a sua voz junto do Sr. Presidente da República, para que este venha a vetar a lei-quadro da criação de novos municípios, o que inviabilizaria a criação do novo concelho. Os números apontados provam que quando as pessoas querem estão unidas e são capazes de lutar não apenas por si. Fiquei surpreendido com a capacidade de mobilização e com o civismo das acções de protesto. Esboço desde já um desejo: que no futuro se aproveite este impulso para em conjunto se enfrentarem novos desafios.
Tenho a lamentar o facto de não me poder ter associado ao movimento, a hora a que se realizou e o facto de ter ocorrido no lado oposto ao que me encontrava na cidade de Lisboa foram motivos mais que suficientes. Não pensem os que possam discordar das minhas palavras que foi por cobardia que não estive presente. Que depois não venham dizer que apenas sei falar e na hora de agir viro as costas. Como devem imaginar tenho os meus próprios compromissos, sendo certo que nem sempre me permitem ter disponibilidade para lutar pelas minhas convicções. Quem me conhece sabe que Nelas e o nosso Folhadal estão sempre no meu coração e têm estado bem presentes na forma emotiva com que nos últimos anos tenho escrito vários artigos que com todos partilho aqui no nosso Planalto, convicto que estou a contribuir para uma causa comum.
Relativamente ao assunto a que me proponho neste artigo, sem retirar as palavras que pronunciei no artigo “Não há concelhos sem senão…”, fica-me agora bem elogiar a postura do nosso Presidente da Câmara. Que a verdade seja dita, agradou-me ver na comunicação social que o Dr. José Correia apelava no sentido da manifestação a realizar ser pacífica, usando apenas como instrumento de protesto as pessoas, alguns cartazes, algumas palavras de ordem mas, sobretudo, palmas, muitas palmas a demonstrarem o descontentamento pela criação do concelho de Canas de Senhorim e pelo escandaloso processo que facilitou essa criação. Com a agravante, como todos sabem, da criação do novo concelho não se dissociar da utilização de tácticas de protesto assumindo por vezes formas ofensivas das figuras do Estado português, motivo que levou alguns candidatos a sede de concelho afastados a lamentarem não terem utilizado os mesmos métodos, ao concluírem que os seus bons modos e as suas falinhas mansas foi paga através de um frio desprezo. Será assim de louvar o sentido de civismo e de cidadania colocado na acção de protesto que levou muitas das nossas populações a Lisboa para manifestarem o seu repúdio pela criação do concelho de Canas e clamarem pelo veto presidencial.
Temo é que seja demasiado tarde. Ainda que o processo esteja eivado de contradições e de prováveis inconstitucionalidades, ainda que o Sr. Presidente da República, figura suprema das instituições, se tenha manifestado publicamente contra a criação de novos concelhos e tenha defendido a realização do que poderá ser o Livro Branco sobre a matéria autárquica, mesmo na expectativa do Dr. Jorge Sampaio vetar a lei-quadro da criação de novos municípios, apesar de tudo isto, estou convicto que o actual processo de criação do concelho é irreversível. Neste ou em outro momento o concelho de Canas parece-me ser uma realidade a que ninguém pode ficar indiferente. Mas mesmo que a criação do novo concelho não consiga ser agora uma realidade o processo abriu uma brecha tão grande entre as populações das várias localidades que no futuro vai ser difícil de fechar. O que os políticos conseguiram foi dividir as populações, extremando posições, lamentavelmente não vão ser esses mesmos políticos a sofrer nos seus quotidianos essa divisão. Muitos anos vão ser necessários para que estas feridas sarem, sem que se conheça o remédio para as sarar, só o tempo poderá colmatar danos maiores, ou então só um novo modelo de administração do território será eventualmente capaz de minorar conflitos maiores.
Mesmo assim os defensores da criação do novo concelho não desistem, alguns falam na resolução do “problema de Canas”. Pergunto-me: “Que problema?” Quantos são os filhos bastardos que não podem ignorar a sua paternidade. Esses não pedem para serem adoptados e não querem ainda pequeninos ser adultos. Sempre assumi existir uma identidade própria das duas vilas, seja como for não me parece que seja motivo para um virar de costas, nem de uns nem de outros. Pelo contrário, seria motivo mais que suficiente para cada uma das localidades e dos seus habitantes lutarem pela integridade do concelho, pena que algumas figuras coloquem o seu desejo de protagonismo acima dos reais interesses das populações. Ao terminar, tal como expressei no outro artigo, desejo que as populações consigam elas anular as divergências em que se viram envolvidas, que sejam capazes de aceitar os erros dos outros e minorar os seus efeitos, só assim as gerações futuras se vão relacionar harmoniosamente.

José Gomes Ferreira

publicado por José às 11:35