O dia em que escrevo estas palavras é um dia negro para o país, pois como por magia viu votados novos concelhos, o concelho de Fátima e o concelho de Canas de Senhorim. Parece mentira mas o que nem por sombras se adivinhava aconteceu, os Srs. Deputados eleitos por todos nós fizeram a vontade aos aparelhos dos respectivos partidos e aprovaram novos concelhos. Fica é sem se saber se a maioria deles sabia o que estava em causa, tão afastados que andam das realidades locais. Tudo isto pretensamente para darem voz aos anseios das populações.
No caso que mais nos toca o processo aparenta ser pouco claro, sem se perceber o motivo de elevar a concelho uma localidade sem condições para o ser, repartindo um dos minúsculos concelhos do país, sobretudo quando de fora ficam sem os respectivos concelhos localidades como Esmoriz, Tocha e Samora Correia, porventura melhor colocadas para essa elevação. Que fique registado que nada tenho contra as populações de Canas de Senhorim nem contra a elevação da vila a concelho. O mesmo não digo do processo que eleva a vila a sede de concelho, talvez associado à questão dos resíduos tóxicos. Mais ainda, não vejo necessidade de ver surgir no país mais concelhos, os que existem bastam, o país precisa é de melhores concelhos ou de órgãos administrativos locais similares funcionais e que estejam ao serviço das populações. Estamos perante um bizarro paradoxo, pois os mesmos políticos que chumbaram a regionalização com o argumento de que a concretizar-se levaria ao surgimento de novos burocratas e de toda uma pesada máquina votaram a favor do surgimento de novos concelhos.
Mas que desejam os nossos políticos com a criação de novos concelhos? Uma dúvida enorme se levanta: “Será que com a criação de novos concelhos não estão a fazer exactamente o que outros previam com a regionalização, com a agravante de andarem a fazer pequenas regionalizações em escalas locais?” Uma coisa é certa, ao darem voz a disputas locais em vez de unirem cada vez desagregam mais, promovendo interesses subjectivos em detrimento dos reais interesses do país e dos interesses colectivos. Daqui resulta que em vez promoverem a mudança num Portugal europeu estão a reconduzi-lo a tempos idos, em que o modelo de divisão em concelhos deu os seus resultados. Pena que em vez das necessárias reformas se assista a essa tentativa de regresso ao passado, convém é que não esqueçam que o tempo não pára.
Respondem a anseios legítimos das populações, segundo dizem. Mas que ganha o país com isto? Julgo que até perde, ganham é alguns grupos de interesse e alguns protagonistas individuais, assim sendo, em vez da festa deveria ter acontecido um velório: pelo que o país perde e pela forma como foram usadas as populações neste processo. Como imaginam uma decisão desta natureza vai sair muito caro a um país que quer a todo o custo equilibrar o deficit, pensem só nas verbas necessárias para colocar em andamento toda a máquina necessária para fazer funcionar os órgãos concelhios, quer de Canas de Senhorim quer de Fátima, já para não falar no esforço financeiro em instalações, equipamentos e pessoal. Assim vê o país surgir concelhos sem um motivo maior, somente resultantes de um momento político talvez favorável a qualquer um dos dois partidos que nas últimas décadas têm repartido o exercício governativo, levando a reboque os partidos de esquerda, entre eles naturalmente o Bloco de Esquerda, para satisfação do Sr. Deputado Luís Fazenda, que obviamente não iria renunciar às suas origens.
Tendo em conta que o factor histórico foi o principal argumento para elevação de Canas de Senhorim a concelho, em jeito de brincadeira pergunto-me porque motivo os Srs. Deputados da Nação não votaram a elevação a concelho do nosso Folhadal, que curiosamente nem à categoria de freguesia foi alguma vez proposto. Quem diz o Folhadal diz qualquer outra localidade que viu o concelho extinto com reforma dos concelhos. Fico com a sensação que a qualquer uma dessas localidades bastaria utilizarem técnicas de protesto agressivas, por vezes capazes de embaraçarem as principais figuras da hierarquia do Estado, para dentro de anos serem elevadas à categoria de sedes de concelho. Aliás, as populações afastadas da possibilidade de serem concelho deixaram esse lamento, falaram com falinhas mansas e viram os seus anseios frustrados.
Em todo este processo como filho do concelho lamento que o Sr. Presidente da Câmara Municipal de Nelas tenha acordado tarde para o marasmo de que ele próprio é um dos responsáveis. Face ao seu adormecimento para além da sua demissão não vejo outra saída. E deve demitir-se porque, se ficou clara a sua incapacidade para impedir a elevação a concelho de Canas de Senhorim, não fica demonstrada a sua capacidade para gerir no futuro o que resta do concelho de Nelas. Nesse sentido deixou-lhe o seguinte apelo:
- “Sr. Presidente! Faça um favor a si mesmo e às populações, assuma a responsabilidade politica pelo acontecido. Demita-se!»
Um apelo que estendo aos Srs. Vereadores. “Por favor, demitam-se!”. Se ambos acreditam que podem contar com o apoio das populações sujeitem essa crença a sufrágio. Sejam responsáveis pelos seus actos e aceitem a vontade ao sabor do veredicto popular. A política é assim mesmo, os eleitores estão fartos de ver o típico enfiar da cabeça na areia como a avestruz, é hora de olhar em frente e assumir os erros.
Enganem-se os que julgam que o Dr. Correia é o único culpado. Infelizmente o Sr. Presidente não é o único culpado, culpados somos todos nós, pois o processo de elevação a concelho de Canas de Senhorim não vem de hoje, é antigo, e durante todo esse tempo ninguém foi capaz de erguer a voz a favor da unidade do concelho. Agora é que dizem que fazem isto e aquilo, que se manifestam, que vão impugnar, isto e aquilo, mas porquê apenas agora? Servirá para alguma coisa? Meus amigos vamos aceitar as coisas como elas são e assumir a irreversibilidade da decisão. Na minha opinião, e procuro ser sensato, em vez de palavras vãs penso que o único gesto e as únicas palavras que nos restam devem ser de felicitação das populações do novo concelho, se assim não for a relação entre ambas as autarquias e as suas populações não deixa antever nada de positivo para o futuro.

José Gomes Ferreira

publicado por José às 11:36