Durante vários meses alguns de vós insistiram comigo para escrever sobre o que se estava a preparar para Canas de Senhorim, a de um provável negócio entre o Governo entretanto eleito e os ditos defensores dos interesses dos habitantes de Canas, organizados sob a bandeira do Movimento para a Restauração do Concelho de Canas de Senhorim. Todavia durante todo este tempo deixei os acontecimentos tomarem o seu rumo, principalmente por falta de elementos concretos sobre esse eventual negócio.
Embora evite pronunciar-me sobre a questão da restauração ao não do dito concelho, não deixo de afirmar o seguinte:
1.º Talvez porque convivi desde cedo com os habitantes de Canas de Senhorim reconheço alguns traços particulares que os identificam, com destaque para uma tradição operária ligada aos Fornos Eléctricos e às Minas da Urgeiriça, uma tradição operária nunca recuperada após o colapso das duas unidades.
2.º Qualquer habitante mais atento será capaz de reconhecer que no concelho de Nelas as opções não têm ido no sentido do seu desenvolvimento integrado (embora com outros contornos agora tantas vezes dito de sustentável), que envolva todas as populações e todos os habitantes por igual. O que ocorre em Nelas é um fenómeno idêntico ao país, onde Lisboa é quase tudo, é um concelho cada vez mais desmembrado mas com a cabeça cada vez maior, sem qualquer preocupação com a implementação de políticas viradas para o ordenamento do território e para o seu desenvolvimento harmonioso, mais ainda, sem a implementação de políticas viradas para quem se destinam – os habitantes de TODO o concelho.
Apesar de expressar estas duas ideias não pensem os defensores do concelho de Canas de Senhorim que ganharam um aliado, quer uns quer outros estão enganados. Não me meto em discussões que apenas têm como resultado perturbar a integridade do concelho e criar assimetrias entre as várias localidades e os seus habitantes. É bom que ambos os lados da barricada tenham presente que a luta tal como se tem apresentado tem nas populações não os ganhadores mas sim as vítimas. Cabe-lhes reconhecerem que as lutas por protagonismos particulares apenas servem interesses particulares, em desfavor dos reais interesses – os interesses dos habitantes do nosso concelho.
Estas palavras que vos deixo resultam, mais uma vez, de uma notícia publicada num jornal nacional de referência. Sinto-me cansado de tanta vez ver o nome do concelho estilhaçado nas páginas de jornais ou nas televisões, sempre por maus motivos. Até hoje ainda não me dei conta da comunicação social de expressão nacional divulgar qualquer apontamento positivo sobre a nossa terra, temo que isso seja mesmo uma obra praticamente impossível.
A notícia a que me reporto diz respeito à eventual permissão para a instalação de uma Unidade de Armazenamento Temporário de Resíduos Industriais Perigosos em Canas de Senhorim. Curioso ou não essa eventual permissão é a moeda de troca do Governo à criação do futuro concelho. Desejo que nenhuma das partes me leve a mal, mas a melhor maneira que achei para expressar esse negócio foi através do esboço de edital que insiro no presente texto, com todo o respeito que Canas de Senhorim e as suas gentes merecem.
------------------------------
Edital
Câmara Municipal de Canas de Senhorim
Para dar cumprimento ao acordo que presidiu à elevação a concelho desta localidade determinam os responsáveis desta câmara a seguinte permuta:
1.º Pela saúde e bem-estar de cada habitante deste concelho aceita-se uma tonelada de resíduos industriais perigosos.
2.º Caso os governantes o solicitem em alguns casos podem aceitar-se duas ou mais toneladas.
Os responsáveis

--------------------------------
A ser verdade a concretização deste negócio estamos perante um dos maiores escândalos de sempre na região. É inadmissível que certas pessoas para elevarem o seu protagonismo troquem o bem-estar das populações por situações de alto risco. Será que os “pensadores” deste negócio já reflectiram sobre “Quem quererá viver com uma Unidade de Tratamento de Resíduos Industriais Perigosos à porta?”. Acredito que não seja à porta de nenhum deles.
Acho incrível como é que os responsáveis do Movimento para a Restauração do Concelho de Canas de Senhorim entraram neste negócio.
Depois de tanta luta, por vezes usando métodos pouco convencionais (mas penso que sempre convictos de estarem a defender os interesses das populações, numa causa que acreditavam ser nobre), mudam de estratégia e preparam-se para traírem as mesmas populações que sempre estiveram nessa luta. Como resultado, pretendem trazer para o actual concelho de Nelas um problema ambiental da maior gravidade. Preferem vir a todo o custo ser concelho, mesmo que no futuro esse concelho tenha tudo menos habitantes, pelo menos saudáveis. Parece que a Canas não basta a grave situação da radioactividade das Minas da Urgeiriça.
Estamos perante um negócio vergonhoso, a única esperança está nos verdadeiros defensores dos interesses de Canas de Senhorim virem a terreiro desempenhar o seu papel, caso contrário o negócio será o da troca da saúde das populações por determinada quantidade de resíduos tóxicos. Pergunto-me: Quem no futuro quererá viver num concelho assim? Deixo a resposta aos envolvidos nesse negócio.
Não deixo é de me questionar se estes ditos lutadores não têm amor aos seus? Pois não denoto qualquer preocupação pelo seu futuro, nem tão pouco como responsáveis, mais ainda, com o negócio de que se fala não os encaro como íntegros. Como diz o povo, estão a “vender a sua própria alma”.
Agrada-me que tenha surgido neste processo o denominado Movimento Cívico «Por um Ambiente e Qualidade de Vida Melhor». Fico bastante satisfeito quando na nossa terra os cidadãos se organizam em prol de causas tão nobres como o Ambiente e a Saúde das populações.
Peço a todos que sigam este exemplo, que lutem com determinação pelos interesses de todos. Para o efeito, muito conta a forma como estamos organizados, daí a vantagem de movimentos como o acima citado, outros são bem vindos, mas sempre agindo em uníssono, sem que com isso abdiquem dos princípios que presidem à sua constituição.
É dever das populações, mesmo não vinculadas a qualquer associação, participar nas iniciativas promovidas em seu favor. Ficar de braços cruzados é ver o negócio entre o Governo e o pequeno grupo de interessados na restauração do concelho de Canas de Senhorim realizar-se à custa das populações. Será ter a atitude da preguiça, que como se diz correntemente “morreu à sede à beira da água”.
Por fim, à câmara de Nelas cabe defender os interesses de toda, e repito, toda a população do concelho, deixando de lado a luta contra as reivindicações de subida a concelho por parte de Canas de Senhorim. A saúde pública e a defesa das populações estão acima da luta política mesquinha entre meros interesses particulares ou meros interesses de classes favorecidas.
Pela parte que me toca, dentro das minhas possibilidades, estarei sempre disponível para defender a nossa terra, da melhor forma que souber.

José Gomes Ferreira

publicado por José às 11:38