Quase silenciosamente, como o vento frio que sopra nas noites longas de Inverno, este nosso Planalto é, com grande certeza, um fiel depositário da cultura passada e presente do nosso povo legada ao futuro. Tem sido, aliás, com essa convicção que sempre que posso colaboro na redacção de uma história escrita em quotidianos, ainda que muitas vezes pressinta que as minhas palavras se percam num labirinto de silêncios e olhares flagelados pela nortada.
Desta vez, até para alargar o âmbito da minha participação a outras temáticas e clamar pela presença de outros protagonistas desta nossa terra, aproveito a ideia de uma actividade escolar das nossas crianças para prestar a minha, e penso que de todos os leitores, homenagem ao homem que há várias décadas escolheu o nosso Folhadal para instalar a sua olaria, o que muito nos honra. Foi assim que no último dia do ano de 2002 na procura de material para as tarefas escolares do meu sobrinho fui visitar a Olaria do Folhadal e o seu artesão, o Sr. José Matias, em boa verdade um artista a moldar o barro, numa paixão contagiante pela efervescência, emoção e convicção.
As palavras que aqui deixo são breves não tanto devido aos meus afazeres, mas porque as fotografias para as quais o Sr. José "pousou" com toda a simpatia falam por si. São o espelho da obra feita e do seu artista, e reflectem-se nas formas e na simplicidade das suas peças. Tantas vezes se procura a perfeição, muitas vezes se ignora que se encontra na simplicidade, dando a ideia de estar escondida dos nossos olhares e das nossas sensações. Pena que nem sempre descobrimos que quem se encontra num esconderijo somos nós e dele teimosamente não queremos sair. Parece que os gestos simples e as palavras nos ofuscam e assim se perdem pessoas, lugares, objectos e emoções.
Neste texto repousa parte do meu olhar sobre esta nossa terra e o meu sentir daqueles momentos que passei com o Sr. José naquela tarde de passagem de ano. As fotografias que dou a moldar às palavras foram feitas na qualidade de amador, mesmo assim penso que dão voz à nossa terra e exaltam as suas tradições e as suas gentes. Escolhi apenas duas delas, talvez algumas das restantes sejam aproveitadas para o meu sobrinho, ou o professor dele, colocar na Internet, o que nos deixaria a todos felizes.
Numa das fotografias pode ver-se o nosso homenageado num momento de produção das suas peças, numa outra apresentam-se algumas das peças já retiradas do forno. Se fosse um filme iria mostrar o esforço que vai do preparar do barro até ao momento da peça final ser retirado do forno e ficar pronta para regalo dos nossos ancestrais olhares. E porque não para o uso que se lhe queira dar, desde os pequenos jarros nas velhas adegas até à utilização de vasilhames de grandes dimensões para morangos ou flores, vários usos podem ter.
Da conversa mantida alguns registos merecem destaque, por isso mesmo acrescento algumas notas e termino com uma sugestão. A nota que encabeça todas as outras diz respeito à perpetuação desta arte. Tivemos sorte em ser escolhidos para lar da Olaria do Folhadal Mas como será no futuro? Quem vai aprender esta arte e dar sequência a esta obra de muitas gerações? Sendo certo que a preocupação maior é a falta de jovens aprendizes com vontade de aprenderem e seguirem a actividade.
Ao contrário do que se possa pensar a actividade parece ser muito solicitada e parece ser rentável. Leva tempo, é certo, contudo acredito que venha a ser mais rentável se os futuros aprendizes, tenho esperança que se revelem, sejam capazes de inovar e de criarem os seus próprios objectos e os circuitos de comercialização, pois cada vez mais a arte não começa nem acaba na peça. A arte tem de facto início na procura da matéria-prima que melhor se adequa, todavia apenas termina quando consegue chegar ao mercado para que é destinada. Não podemos pedir mais ao Sr. José, para mim à sua escala ele cumpre integralmente o seu papel. Quem no futuro tiver coragem e engenho suficientes para se dedicar a esta arte terá de descortinar o seu mundo de oportunidades, mesmo que para isso tenha de sujar as mãos em barro o ano inteiro, mas se o fizer com convicção terá pela frente um futuro promissor.
A terminar, para que esta arte nobre de perpetuação da relação do homem com a terra e com as formas com que a molda de facto seja capaz de se permanecer entre nós, deixo algumas sugestões a algumas entidades com competências e responsabilidades. Antes disso, porém, deixo o meu elogia à iniciativa da nossa escola.

Sugestões
- Seriam bem vindas iniciativas promotoras do aprendizado, por exemplo em regime de Ocupação de Tempos Livres de jovens, mas também de desempregados de longa duração e porque não de deficientes, basta que a Câmara Municipal de Nelas e todas as entidades interessadas estejam receptivas e disponíveis;
- As nossas tradições, o nosso património e a nossa cultura são o nosso melhor cartaz turístico, com essa convicção sugiro à Câmara, à Junta Freguesia, às entidades que tutelam o Posto de Turismo e porque não à própria Região de Turismo a inclusão da Olaria nos cartazes turísticos da região, caso ainda não esteja incluída, fazendo nomeadamente parte dos panfletos, livros promocionais e roteiros.


Por aqui termino a exposição que tinha preparado sobre a Olaria do Folhadal e sobre o seu principal e até agora único protagonista, o Sr. José Matias, a quem agradeço publicamente a sua simpatia em mostrar todo o seu trabalho e, mais importante ainda, o seu gesto de humildade para com o Folhadal. Em meu nome pessoal, e penso de todos os leitores deste nosso Planalto, o meu MUITO OBRIGADO, que seja um dos nossos durante muitos e bons anos.

P.S. Infelizmente entretanto ocorreu a morte do nosso oleiro sem que nada fosse feito.

José Gomes Ferreira

publicado por José às 11:42