Caros Amigos! No dia em que escrevo estas palavras o nosso concelho voltou a ser notícia em meios de comunicação à escala nacional por motivos poucos abonatórios. Nesta mesma noite pelo menos um dos Telejornais de umas das televisões de maior audiência deu enorme destaque ao problema da contaminação radioactiva da área adjacente às Minas da Urgeiriça, dias antes tinha já sido motivo de notícia em alguns jornais nacionais. O propósito da notícia decorre do anúncio da realização de um rastreio à população afectada e da implementação de medidas de minimização dos impactes ambientais decorrentes do estado de abandono da dita mina.
Tudo indica que relativamente ao primeiro aspecto o estudo terá como objectivo averiguar da possibilidade de relação entre o problema da radioactividade da mina e da prevalência de cancro na região. Ao que percebi o rastreio será feito em cerca de 300 pessoas do concelho, sobretudo habitantes de Canas de Senhorim. Em todo o processo parecem ser apenas sujeitos ao estudo alguns dos trabalhadores da antiga mina, a mim espantam-me tais critérios, não sei como é possível diluir o risco a que foram sujeitos os ex-trabalhadores em análises apenas genéricas, estou convicto que todos eles merecem ser sujeitos a um estudo diferenciado, pois sempre estiveram mais expostos. Mais ainda, o estudo deve incluir outras populações do concelho e de outros concelhos, ambas desagradavelmente invadidas pelos restos de um passivo ambiental e de saúde pública sucessivamente ignorado pelos vários governantes. Na mesma sequência devem ser realizadas análises à fauna e flora, bem como aos solos e aos aquíferos da região.
Naturalmente que o estudo é bem vindo, mas quantos mais precisam de morrer para comprovar a necessidade de avançar com ele? Tantos anos de exploração e posterior abandono, com elevada exposição à radioactividade parecem de nada servir, parece que apenas serviram para mergulhar nas águas do Mondego tudo o que fosse possível mergulhar. Relembro aos mais esquecidos que estamos a falar de um problema que deveria ter visto solução e ser correctamente monitorizado após o encerramento da mina, ocorrido no meio da década de 80. É, aliás, no final da mesma década que surgem as primeiras notícias alarmistas sobre os efeitos da radioactividade, nesse caso sobre a sua prevalência na albufeira da barragem de Aguieira, facto que suscitou apreensão junto dos autarcas e levou o Gabinete de Segurança e Protecção Nuclear a decidir-se pela realização de vários estudos.
Mesmo após todos estes anos, como se pode comprovar no local ou a partir de estudos pontuais e de várias reportagens da comunicação social, as minas continuam abertas a viagens itinerantes de crianças em deambulações pelo abismo e pela mediocridade passiva da denominada responsabilidade humana. A partir dos vários relatos que nos chegam torna-se possível constatar, nomeadamente, o seu aspecto de abandono, a libertação de escorrências, a facilidade de qualquer um de nós ter acesso privilegiado ao local e os níveis de radioactividade que alguns conhecedores do fenómeno dizem ter detectado. Perante todo este cenário, de despojos de uma guerra sempre perdida e lenta, pergunto: “Que mal fizeram estas gentes?”, “Será que não merecem saber qual o ar que respiram, a água que bebem, a radioactividade que os aniquila?”
Se alguns de vós se recordam no Verão passado escrevi um artigo para este nosso Planalto sobre a mesma matéria, a que dei o título ”Verão radioactivo”, no qual recorria a algumas das minhas memórias para alertar todos vós e, sobretudo, as autoridades competentes. De novo é com uma enorme tristeza que deixo estas palavras. Nesse primeiro artigo referia que as águas vindas da limpeza do “minério” eram depois utilizadas na agricultura, a troco de determinada importância, que quase religiosamente os agricultores a cada ano iam levantar aos escritórios da Empresa Nacional de Urânio (ENU), tenho presente ter ido algumas vezes quando ainda era muito jovem. Lembro-me que para muitos agricultores aquele dinheiro representava como que um ordenado que não tinham, pois quase todos eles praticavam a chamada “agricultura de subsistência”, pelo que aquele dinheiro, conjuntamente com a produção daquelas terras, era como que “ouro sobre azul”. Pena que, pelo que recordo, em momento algum a entrega do dinheiro tinha anexada qualquer informação sobre a perigosidade das águas.
Como muitos sabem parte da minha infância, adolescência e mesmo início da idade adulta foi passada a trabalhar a terra, que no caso familiar se localizava em parte fora do Folhadal, uma grande quantidade de parcelas situava-se nas proximidades, ou quase no interior, de povoações como as Caldas da Felgueira, Vale de Madeiros e mesmo perto de Canas de Senhorim, por conseguinte sempre vivi de perto com os despojos das Minas da Urgeiriça. Talvez por isso tantos anos passados não me conformo com o que fizeram às nossas gentes. Pergunto-me: “Como foram capazes de comprar a sua inocência?”. Alguns agricultores mesmo que nos seus pés estivessem umas botas de borracha tocaram com as mãos água com propriedades que nem sequer imaginavam, como foi possível tal acontecer num Portugal dito de herdeiro de Abril?
Quanto ao futuro recuso-me a pensar que depois da dor de algumas famílias tudo será novamente esquecido. Não quero nem pensar que será necessário um alerta maior, por exemplo na barragem de Aguieira, como é óbvio com um risco de enorme dimensão, a que a região Centro está potencialmente sujeita, para que alguém diga as palavras mágicas: “Faça-se!”. Faço votos para que o rastreio não confirme as preocupações das populações. Faço, igualmente, votos para que sejam desde já implementadas as já tardias medidas de restrição do acesso às áreas contaminadas e para que toda a área seja devidamente reabilitada ambientalmente.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 11:45