Sempre que posso regresso às origens, nessa altura, praticamente sem esforço, recolho pedaços da nossa terra. Recupero as memórias naquilo que se perdeu ou naquilo que permanece. Identifico as novas tendências e perspectivo rumos alternativos. Entre a permanência e a mudança troco palavras com alguns dos leitores ou retenho outras conversas. Uma das tristes conclusões a que chego é de que o nosso concelho, apesar de bem dotado pela natureza, vive de costas voltadas para o que tem de melhor: tem um espaço natural por excelência e a sua singularidade – a de porta de entrada para a Serra da Estrela e a de lugar privilegiado no planalto beirão. Com este artigo volto a bater em duas teclas já gastas, a da indiferença dos cidadãos e a da ineficácia, ou ausência, de políticas públicas.
Vergonha, irresponsabilidade, um verdadeiro escândalo – são as únicas palavras capazes de classificarem o espectáculo dos detritos de diversas proveniências amontoados num espaço que em alguns momentos dizem ser um campo de tiro. Lamentavelmente, em pleno séc. XXI, alguns dos habitantes do concelho de Nelas revelam um total desprezo pelos outros e pela natureza. Infelizmente é uma imagem que caracteriza o país.
Posso admitir que ao longo das nossas vidas o ambiente e todas as questões ligadas à defesa da natureza tenham sido remetidas para um lugar à margem das decisões, assim como da acção das instituições e de cada cidadão, dado o peso da herança cultural. Não aceito é que persista a indiferença para com a natureza e, nessa ordem de ideias, para com todos os seres humanos, também eles membros de pleno direito dessa mesma natureza, com a particularidade de serem os únicos com a capacidade de agir sobre ela. Como tenho repetidamente referido esta particularidade obriga o homem a assumir responsabilidades para com todos os outros seres, para com as paisagens, os recursos minerais e marinhos, as serras e montes, os oceanos e mares.
Com mágoa sou obrigado a reconhecer que a defesa do meio ambiente praticamente se limita a ilustrar discursos, com a agravante do mau exemplo vir de cima, facto que demove o cidadão de participar. Ainda assim não desculpo os cidadãos. Por exemplo, muitos dos leitores ignoram que durante anos consecutivos, para retirarem o mínimo de sustento da terra que cultivavam com o esforço de suor e lágrimas, contaminaram os solos com pesticidas, cujo efeito na saúde humana estará ainda por investigar. Tudo isto quando é do conhecimento público que os novos cancros encontram no meio ambiente as condições mais favoráveis.
O tempo urge! Os recursos são cada vez mais diminutos, o planeta revela-se incapaz de se regenerar e, por si só, de fazer face aos atropelos e danos da acção humana, cada vez mais irreparáveis. É cada vez mais urgente uma mudança de comportamento por parte de todos e a promoção de boas práticas ambientais. E a resposta está unicamente em nós. Quando é que nos vamos dar conta de que é necessário mudar de hábitos (maus hábitos, diga-se)? Que desculpas vamos agora dar? Será que vamos continuar a usar o tradicional argumento do «Não sabia» ou «Não estava informado»? NÃO! DESTA VEZ NÃO! Com o ambiente a estar presente em todas as esferas do quotidiano não é compreensível tamanha despreocupação. Por certo a informação ainda é insuficiente, mas vamos parar de sacudir a água do capote, basta que cada um não feche os olhos, basta que retire a atenção da notícia sobre futebol, basta que as conversas se libertem da análise da vida alheia. É preciso mudar de atitude, é preciso dizer BASTA!
Pela minha parte lamento que as palavras que tenho publicado neste nosso Planalto nem sempre encontrem eco em muitos dos leitores, mesmo assim não desisto de partilhar convosco as minhas preocupações. Acredito que estas e outras palavras possam deixar algumas sementes, acredito que, como em todas as dimensões da vida, o mais importante seja plantar hoje para colher amanhã. Embora relativamente à protecção da natureza se tenham já ultrapassado muitos dos limites. Alguns dos leitores podem não ter disso consciência mas muitas reacções catastróficas da natureza têm causas humanas, é esse o caso das alterações climáticas, mas também do efeito de estufa e, outrora, das chuvas ácidas. Em Portugal a ameaça do próximo Inverno parece ser a da erosão provocada pelas chuvas, mais uma consequência dos incêndios que no Verão afectaram o país, com a agravante da erosão poder resultar em cheias catastróficas, dada a ausência de vegetação, única barreira ao deslizamento de terras.
Apesar das prováveis reacções catastróficas da natureza o país vai fechando os olhos a numerosos atropelos ao ambiente, mais ainda num período de crise económica como o que agora se vive. O nosso concelho não foge aos males do país, só assim se justifica que um campo de tiro se veja transformado numa lixeira ilegal, a que as autoridades competentes parecem fechar os olhos. As imagens que apresento foram colhidas em Setembro semanas após a realização de uma competição de tiro, sobre elas devo dizer que são incapazes de exibir a real dimensão da lixeira. De regresso ao local no início de Novembro deparei-me com o mesmo cenário, por sinal agravado pelos despejos constantes. Quem for ao local poderá contemplar na parte plana da infra-estrutura resíduos de obras, nomeadamente pedaços de tijolos resultantes de paredes derrubadas, e muito ferro velho. Por sua vez na encosta (desta montanha de lixo) observamos todo o tipo de refugos, com destaque para as dúzias de pneus e para o verdadeiro ferro velho de electrodomésticos. Um olhar mais atento permite avistar logo ali um dos ribeiros que alimentam o caudal do rio Mondego. Não nos basta o escândalo da lixeira a perturbar os nossos sentidos, depressa se conclui que as prováveis escorrências – óleos usados nos automóveis, borracha proveniente dos pneus e resíduos perigosos dos electrodomésticos – vão rapidamente entrar nas linhas de água e acabarem por ser mais uma fonte de poluição do grande rio, símbolo das beiras (Alta e Litoral).
Não pretendo eleger culpados, pois somos todos nós, mesmo assim não deixo de criticar a atitude da Câmara Municipal de Nelas, ao que parece indiferente a tudo isto, pelos menos parece fechar os olhos, aliás à semelhança da ausência de intervenção do Ministério das Cidades, do Ordenamento do Território e do Ambiente. Fica ainda por saber quem procedeu à “limpeza” do campo de tiro para o torneio de Setembro, tudo indica que quem o fez utilizou uma retroescavadora para deixar o terreno plano, atirando os lixos encosta abaixo.
Importa relembrar que o Ministério criou nos últimos anos a Linha SOS Ambiente, com o número 808 200 520, para que os cidadãos possam alertar para qualquer atentado ao meio ambiente. Estamos perante um simples instrumento que permite a cada um denunciar situações mais gravosas, cometidas pelo próprio Estado ou pelos outros cidadãos, sobre o espaço natural.
Desde o primeiro momento em que me deparei com o espectáculo do lixo decidi dar voz a uma situação outrora porventura sem importância, que cada vez mais importa abolir da nossa vida quotidiana. Fiz tudo isto convicto de que o exercício da cidadania tem expressão no espaço público, enquanto espaço de participação de todos e lugar de construção da sociedade civil e do indivíduo. Seria razoável se cada um de nós agisse preocupado com o outro, incluindo os vindouros, e com o espaço natural que o rodeia. Perante o testemunho revelado pelas fotografias que aqui deixo parece, infelizmente, ser pedir muito a alguns de nós. É tempo também eles de mudarem.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 13:34