Mais uma vez uso a palavra escrita para insistir que nos cabe a todos nós, sejamos autarcas, empresários, agricultores, profissionais liberais, operários, donas de casa, encarregados de educação ou cidadãos, na sua formulação mais genérica, lutar pelo cuidar da nossa herança cultural e patrimonial. Mais, ainda, acredito que é nos contextos locais que se joga o nosso futuro. Não vale a pena dizer que não é connosco, pois somos todos responsáveis e enquanto tal deveremos participar no esforço de melhor decidir o futuro. É tempo de mudar e essa mudança envolve-nos a todos, só assim se promoverá a preservação da nossa herança cultural, testemunho vivo do passado, no presente, a legar às gerações vindouras.
O nosso concelho, com a riqueza natural e patrimonial que o caracteriza, tem tudo para ser um local de atracção, contrariando a tendência do país, de concentração em duas grandes Áreas Metropolitanas – Lisboa e Porto –, tarefa que exige pessoas empreendedoras e com uma visão de futuro. Estamos no coração do Dão, mais um motivo para se ter orgulho nas nossas gentes, nas nossas aldeias e vilas, sem esquecer que a nossa história, bem expressa através de monumentos vivos, faz parte de nós e assim deverá permanecer para quem no futuro por cá ande. Incumbe-nos honrar e dignificar as nossas heranças, é nossa responsabilidade enquanto cidadãos fazê-lo. Não vamos mais uma vez virar as costas.
Em alguns momentos confesso algum desalento face à letargia vivida na nossa terra, ante momentos em que as nossas memórias e os nossos anseios por um mundo melhor são interrompidos por avassaladores sobressaltos, sem que se entendam os motivos da supressão da glorificação de um ideal-tipo de vivência em comunidade com respeito pelas heranças culturais. Como se pode constatar nas fotografias é desse desalento que vos falo, cujo epicentro se localiza na própria sede do concelho de Nelas.
Caros Amigos! É de palavras e imagens que me sirvo para expressar publicamente a minha profunda tristeza e indignação face ao estado de abandono a que chegou o edifício do antigo Ciclo Preparatório, um mau exemplo para quem nos visita, sobretudo ao estar exposto para quem o quiser ver logo ali em frente da Estação dos Caminhos-de-ferro, e um mau prenúncio para os nossos sucessores. Veja-se o cenário que se nos apresenta, o de um edifício em ruínas, moribundo, por quase todos esquecido, em que no momento da recolha das fotografias podia ler-se numa pequena placa um lacónico «Vende-se», como que a colocar em leilão parte da memória colectiva e da vivência das nossas gentes.
Confesso que desconheço qual a história do velho edifício e qual o motivo de ter chegado ao actual estado. Do mesmo modo, ignoro se se trata de propriedade privada ou pública. Seja como for, com um passado mais ou menos importante, propriedade privada ou não, deveria ser recuperada a dignidade de um edifício que durante muito anos recebeu centenas dos nossos pequenos alunos, agora homens e mulheres já adultos. Pelo menos por todos nós, que fizemos daquele espaço um espaço de saber e de sociabilidades juvenis, deveria merecer o mínimo de respeito e atenção. Embora sabendo-se de antemão que o país vive momentos de crise e que as autarquias são quem mais sofre.
Um espaço como aquele, com toda a sua história, seria o local ideal para instalar o que poderia ser um Museu Municipal ou Etnológico, pelo menos por mim sonhado ao longo de várias páginas aqui publicadas, sem que alguém com reais interesses no futuro do concelho tenha feito nada. Sei bem que a cultura “não enche a barriga”, mas sem cultura um país não se justifica enquanto tal, ao não permitir a transmissão da memória colectiva e ao não facilitar a configuração dessa mesma memória. Pior ainda, a história tem sido testemunha de que a ignorância apenas serve regimes de cariz autoritário. Não é isso que desejamos para Nelas, nem para o país. Num Portugal que se deseja moderno as palavras de ordem deveriam ser (entre várias) agir, informar, participar, partilhar espaços e preservar.
Resta a esperança de ver a autarquia ou qualquer outro organismo público assumir qualquer iniciativa, mesmo que seja em parceria com entidades privadas, a lei de mecenato, a concretizar-se, serve é para estas iniciativas, já para não falar nos Programas Operacionais de tudo quanto mexe. Como último recurso resta a esperança de pessoas individuais ou colectivas fazerem avançar essa obra que nos poderá orgulhar. Não se trata de inveja mas os nossos vizinhos possuem o já famoso Museu do Pão, nós, contrariamente, parece que estamos mais apostados em deixar erguer espaços comerciais, onde se vendam os tapetes de arraiolos feitos na China, os aparelhos eléctricos e electrónicos da Coreia do Sul e, porque não, as gangas vindas directamente da Tailândia. Penso que concordam comigo se eu disser que para quem se preocupa com a nossa terra, mas também com o país e com o planeta, estas coisa doem. Para todos deixo o desafio.
Termino o meu artigo com uma última nota de lamento. Sem querer acusar ninguém, até porque não me vejo no papel de delator, não deixo de manifestar o meu profundo pesar pela situação de desprezo que vive a sepultura antropomórfica existente no Pombal. Move-me o desejo de um Folhadal melhor, capaz de ser um exemplo para todos. Entristece-me ver o que já foi um lugar de repouso para os que partiam transformado em parque de estacionamento ou depósito de materiais. Não procuro culpados, no entanto penso que em última instância caberá à autarquia (e que é feito do IPPAR quando se precisa dele?), a responsabilidade de proteger o que é de todos. Uma protecção que poderia apenas passar pelo ajardinamento e vedação da área, com uma placa identificativa da sepultura. Será pedir muito?

José Gomes Ferreira

publicado por José às 13:37