Convicto da importância do meu olhar, tantas vezes incrédulo, sobre o quotidiano nos nossos lugares e na nossa presença em comunidade – na qualidade de cidadãos, de quem se espera que exerçam em plenitude esse seu atributo –, aqui deixo mais algumas palavras para os leitores mais atentos ou apenas para os simples interessados. Nessa sã convivência entre autor e leitor partilho convosco uma preocupação já tantas vezes expressa e idolatrada, a minha preocupação e dedicação à natureza, sobretudo à natureza vivenciada.
Não me vou deter em aspectos mais académicos, esses são alvo de reflexão em tempo e lugar próprios, no entanto, não deixo de enunciar algumas das minhas devoções e percepções sobre o que se pode pronunciar como “esta ideia” e “aquele lugar”, ou mesmo sobre o Planeta e a ideia e percepção do Cosmos organizado. São essas algumas das alusões correspondentes a uma noção de natureza por vezes entendida como colocando o ser humano fora de si mesma, pois não raramente o homem é referenciado como situado num patamar superior, dada a sua capacidade de agir sobre esta, capacidade que, como se deverá supor, lhe confere responsabilidade na sua acção sobre aquela outra. Sendo certo que esse mesmo homem é apenas mais uma espécie a juntar a tantas outras que corporizam a natureza, com a particularidade de ser a única espécie a agir sobre ela, o que faz dele responsável tanto pela espécie humana como pelo futuro de todas as espécies e de todas as paisagens.
A partir deste enquadramento, percorrendo uma escala que vai do âmbito global ao local, decidi falar-vos sobre uma realidade com que me deparo praticamente em cada visita que faço ao nosso Folhadal. Em cada uma dessas visitas constato um progressivo afastamento das pessoas em relação aos campos, sobretudo os mais jovens, os quais olham com desdém a inocência fatigante dos trabalhos agrícolas, como que rejeitando o suor neles deixado pelos seus antepassados. Não condeno esse quase total alheamento, sei que muito se deve a causas externas, como sejam as políticas agrícolas, a busca de novas oportunidades; ou então a causas internas, genericamente relacionadas com a gestão de expectativas e com as discrepâncias geracionais. Seja qual for a explicação parece tirada de uma qualquer ideia de progresso apenas com registos urbanos, uma ideia com pressupostos falaciosos. Considero, genericamente, que sem a ideia e a prossecução de uma relação primordial homem-natureza não haverá progresso, apenas terá lugar a incessante artificialização do que outrora acreditávamos ser o meio natural.
Em termos sintéticos esta é a realidade com que nos confrontamos nesta nossa terra e em muitas outras comunidades. Paradoxalmente esta não é a realidade sonhada e por vezes concretizada por jovens e adultos que habitam uma qualquer grande urbe. Curioso ou não é que estes últimos anseiam por possuírem um pedaço de terreno onde possam ignorar o ruído e a poluição das grandes cidades, e onde possam viver o compasso das colheitas em detrimento do compasso de chegar a um qualquer lugar.
Os jovens dos meios tradicionalmente rurais fogem de tudo o que de natural os rodeia, exaltam o urbano e os seus valores, ignoram a possibilidade de poderem estar a viver num paraíso anunciado aos segundos [embora seja um paraíso na terra, por conseguinte, com defeitos]. Em contrapartida, os citadinos desejam recriar nas suas vidas a relação milenar do homem com a natureza, substituindo o perverso confronto com o que os rodeia pela vontade de equilíbrio entre eles e a natureza, que é seu desejo os venha a rodear. No campo perdem-se profissões, perdem-se saberes que não se sabem perpetuar, enquanto isso é promovido, sem que se saiba por quem, o desejo de um quase determinismo cultural identificador das grandes metrópoles, infelizmente em inúmeros casos tal desejo aponta para o lado obscuro da vida social urbana. Contrariamente, na cidade imaginam-se saberes, sabores e odores, sonha-se com um recanto picotado pelas estações do ano e pelo silêncio das plantas no quintal e das aves no horizonte.
Em suma, nos contextos agrários são rejeitadas as ideias de natureza e de permanência, optando-se pelo percorrer de uma representação de cidade como sustentáculo de uma ideia de progresso; na cidade, por sua vez, sonha-se com o paraíso, com a imagem e o imaginário campestre, ou então revisita-se a memória. Com ou sem paradoxo um elemento parece ser merecedor de consenso, a natureza é só uma, o que muda em cada contexto é a intervenção do homem sobre ela, ao espelhar diversas matizes do processo de artificialização do meio natural.
Como filho desta terra tento sempre que posso alertar para alguns sintomas de indiferença face ao que nos é exterior. Termino exactamente da mesma forma que iniciei, a expressar o meu desejo pela transformação do que nos é mais querido em todas as suas expressões, ou seja, a nossa terra e tudo o que a ela se refere e em todos os domínios. Não me canso de clamar pelo fim do vosso silêncio, pelo exercício pleno dos vossos direitos e responsabilidades, ou seja, pelo exercício da vossa cidadania, claro está uma cidadania participativa. Só através dela o país fará sucumbir o marasmo e a passividade em que gosta de estar. Sendo certo que do silêncio apenas brotará a ignorância, pois, somente a participação promove uma sociedade mais justa e mais igualitária, com decisões partilhadas e não tomadas pelo grupo dos designados pares. A diferença é que no primeiro caso as decisões servem os interesses da comunidade, de uma comunidade interessada, no segundo caso as decisões apenas servem o grupo restrito de interessados e estão por isso ao serviço destes.
Estas são esquematicamente algumas das questões que sobre a vida quotidiana se colocam, e não apenas sobre a natureza, embora esta seja cada vez mais um forte alvo de cobiça. Estas e outras questões deveriam ser na prática motivo para a tomada de decisões que interessam ao futuro Planeta e à própria Humanidade. Através delas será possível minorar o lado irresponsável da acção humana sobre os seus próprios futuros e a falta de equacionar as questões na perspectiva de tempo longo, e eliminar a desmedida preocupação geracional.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 13:37