Como por magia chega mais um Natal. Nesta quadra cidades, vilas e aldeias enchem-se de luz e esplendor. As crianças quase negociam o presente que desejam, os adultos atafulham de ilusões os grandes espaços comerciais e as pequenas lojas. As estradas ficam subitamente bloqueadas perante o vai e vem dos portugueses de um lado para o outro, não tardará partem das grandes centros rumo à chamada “terra”. Em breve a família alargada se unirá, para que assim se cumpra a magia, feita com as alegrias dos corações nos momentos de reencontro e de permanência.
O Natal é também feito de memórias. O frio dos primeiros dias do mês de Dezembro lembra tempos e festejos idos, em que as famílias se aconchegavam no carinho da lareira. Tempos em que se aproveitava para descansar do frio que tido invadido o corpo na apanha da azeitona, tempos também dos enchidos a preencherem a casa de esperança, e em que nas noites longas ao calor da lenha se recordava com saudosismo todos os que já tinham partido, mas que permitiam aos mais velhos recuperar quotidianos, gentes e lugares.
Em contextos como o nosso, o Natal assume-se enquanto momento de exaltação dos laços de família e das redes de sociabilidade. Em contraponto, nos meios cosmopolitas o Natal viu-se reduzido a um mero lugar de troca, principalmente das prendas que agora não se penduram na chaminé mas se escolhem criteriosamente e se entregam em mão, muitas vezes como instrumentos de uma verdadeira acção de marketing. Assim se tecem as relações entre instituições e profissões, do mesmo modo assim se modelam as relações de consanguinidade. Enfim, esta é a quadra da solidariedade, expressa em diversas formas.
Na nossa terra, felizmente, o Natal é mais do que a festividade em si, com os seus próprios rituais. Acima de tudo é um ritual de união da família, consagrado sobretudo na noite da consoada e no almoço do próprio dia. E em alguns casos na missa do galo ou na missa do dia, embora a missa do dia seja, em parte, um ritual consagrado a um primeiro momento de sociabilidade, com visibilidade no traje que se guardou para o momento e na cumplicidade vivida na passagem de quase todos os habitantes da aldeia pelo largo onde arde a fogueira alusiva às festividades. Mesmo os que, por algum motivo, não participem na eucaristia de Natal é certo que mais tarde vão encontrar oportunidade para se deslocarem para junto dos troncos que ardem no largo.
Se a casa é o lugar da família, a capela o lugar da fé, da festa religiosa e a primeira oportunidade de sociabilidade, o largo da aldeia com a sua fogueira é o lugar das sociabilidades por excelência, lá se juntam ricos e pobres, adultos e crianças, habitantes, familiares não residentes e convidados. O largo funciona também como estruturador dos papéis sociais. Tem a particularidade de ser basicamente um lugar de sociabilidade masculina, onde os homens se assumem como que porta-vozes da família. Às mulheres continua a ser reservado um outro papel, o de em conjunto preparem o almoço e de assim facilitarem mais um reencontro de todos.
É junto à fogueira que se trocam as primeiras palavras, é também junto à fogueira que os que partiram para lugares distantes recuperam amizades e laços de vizinhança. Depois, quase à mesma hora, todos partem para junto dos seus, trocam até à derradeira encruzilhada as últimas sílabas da manhã. Alguns partilham o aperitivo para o almoço, quer nas tabernas, quer por vezes em casa. Note-se que o convite para um vizinho tomar um aperitivo em casa, embora feito pelo homem, passa pela confirmação da dona da casa, com um cordial “Entre Sr. António, venha beber qualquer coisa!”. Por norma o almoço é em família, alargada nomeadamente pela presença dos filhos e filhas, das noras e dos genros, e dos netos e das netas.
Horas mais tarde os habitantes hão-de voltar ao largo, como que convictos de que as sociabilidades na aldeia não iludem a permanência. Entretanto, os filhos da terra agora distantes partem em direcção ao destino que os trouxe. Os que ficam recuperam tradições e conversas. Os que partem desejam permanecer e, tantas vezes, impedir a contingência da fuga necessária, mas as suas vidas são também feitas de outros lugares e outras sociabilidades. Antes de partirem, em vez de lágrimas e constrangimentos, preferem sentir mais uma vez as fragrâncias da terra e do pinhal. Respiram fundo silenciosamente! Com esse gesto escondido querem fortificar a ambição de regresso e de constância. Antes que tudo isso aconteça ambos esperam tornar inalteráveis tantas outras festividades natalícias.
Mais uma vez como por magia se cumprirá o Natal. Para todos os amigos e leitores deste nosso Planalto deixo uma ideia de Natal que, felizmente, ainda se concretiza na nossa terra, embora a sua virtude vá sendo dissimulada por objectos e rituais pouco característicos desta quadra. A ideia de Natal que aqui quis deixar não é a de um Natal de luxúria e esplendor. Em vez dessa ilusão escolho a ideia de festa, de familiaridade, e a de reforço dos laços de vizinhança e da manutenção das redes de sociabilidade. São estas ideias as associadas ao Natal, associadas à ideia de reprodução dos laços que nos unem e ao seu fortalecimento.
Não termino sem desejar a todos um BOM NATAL e que o ANO 2004 nos traga muitas alegrias. Votos sinceros de BOAS FESTAS.

José Gomes Ferreira

publicado por José às 13:38