Uso para rosto deste artigo o título de uma das obras mais emblemáticas quanto à relação homem-natureza e aos efeitos nefastos desse mesmo homem nessa mesma natureza e na sua própria saúde. Estou a falar do clássico Primavera silenciosa, de Rachel Carson, que, se a memória não me falha, foi editado pela primeira vez na sua versão original em língua inglesa em 1962. Essa obra alertava pela primeira vez para os perigos do uso dos pesticidas na agricultura. Aqui a minha preocupação será outra. De modo prioritário, quero falar-vos acerca de algumas questões locais que irradiam um silêncio fétido e preocupante. Ainda que o uso de pesticidas por todos nós, ao longo dos anos, deva só por si ser motivo de preocupação ou pelo menos de estudo.
A primeira das questões de que vos quero falar não é apenas local, é um drama nacional. Refiro-me ao clima de insegurança e impunidade em que o país tem vindo a ser mergulhado. Não nos bastam as ameaças do horror terrorista, por vezes aqui tão perto e para nós ali tão longe (porque a dor dos outros não é a nossa). Como devem perceber, estou a falar da onda de furtos recentemente registada. Com tudo o que tem acontecido pelo mundo fora e entre nós somos levados a pensar que a Civilização entrou num período de retrocesso, sobretudo, tendo em conta que um dos aspectos que distingue um Estado moderno de qualquer um outro é o facto de ser este a possuir o controlo dos meios de violência. Ora, o que na prática ocorre é que os Estados estão a perder cada vez mais esse seu atributo.
Internamente, regressa o fantasma da justiça popular, uma afronta ao estado de direito e, mais ainda, uma afronta às instituições. Gera-se aqui um paradoxo, uma vez que, curiosamente, é a ineficácia das instituições que fomenta e alimenta a ideia da justiça popular. Por exemplo, neste drama dos assaltos o que na prática tem ocorrido, de norte a sul e agora também na nossa terra, é que irrompem em catadupa nas nossas vidas sem que se veja nenhuma acção eficaz no combate a esse flagelo. Um processo a revelar uma clara falta de capacidade de intervenção por parte de quem deveria intervir. Umas vezes é a falta de meios, outras a falta de preparação dos profissionais, outras então a falta de coordenação, desculpas não faltam. Aí surge, então, o fantasma da justiça popular, achando os seus protagonistas que vão ser capazes de resolver os problemas pelas suas próprias mãos. Embora não simpatize com este ideia reconheço que o desespero possa mobilizar as pessoas para áreas que não lhe estão atribuídas, espero por isso que sejam as instituições a evitar estes extremos errantes
Talvez mais grave ainda é quando os criminosos são apanhados e depois a culpa não é formada. Face a uma justiça tardia e, pelo que cada mais se escuta, injusta, não cessa de aumentar o sentimento de impunidade. Como disse publicamente um mediático advogado: “Em Portugal, quem tem estatuto social e político e poder económico, safa-se sempre”. Isto para não falar nos tribunais a abarrotar e nos processos que prescrevem sem ser feita justiça.
Sobre a nossa terra e o clima de insegurança a que se viu submetida resta-me pedir a todos para não facilitarem. Lá diz o ditado: “A ocasião faz o ladrão”. Longe vai o tempo em que se podiam deixar abertas as portas das casas. Mesmo assim, se algo ocorria lá existia o bode expiatório de sempre, mas à custa dele muitos devem ter ficado regalados. Naturalmente que não deixo de alertar as autoridades com algumas responsabilidades para as assumirem, entre elas a GNR. Pois é esse o seu papel, garantirem a segurança dos cidadãos e o estado de direito, se assim não fosse estaríamos num país de pistoleiros. Infelizmente nem a nossa terra, de algum modo tranquila numa certa pacatez, escapa à perversão das mentes criminosas.
A segunda questão que me levou a deixar estas palavras para os leitores é já uma questão de política local clássica, mas também muito à semelhança do que se passa com o próprio país. Refiro-me ao seu excessivo pendor centralista, com visibilidade depois na sua macrocefalia, ou seja, a persistência da ideia de que “o país é Lisboa e o resto é paisagem” teima em concretizar-se na vila de Nelas. Os exemplos não param, alguns deles capazes de alcançarem impacto nacional, neste caso fico-me com o que para muitos pode ser um pormenor, mas para mim é uma questão de postura dos responsáveis políticos locais face às populações.
A capa do número de dia 1 de Abril do nosso Planalto dava destaque à iluminação pública na Av.ª António Monteiro, de ligação do Folhadal a Nelas. Não deixo de expressar a minha satisfação pela magnificência da iluminação da dita avenida, contudo, não deixo de expressar, igualmente, a minha indignação. Como se pode reparar a iluminação apenas serve os interesses da vila, pois após a última rotunda reina o breu e o jejum. Felizmente o Folhadal tem atributos próprios e não se fina perante esta afronta. Tem boas gentes, é um lugar com uma esplanada sobre o coração da beira, tem o céu iluminado pelas estrelas, neste último caso ao contrário da vila que se ilumina com partículas incandescentes libertadas na combustão dos seus maiores ícones (desenvolvimento a quanto obrigas!).
Não fosse a dependência energética do país – das reinantes energias fósseis, diga-se – e a iluminação pública seria sinónimo de modernidade. Com tantas energias que a natureza nos dá, com destaque para a solar e a eólica, vivemos na terra da abundância e do desperdício. É lamentável que não se recorra a uma dessas opções, talvez assim as luzes que iluminam a avenida fossem capazes de pelo menos iluminar o largo do cemitério ou então fossem capazes de acompanhar toda a Estrada da Felgueira até terminar o Folhadal. Seria uma atitude reveladora do maior respeito pelos seus habitantes.
Apesar desta imagem negativa nem tudo no nosso concelho é mau. Uma outra ideia de primavera silenciosa parece querer brotar. Por ela e pela esperança num amanhã melhor termino o meu artigo com merecidas palavras de apreço para com algumas boas mudanças que lentamente ocorrem., como se a permanência não fosse apenas sinónimo de atraso, fosse, antes de mais, cuidar do passado e garantir a sua manutenção para os nossos herdeiros (futuros) ou para os actuais visitantes das nossas terras. Convicto da necessidade dessa esperança menciono, igualmente, dois exemplos.
Congratulo-me com o anunciado projecto para a transformação da Quinta da Cerca num parque ecológico, um espaço projectado para cumprir a dupla função de educação ambiental e procura de novas vocações, com é o caso do turismo ambiental e cultural. Reconheço, desde já, a prestação positiva da autarquia em todo o processo, que se espera venha a assegurar os sempre necessários financiamentos. Tenho por hábito fazer alusão às gerações futuras e este é marcadamente um passo importante na preparação do futuro, numa perspectiva de médio prazo. São de louvar as iniciativas em prol da educação ambiental. E se neste caso a encaro, basicamente, como destinada aos mais novos, os adultos também dela necessitam. Por exemplo, muitas pessoas teimam em não utilizar o ecoponto ou a fazerem-no mal, não sei se por teimosia, se por resistência, se por ignorância, se por ausência de campanhas de sensibilização ou se por falta de informação. A verdade é que o fazem. Porque não mudar? Um pequeno gesto nosso em cada dia equivale a um dia melhor para todos nós. Mas tudo isso é um processo de aprendizagem.
Outra notícia que me cabe louvar é a referente ao anunciado circuito ciclo-pedreste a criar no concelho, que a concretizar-se será uma importante mais-valia (caso não se concretize será apenas uma mentira do primeiro de Abril, mas recorrente na política). Mais do que uma estrutura destinada ao desporto e lazer uma obra destas é um excelente catalisador para promoção da mudança de mentalidades, principalmente porque permite que se acabem as desculpas e os medos para o cidadão não fazer ou não saber. Trata-se de uma estrutura capaz de complementar de forma subtil o esforço feito no futuro Parque Ecológico da Quinta da Cerca, talvez com a vantagem de ser mais aberta a todos.
Depois do anúncio destas estruturas, ao nível das grandes estruturas ficará a faltar um parque de campismo, preferencialmente junto às termas das Caldas da Felgueira e ao rio Mondego. Se um dia se avançar com ele, colocará a região em definitivo na rota do turismo natureza. E, claro está, falta-nos um Museu Municipal, Etnográfico, o nome pouco importa desde que seja um reservatório da cultura popular. Estes laivos de esperança permitem-nos acreditar que a primavera silenciosa poderá corresponder à edificação de um concelho melhor. Mas se tudo isto são coisas boas, muito falta ainda fazer. Da parte que me toca vejo com optimismo a obra feita mas, como não simpatizo com o cruzar dos braços, reafirmo que deveremos avançar e trabalhar mais e melhor em prol de todos.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 13:40