Quase às escuras, mas não pelos mesmos motivos de quem vou retratar, deixo neste nosso jornal algumas palavras sobre o exemplo de afirmação e convicção dado pelo Sr. Prof. Fernando Pereira, que limitado nas suas funções físicas não deixa de ter um importante papel na sociedade portuguesa. Falo às escuras porque não vi nenhuma das reportagens nas nossas televisões, nem o conheço pessoalmente. Pelo meu sobrinho, que aliás esteve presente nessas reportagens e directos, sei que é professor de Português e de História na Escola E.B. 2.3 Fortunato de Almeida, em Nelas. Paralelamente usa a música como forma de expressão, trocando sons por imagens que não pode ver, tocando horizontes com as notas das cordas, talvez pensando serem menos longínquos os céus que a realização dos sonhos. Através do projecto Fernando Pereira & os Stoures, pelo que me foi dado a entender através da consulta da página da Internet (www.escoladetodos.com), a música não se limita a ser uma paixão ou uma forma de expressão, a dimensão lúdica da música tem como esfera de intenções o enriquecimento e a facilitação das sociabilidades dos alunos.
Falo às escuras para me colocar em pé de igualdade com o retratado. Faço-o tentando imaginar quotidianos sem espreitar o azul dos céus, sem me deixar contagiar pela felicidade estampada nos rostos dos outros ou sem sentir no coração o palpitar de olhares ofegantes. Falo das dificuldades de alguém específico, todavia milhares de portuguesas e portugueses debatem-se todos os dias com problemas acrescidos, tantas vezes sem o apoio de ninguém, outras vezes com a sensação de serem vistos como “a coitadinha” ou “o coitadinho”, desabafo que acaba por resultar num “lavar as mãos”. Digo isto sem culpar ninguém, em vez disso uso como exemplo para todos o exemplo de luta e vida dado pelo Sr. Professor.
Não deveremos ter medo, teremos porventura algum pudor, em reconhecer que na sociedade moderna, tecnológica e competitiva, é promovida sem cessar a perfeição do homem. Sei que não é fácil de aceitar mas, silenciosa e lentamente, são promovidas expressões de eugenismo que nos lembram páginas dramáticas da história da Civilização. Por culpa da tecnologia (ou dos seus usos humanos), à semelhança do século anterior, o séc. XXI é também ele o século do corpo, por sinal um corpo que agora se assume cada vez mais em objecto da tecnologia. Estamos, por conseguinte, perante um corpo apenas assumido como matéria e é nessa condição que se presta a ser manipulado no sentido do belo e do sublime, rejeitando todos os outros moldes.
Não é preciso ser-se nenhum especialista para se reparar em algumas expressões de censura a que os corpos menos “perfeitos” se vêm votados. Se antes “gordura era formosura”, agora quem não consumir produtos light e não frequentar um ginásio pode enfrentar o olhar devorador da censura alheia. Semelhante exemplo é o da calvice, se outrora “era dos carecas que elas gostavam mais” agora, excepto se for um exercício de vaidade, a calvice é alvo de forte preconceito. Entretanto, o corpo, de tão exposto que é, já nada tem para revelar, é um mero artifício, produzido uma vezes por necessidade, outras vezes por mera vaidade de um sujeito que se aproxima do arquétipo do cyborg.
Este quadro de institucionalização de práticas sociais resulta (e porventura em alguns casos poder-se-à pensar que é o resultado) num conjunto de actividades aparentemente ao serviço do corpo. São exemplos as biomedicinas, que tanto permitem o nascimento, outrora negado, como o prolongamento da vida, mas também as cirurgias estéticas que permitem artificializar o que era natural. O mesmo se pode afirmar de algumas práticas de aborto, cujos objectivos passem pelo evitar do nascimento de bebés que depois se possam revelar um peso para os pais e um custo para os serviços de saúde de cada país. Não distante das biomedicinas surge a indústria farmacêutica e a cosmética. Num outro extremo aparece a produção e comercialização de produtos alimentares. Como agregadora de muitas destas actividades está a moda – a roupa, o desporto, o lazer, entre outras. Estes são alguns dos exemplos, a lista é infindável e vai sempre no sentido da procura da perfeição do homem-matéria, menosprezando tudo o que não corresponda a um homem-modelo.
Através destes e de outros exemplos fica a ideia de que quem não tem todos os predicados da “perfeição” poderá ser remetido para um lugar não lugar da sociedade. Curiosamente muitas vezes as tecnologias são adoptadas com o argumento da promoção da cidadania, ora, o que na prática se pode constatar é que algumas opções na era das tecnologias acabam por acentuar as diferenças e promover a exclusão. Assim vemos os idosos serem colocados em lares, alguns deles a fazerem lembrar os outrora asilos, com o que a designação tem de depreciativo. Embora o termo lares não possua a carga negativa do passado, contudo a recente avaliação feita pelo Ministério que os tutela dá uma clara ideia de como são hoje tratados os idosos. Mas não são apenas os idosos a serem remetidos para lugares marginais da sociedade contemporânea. Talvez de forma ainda mais grave as pessoas com deficiência, física ou outra, em poucos casos conseguem ver reconhecido o seu lugar como cidadãos. Muitos exemplos se poderiam dar sobre as limitações à dignidade de todos os homens, sugiro apenas dois deles, com a triste virtude de serem comuns a muitos cidadãos deficientes.
O primeiro dos exemplos a que me refiro dá conta das dificuldades de acesso ao mercado de trabalho, importante para a sobrevivência material de cada um e também para a realização das suas ambições e expectativas. O segundo exemplo é exterior aos contextos de sociabilidades do cidadão com deficiência, contudo atravessam de forma estrutural o seu dia-a-dia, refiro-me à falta de planeamento das cidades, vilas e aldeias, como se sabe nada apropriadas a todos os cidadãos. Se nas ruas são as barreiras físicas, o estacionamento automóvel sem regras, os buracos e o lixo, no interior dos edifícios, com relevância para os públicos e para os espaços de cultura, a falta de planeamento ou a ausência de soluções posteriores dificultam ainda mais as acessibilidades no dia-a-dia.
Muito se fala em solidariedade para com a pessoa deficiente, a prática continua a ser o que sempre foi, ou seja, pouco ou nada significativa. O deficiente não é tido na sua autonomia, nem considerado uma pessoa com a sua própria dignidade, ambições e com um papel social igualmente importante. Ainda assim o pouco que tem sido feito – muito a exemplo do contributo na primeira pessoa do Sr. Professor Fernando Pereira – é só por si motivo para se ter esperança num futuro melhor, mas muito mais é ainda necessário fazer. Acredito que precisamos não apenas de políticas capazes de promoverem o que é comum designar-se como discriminação positiva, mais importante ainda é a necessidade de se mudarem as mentalidades e se afastarem preconceitos mesquinhos. Acredito que só a mudança de mentalidades conferirá a ao cidadão com deficiência, como a qualquer outro, o seu devido lugar na sociedade portuguesa, não um lugar à parte, antes sim, o lugar de cidadão de pleno direito. Em suma, o lugar de diferente a quem deverá ser reconhecido o seu estatuto de igual.
Não termino este meu breve artigo sem deixar uma nota de pesar pela morte do Sr. José Matias, o oleiro do Folhadal, cuja notícia da sua perda me deixou consternado. Uma triste perda para a aldeia e para o concelho, pois, não se perde apenas mais um habitante, perdeu-se uma instituição difícil, porventura impossível, de substituir. Se bem se lembram no ano passado dediquei um artigo aqui no nosso Planalto ao nosso oleiro e ao seu papel na preservação de tamanha herança. Embora não lhe restitua a vida sinto-me honrado pelo facto das minhas palavras e fotografias documentarem a passagem por nós de cidadão tão ilustre. E são uma prova de que o valor social de cada um não se mede pelo poder, pelo dinheiro, pelos títulos académicos ou qualquer outro atributo material que se diga possuir. Antes sim pela sua capacidade de entrega aos outros e a causas comuns. Lamento que em vida nada tenha sido feito para dar sequência à sua obra, acredito que em nós ficará a sua memória.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 13:41