Em cada Verão o país fica suspenso em chamas e clamores. É o drama dos incêndios que se repete. Tudo se repete, apesar das promessas, e com maior gravidade que no ano anterior. Promessas, promessas, vãs promessas. Mal o Verão acaba nunca mais se volta a ouvir falar no assunto. Antes disso, são as promessas na melhoria de meios de combate, na sensibilização das populações, na reflorestação das áreas ardidas… Na prática pouco é feito, veja-se o nosso concelho, o que foi feito após os incêndios dos últimos anos? Nada, absolutamente nada. E essa é a imagem de um país que se vota ao abandono e desperta angustiado três meses por ano.
Quando se trata de apoiar a Selecção Nacional de Futebol todos somos orgulhosamente portugueses. Passada a euforia do Euro 2004 os portugueses voltam a pronunciar a frase que parece petrificar-lhes a auto-estima – quando algo não corre de feição logo desabafam “Detesto este país!”. Curiosamente apontam essa frase apenas quando se trata de “apresentarem trabalho”, pois na hora de mostrarem que merecem realmente o país onde vivem proclamam a sua negação.
Recordo-me de em tempos idos o povo ser chamado a combater qualquer fogacho que aparecia na nossa terra. Mal tocava o sino da capela lá íamos todos nós. Os bombeiros, a serem precisos, chegavam mais tarde, até porque a prioridade era envolver as pessoas mais próximas. Ora, o que se tem registado nas últimas décadas é uma inversão total destes comportamentos. Agora ficamos onde estamos, enquanto isso os bombeiros são os primeiros a ser chamados e muitas vezes os únicos a combater os incontroláveis incêndios.
Naturalmente que o drama não se reduz a estas causas. Para os governantes a culpa foi da onda de calor, como se não fosse recorrente a situação de altas temperaturas. Da oposição desde os primeiros dias praticamente apenas se escuta o silêncio. Já os ditos líderes de opinião insistem na necessidade do país adquirir meios pesados de combate aos incêndios e os especialistas relembram a falta de ordenamento florestal. Este Verão, talvez não por coincidência, os mais graves incêndios começaram por irromper em áreas secundarizadas na prevenção e vigilância. Referi acima que o povo agora não ajuda no combate aos fogos, acrescento que estamos a falar principalmente de riscos rurais, que ocorrem em áreas já elas socialmente fragilizadas. Nove meses votadas ao abandono ou deixadas aos idosos que já não podem partir, ao contrário dos mais jovens que seguiram outros rumos. Em muitas das aldeias afectadas o que se tem constatado é o progressivo aumento das áreas de floresta e mato e a diminuição das áreas de cultivo. A explicação é simples, cerca de dois terços dos portugueses amontoam-se numa estreita faixa litoral.
Não bastam desculpas, o combate aos incêndios de Verão terá de ser efectuado no Inverno, aliás, durante vários Invernos. Além do mais terá de resultar de políticas concertadas, nomeadamente, entre os Ministérios da Agricultura, o Ministério do Ambiente e do Ordenamento do Território e o Ministério da Administração Interna, entre outros. Naturalmente todo esse esforço implica o ordenamento florestal, onde se inclui a escolha das espécies mais adequadas, implica, igualmente, a eterna ideia do ordenamento do território. Por um lado, tem que terminar a insistência na plantação de espécies que apenas servem os objectivos de alguma da indústria nacional. Por outro lado, o país não pode ver construídas habitações por tudo quanto é sítio, para usufruto privado mas com custos públicos. De igual modo, o país não pode ser falsamente mobilizado, com promessas de soldados, da paz e da guerra, e de muitos mais.
Com essas ou outras causas, nos últimos dias, simultâneos ao escrever destas palavras, os incêndios têm devastado o país de Norte a Sul, sem dó nem perdão. Após a sua passagem resta a cinza, de novo as lágrimas e uma imensa inquietude, um desespero que prolifera por entre gentes simples e indefesas, que tudo perdem e ninguém lhes pode valer. Coincidência ou não, por vezes, dá a sensação que os próprios incêndios escolhem o prime time televisivo para serem notícia. Assim aparecem no Jornal da Tarde ou no Telejornal da noite, enchem os ecrãs de chamas, suor e lágrimas.
Este ano a agravar o drama dos incêndios repete-se a vaga de calor, estranhamente num ano em que vários especialistas vieram a público afirmar que este Verão não se iria registar uma vaga de calor como em 2003. Quer devido a causas naturais ou devido a causas antrópicas uma coisa parece certa, vivemos uma vaga de calor aparentemente não prevista ou então menosprezada. Parece ser uma manifestação de desagrado dos Deuses face à inoperância dos decisores políticos e face à passividade dos cidadãos.
O problema dos incêndios parece ser paradigmático, pois é uma matéria que todos os anos entra na agenda política, basicamente como resultado da sua mediatização. Mas mal a temática é afastada da agenda mediática a agenda política centra-se bem longe do calor das chamas de Verão. Segundo um estudo em que participei, em Agosto de 2003 foi enorme o peso das notícias sobre catástrofes naturais no conjunto das notícias sobre Ambiente publicadas em dois diários – o Público e o Correio da Manhã. As notícias foram recolhidas, classificadas e analisadas a partir de uma tipologia de referentes temáticos, que agregados resultaram em 12 temas ambientais, identificadas no gráfico.
Um primeiro aspecto a referir prende-se com distribuição geográfica dos registos, a qual cobriu praticamente todos o país, ao nível das NUT II, sequencialmente, a região de Lisboa, Centro, Alentejo e Algarve, com posicionamentos distintos segundo cada jornal. Um segundo aspecto prende-se a diferente cobertura temática. O Gráfico mostra a distribuição temática dos registos, destacando-se no caso do Público as seguintes categorias: Recursos e riscos naturais 49%, Gestão do território 15%, Ambiente e Mundo energético 7%, Mundo vegetal e Poluição 5%, totalizando 88%. Por sua vez, as principais categorias temáticas do Correio da Manhã foram: Recursos e riscos naturais 51%, Mundo animal 14%, Gestão do território 11%, Mundo vegetal e Poluição 5%, Ambiente 4%, Mundo energético 3%, totalizando 90% dos registos.

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Fonte: Schmidt e Ferreira (Observa: 2004)



Os dados parecem deixar clara a enorme mediatização dos incêndios e da vaga de calor do Verão de 2003, correspondendo a cerca de metade dos registos de notícias de Ambiente publicadas mo mês de Agosto, com a particularidade de uma grande percentagem destes registos, respectivamente, 78% e 87%, no Público e no Correio da Manhã, ter sido publicada na primeira página destes jornais. Estes dados parece que não nos servem de exemplo, pois este ano mal começou o Verão tudo se repetiu. Quando vamos inverter este drama? Para quando um Verão em descanso? Para quando um Inverno dedicado à floresta? Estas são algumas das muitas questões que ficam no ar. Por mim ficarei satisfeito se pelo menos uma delas obtiver resposta. Basta de choros, de angústias, de promessas vãs. Chega de enganos e de decisões de gabinete tomadas para um curto prazo inexistente. Do mesmo modo, basta da apatia das populações, que se ergam em sua defesa e em defesa dos seus pertences, que se unam em redor de uma causa comum, tal como o fazem para outras causas com nobreza discutível ou pelo menos com uma nobreza de hierarquia discutível.

NOTA BILIOGRÁFICA:
Schmidt, Luísa e Ferreira, José Gomes, “O ambiente na agenda mediática em 2003” in AAVV (2004), Actas do V Congresso Português de Sociologia, Braga, 12-15 de Maio, Associação Portuguesa de Sociologia.

José Gomes Ferreira

publicado por José às 13:43