Dou início a este artigo com um pedido de desculpas aos leitores pelo facto de me ter remetido ao silêncio durante algum tempo, nem eu próprio estou habituado a tal mudez, mas a vida tem momentos em que se revela impossível uma presença em todas as frentes. Mesmo distante por momentos não deixo de aproveitar a oportunidade para agora vir a público denunciar mais uma atrocidade cometida mesmo à nossa frente. Este parece por vezes um concelho dominado por coronéis, que põem e dispõem sem dar satisfação a ninguém. Os mesmos que falam em democracia e em incrementar a participação dos cidadãos, quando convém suspendem a voz do povo e decidem sobre o seu futuro num monólogo dissimulado de diálogo entre os pares.
Durante meses esteve em construção na nossa vila o que se pode designar à escala local como uma mega-torre. Um edifício com critérios estéticos muito duvidosos e com o recurso a materiais que nos deveriam envergonhar, principalmente pelo desperdício energético que promovem. Horrores sobre os quais já deixei publicadas algumas palavras em anteriores registos. Mas, quando todos pensavam que esse seria o maior drama, eis que a conclusão da aberrante estrutura vem deixar a descoberto uma situação vergonhosa. Retirados os tapumes que escondiam a obra fomos capazes (Finalmente!) de descobrir que algumas das árvores que caracterizavam a Avenida João XXIII tinham desaparecido sem deixar rasto.
Não sei se o desaparecimento das árvores tinha alguma vez sido notado pelos habitantes de Nelas. Eu sou suspeito a falar sobre tal sumiço, pois só de passagem me reencontro com as nossas gentes e lugares. Acredito não ter sido o único apanhado nessa distracção. Não sei como foi possível, nem quem foi capaz de cometer tal acto ou de o facilitar fechando os olhos. Sei, isso sim, que com esse gesto desapareceu parte do nosso património vegetal e um dos emblemas da vila sem que nenhum de nós tenha sido chamado a dar a sua opinião.
É assustador o desinteresse que a árvore vem sofrendo nos tempos ditos modernos. Logo após a instauração da República o país festejou durante décadas a Festa da Árvore, uma festa que envolvia não apenas as crianças das escolas, envolvia igualmente as altas figuras da Nação e da sociedade civil. Mais de meio século depois a Festa da Árvore foi reinventada com a designação de Dia da Árvore, uma comemoração já sem a pompa e a celebridade de outros tempos. Um festejo meramente simbólico, sem o compromisso de respeito e glorificação dos valores naturais.
Este episódio do corte das árvores na Av. João XXIII teve outro desfecho num caso idêntico ocorrido em Abril de 1925 na estrada de Povolide, onde a câmara de Viseu dinamitou as árvores lá existentes. Ao contrário do actual silêncio, na altura alguns dos mais importantes intelectuais do país insurgiram-se contra o que apelidaram de um “acto de barbárie” levado a cabo por uns poucos. Em artigo assinado por Aquilino Ribeiro, Almeida Moreira e Samuel Maia, denominado “Desafronta aos beirões” e publicado no jornal O Século de 13 de Abril de 1925, estes afirmavam o seguinte: “A inteligência mais rudimentar entende que a eleição para um cargo envolvendo a administração de um património não confere o direito de submeter esse património a caprichos desordenados. Há sempre que respeitar a opinião pública, quando ela se manifesta, prevenir o consenso público sempre que se trate de inovações”. Mais adiante afirmavam ter sido aquele um acto praticado contra a “inteligência, contra o sentimento, contra o interesse colectivo, contra todos os princípios da moral governativa e ainda da boa educação”. Apontando para os poderes locais concluíam: “Estes homens são indignos da nossa confiança, porque atraiçoaram o mandato de zelar os bens comuns, a nossa dignidade e nome colectivo (…)”, fim de citação. Acrescento que o manifesto acima mencionado gerou várias reacções, sobretudo no Chiado, em Lisboa, onde foi organizado um peditório para que fosse angariado dinheiro para replantar no ano seguinte as árvores cortadas, intenção que foi concretizada. De salientar que para o sucesso da iniciativa muito contribuiu o próprio jornal O Século, que a ela se associou.
É desolador verificar que passados todos estes anos o nosso concelho regrediu, no respeito pelos outros e no respeito pelo património natural, que é de todos nós e não de quem quer decidir por si. Não quero com o recordar deste episódio acusar ninguém pelo corte das nossas árvores. Como repetidamente tenho defendido, sejam os poderes públicos, sejam os interesses privados ou corporativos, cabe ao cidadão estar alerta. Um cidadão passivo é pior que um moribundo, pois do moribundo já pouco se espera e do cidadão passivo guardamos a ilusão de um dia afirmar “Presente!”.
Por agora foram estas as matérias sobre as quais tive oportunidade de reflectir. Desejo num próximo registo deixar algumas palavras relativas ao colóquio que tive oportunidade de organizar no meu Observa (ISCTE / ICS-UL). Denominado “Autarquias, Ambiente e Qualidade de Vida”, serviu para apresentar publicamente alguns estudos realizados pelos meus colegas nos últimos anos, dois deles com relevância na vida autárquica: “Municípios, sustentabilidade e qualidade de vida”, que na prática é uma proposta de indicadores à escala concelhia – daí a importância de escrever algo sobre ele neste nosso Planalto; “Os Primeiros Autarcas do séc. XXI: Novas Estratégias Ambientais”, o qual na prática é um inquérito amostral aos autarcas portugueses sobre a implementação da Agenda 21 Local no país, 12 anos após a sua aprovação na Conferência do Rio. Faço votos para que a pausa prevista para o mês de Agosto me permita reflectir sobre estes estudos.

José Gomes Ferreira


publicado por José às 13:43