Uma primeira nota que convém desde já reter neste artigo diz respeito ao âmbito dos objectivos que cobre. Embora denominado “Contributo para a identificação e preservação das sepulturas antropomórficas do Folhadal” abrange todo o concelho de Nelas, basta para tal que se expressem as populações interessadas. Eu próprio não consegui até ao momento fotografar ou obter relatos orais sobre todas as sepulturas existentes no Folhadal, aguardo ainda que alguém me possa dizer onde estão em concreto ou me acompanhe. Relativamente às outras localidades do concelho as povoações podem, por exemplo, fotografar e identificar os locais onde se encontrem as ditas sepulturas (a existirem), enviando posteriormente o material ao nosso Planalto para eventual publicação, um pouco à semelhança do trabalho feito com os fontanários. Digo tudo isto na expectativa de mais alguém se interessar pelo nosso património, não quero sentir que vivo a ilusão da participação.
Como o título refere pretendo neste artigo deixar por escrito o que para muitos faz parte do esquecimento ou então nada simboliza. Em registos anteriores tenho feito consecutivos apelos à preservação da sepultura existente no Colóquio, onde inclui fotografias ilustrativas do desprezo que sofrem aos olhos de todos. Infelizmente, até ao momento em que escrevo estas palavras, nunca obtive QUALQUER resposta da autarquia, até parece que não é nada com ela. Pela minha parte, é por acreditar que se está a ignorar a nossa história e os seus testemunhos (os poucos ainda existentes) que alargo a extensão da minha insistência. Desta vez apresento outras sepulturas e incluo algum material recolhido. As imagens que recolhi referem-se ao conjunto de sepulturas antropomórficas existente no lugar das Fontainhas.
Menciono uma das obras que encontrei na nossa Biblioteca – Sepulturas escavadas na rocha na região de Viseu – que, se a memória não me falha, corresponde à publicação em 2000 da tese de mestrado de Jorge Adolfo de Menezes Marques. A obra em referência terá eventualmente as suas virtudes, todavia no que toca ao nosso concelho manifesta uma expressiva ausência do indispensável trabalho de campo. Sei por experiência própria que uma tese de mestrado tem enormes limitações, com todo o respeito pelo autor e pelo seu trabalho, não deixo de criticar o facto do levantamento efectuado ter sido apenas bibliográfico. Limita-se a mencionar a existência de duas sepulturas escavadas na rocha no Moledo, registe-se, que o próprio não encontrou.

sepultura[1].jpg


As sepulturas do Moledo parecem corresponder às sepulturas do lugar do Vale da Remolha, situadas próximo do cemitério do Folhadal. Como é do conhecimento público o Moledo e o Vale são lugares contíguos, com a diferença do Moledo ser sobretudo conotado com a própria vila e o Vale fazer parte dos lugares da nossa aldeia. Espero em breve ter as fotografias que comprovem a existência destas sepulturas, as quais vão ser apenas um mero adereço, uma vez que os relatos orais comprovaram tal existência. Lamentavelmente ainda não obtive confirmação da existência de outras sepulturas de que a minha memória guarda uma imagem desde uma visita na infância. São esses os casos das sepulturas que muito provavelmente existem para lá dos lugares da Campa e do Carvalhinho, quem vai para o caminho do Vale do Gato, segundo penso junto ao que é mencionado como Poço do Urânio (um dia gostaria de saber a história da exploração do urânio neste local). A minha memória teima ainda em se lembrar de um eventual conjunto de sepulturas junto à Orca do Folhadal (diria matagal do Folhadal), na Infesta. Por mais que queira dessa eventualidade não consigo nem ter relatos orais.
Tenho-me refiro-me às sepulturas como sendo antropomórficas mas, de acordo com vários estudos, algumas delas podem não ser antropomórficas. Gradualmente, o contributo de várias variáveis terá permitido o seu uso apenas antropomórfico. Uma outra questão extremamente importante tem a ver com a idade destas sepulturas, ao contrário do que eu próprio pensava não são tão antigas assim. Sempre pensei que seriam pré-romanas. Embora ainda não seja consensual, uma grande parte dos arqueólogos tem vindo a considerar, sobretudo após pesquisas efectuadas na década de 80 do século passado, que existe proximidade entre estes elementos e as necrópoles dos templos cristãos. Sendo por isso pós-romanas e relacionadas com os rituais de inumação cristãos.

sepulturas.jpg


Num estudo dedicado a sepulturas do mesmo género existentes em concelhos bem próximos do nosso – Carregal do Sal e Gouveia (muitos mais preocupados com o seu estudo, sensibilização e preservação) – Catarina Tente e Sandra Lourenço esclarecem-nos várias questões. Pela leitura do artigo síntese percebemos que a discussão sobre a idade tem sido longa, mas que tem vindo a afirmar-se o argumento de que datam de um período entre os séculos VII a XI, provavelmente associadas a uma forma de povoamento disperso. Todavia, em alguns dos exemplos que as autoras estudaram as sepulturas permaneciam durante os séculos XIII e XIV. Segundos nos dizem, devido à inexistência de vias de comunicação e à ausência de um contacto inter-regional, “em algumas áreas mais isoladas as pervivências de rituais e formas de inumação ter-se-iam prolongado no tempo” (Tente e Lourenço: 18). Um dos argumentos (nem sempre confirmado) que comprova a idade das sepulturas, para além do seu tamanho e localização, prende-se com a sua orientação. Dizem-nos as autoras que são cristãs: “se admitirmos que os cânones cristãos relativos à orientação eram respeitados, ou seja com a cabeça virada para Oriente, onde é suposto aparecer Deus no dia do juízo final” (Idem).
Estas são as sepulturas antropomórficas que com alguma certeza existem na nossa terra, naturalmente que espero o contributo dos amigos e leitores para a sua correcta identificação, destas ou de outras que possam por cá existir. Só após serem identificadas se pode pensar na sua divulgação e preservação, uma responsabilidade que cabe a todos nós, para que o crime do Vale do Gato não se repita. Este é o meu contributo sobretudo para a sensibilização das populações para a preservação de algo que é muito seu. É também um alerta à autarquia para que faça algo, sugiro a colocação de placas a identificar as sepulturas e, porque não, o estabelecimento de uma rota do património municipal, a ser percorrido pelas crianças das escolas, pelos nossos idosos, por todos nós e quem nos visitar.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Marques, Jorge Adolfo de Menezes (2000), Sepulturas escavadas na rocha na região de Viseu, Viseu 2000
Tente, Catarina e Lourenço, Sandra (1998), “Sepulturas medievais escavadas na rocha dos concelhos de Carregal do Sal e Gouveia: estudo comparativo” in Revista Portuguesa de Arqueologia, Vol. 1, número 2.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 13:45