Tantas vezes projectada, outras tantas adiada, surge agora a avenida que ligará sensivelmente a Mata das Alminhas com a ponte ferroviária da estrada antiga do Folhadal, rasgando o Vale da Sobreira e o Coucinho. Se a memória não me falha os anteriores projectos de que tive conhecimento passavam, basicamente, pelo alargamento da designada Canada de São Miguel, que, como todos sabem, circunda a Quinta Agrícola. O projecto agora em plena execução arrasou as videiras e oliveiras por onde passou, e vai devorar uma das poucas manchas verdes da vila e da sua periferia – a conhecida pelo povo como Mata do General.
Não me cabe a mim fazer especulações. A primeira fotografia que apresento não podia ser mais expressiva, olhando bem para ela todos nós podemos levantar questões quanto à possível sujeição de Nelas aos interesses imobiliários. A construção de uma larga via como esta, associada ao corte dos pinheiros de uma mata simbólica, suscitam-nos algumas dúvidas. Não esquecer que estamos a ignorar a preservação de uma área com boa aptidão agrícola – não tenho presente qualquer elemento sobre o Planto Director Municipal de Nelas (PDM) ou sobre a tão falada Reserva Agrícola Nacional (RAN), mas seria interessante verificar o que nos dizem e as prováveis alterações suscitadas por esta construção. Infelizmente, é comum associar-se, num Portugal que deveria ser moderno, a indústria da construção civil com os atentados à paisagem e ao nosso património, natural e construído. Por ela se constroem mamarrachos, com todos os tamanhos e feitios, se derrubam árvores – agora os pinheiros da Mata do General, antes as árvores da Avenida João XXIII, no futuro outras se devem seguir –, pois o que importa é construir apartamentos, lojas e vivendas para depois serem vendidas.

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A posição privilegiada de Nelas, depois expressa em bons indicadores de qualidade de vida, por mim referidos em diversos artigos, parece implicar um amargo de boca. Os mesmos indicadores, por falta de ordenamento e gestão do território, suscitam uma enorme pressão urbanística, desencadeada pela atractividade da vila. Se o betão, o ferro e o alcatrão conquistam cada vez mais o seu espaço livre, os espaços verdes esses rareiam, na verdade pode mesmo dizer-se que não existem. O único cartão postal que a vila tem para mostrar para quem vem de fora parece ser a fumaça que se ergue da sua principal unidade industrial. Acho que ninguém sabe, nem prevê, a concretização de um Parque Municipal. Porventura os decisores devem pensar que Nelas se vê rodeada de natureza e que isso bastará, erro deles se assim pensam, pois seria bem acolhido um espaço verde de lazer num ponto relativamente central.

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Retomando a questão de partida. Se a ideia era fazer uma nova ligação ao Folhadal/Estrada da Felgueira a opção poderia, por exemplo, ligar a rotunda da Fonte do Ouro ao Apeadeiro do Folhadal, continuando pela Rua do Apeadeiro. Sei que implicaria maiores custos e maior derrube de pinheiros, mas essa solução traria algumas vantagens: 1.ª serviria as pessoas que ao longo dos anos se têm fixado no lugar do Mocho, a norte e a sul da linha de caminho de ferro; 2.ª surge directamente ligada à vantagem anterior, permitiria requalificar o bairro e a Rua do Apeadeiro; 3.ª permitiria encontrar uma solução para a passagem de nível sem guarda, que pelas vozes que se escutam será fechada mais dia, menos dia, e do mesmo modo facilitaria um provável compromisso quanto ao apeadeiro; 4.ª poderia igualmente facilitar a requalificação da rotunda da Fonte do Ouro, de momento uma porta de entrada na vila pouco honrosa; 5.ª seria uma importante via de acesso às propriedades (matas e fazendas cultiváveis) existentes nas redondezas, que se privam desse acesso desde o encerramento da passagem de nível com guarda existente outrora a oeste; 6.ª a construção dessa via permitiria o desvio de algum do trânsito que passa por Nelas com destino às Caldas da Felgueira.

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Esta minha proposta iria implicar o corte de maior quantidade de pinheiros, contudo o valor simbólico dos pinheiros que vão ser derrubados em nada se assemelha ao corte de um outro qualquer pinhal. Naturalmente que se fosse essa a opção teria de ser articulada com o tão falado prolongamento do IC 12. Relativamente ao encerramento da passagem de nível sem guarda, ao que parece já ocorreu pelo menos uma tentativa para debater a questão no final de uma missa de domingo mas o povo prefere virar as costas mesmo nas horas de aperto, quando deveria estar unido. Importa que o povo acredite que a passagem de nível será encerrada se ele deixar, se as pessoas preferirem ficar a aquecer-se ao lume nas noites frias de Inverno sem nada fazerem em prol dos interesses comuns.
Este é um daqueles momentos em que deveremos permanecer unidos, apesar das diferenças de todos os dias, para se lutar lado a lado. E lutar não significa ficar sentado, muito menos usar violência. Lutar implica que as pessoas manifestem as suas opiniões nos locais adequados e nos momentos próprios. Os meios para o fazer são diversos, vão desde a participação de alguns de nós nas reuniões da autarquia onde o assunto possa ser debatido ou então na organização de um abaixo-assinado a remeter à autarquia, à Refer, ao Provedor de Justiça, entre outros. E se tudo isso não resultar, mesmo não adeptos da violência poderemos pensar em “cortar” a linha da Beira Alta, mesmo que apenas de modo simbólico, pois não queremos lesar terceiros. Essa união e esse esforço será uma manifestação de cidadania activa e de sentido de comunidade, ao contrário do tão comum cruzar de braços, tristemente associado a um mero bate boca, que o povo tanto gosta de cultivar. Para cruzar os braços basta-nos a humilhação por que passam os nossos doentes no que é tão tristemente designado por Centro de Saúde de Nelas.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 13:47