Nos últimos dias têm chegado a mim, quer através do blog que na Internet dedico ao Folhadal, sobretudo agora que está mais atractivo, quer pessoalmente, diversas preocupações quanto à mais que provável construção de uma Estação de Tratamento de Esgotos demasiado perto das habitações. Tinha prometido a mim mesmo que este ano iria limitar a minha participação neste nosso Planalto, por um lado, porque profissionalmente será um ano repleto de actividades; por outro lado, porque não me quero envolver em polémicas desnecessárias, sobretudo num ano de eleições autárquicas. Como todos sabem não me interessa a luta política. Apenas me interessa a defesa da comunidade, dos seus valores e cultura ancestral, bem como do meio natural que a envolve. É para cumprir o sentido dessas minhas causas que deixo aqui as presentes palavras.
Advirto, desde já, que esta como outras causas não deve em momento algum ser somente minha, se assim for o meu esforço fracassa, pois um dos seus principais objectivos é despertar os leitores para a necessidade de cuidarem do que é seu como um todo. Chegou o momento de em conjunto se defender o que é nosso, colocando de lado as disputas individuais. Sei que muitos de vós são ligados ao seu pedaço de terra, ora, sem colocar em causa esse seu pedaço de terra, importa que cada um se preocupe também com o que é de todos. Assim seremos muitos a cuidar do que é nosso. De outra forma um dia poderá ser tarde e este exemplo da construção da Estação de Tratamento de Esgotos é um exemplo marcante: se persistir a indiferença brevemente nos daremos conta do nosso desleixo. Sem querer ser alarmista, nessa altura, se o mau cheiro tornar pestilento o ar que se respira ou se as ratazanas invadirem as nossas casas, será demasiado tarde, apesar das garantias dadas.
Convém esclarecer que em momento algum me manifesto contra a construção de tal estrutura, na verdade será talvez uma mais valia para a nossa terra, colocando um ponto final nos esgotos a céu aberto Maninho abaixo, desde o histórico episódio das manilhas partidas. Como digo, não sou contra essa construção, espero que nenhum dos leitores o seja. Sou, isso sim, contra a sua construção tão próxima das habitações e numa zona propícia à expansão do Folhadal, uma vez que “destino” de Nelas rapidamente se vai esgotar. Em resumo, construa-se a ETAR sim, mas umas centenas de metros abaixo. E se o problema para a sua localização mais abaixo for o eterno problema do dinheiro deixo uma sugestão que pode ajudar: o povo que faça um peditório. Sim, um peditório. Seríamos pelo menos originais, iríamos lutar pela defesa dos nossos interesses de uma forma bastante construtiva. Ainda que provavelmente o dinheiro angariado fosse pouco mostraria que o povo deseja participar nas decisões sobre o seu futuro próximo.
A prevista localização lá para os lados da Freixieira / Lapa ignora a importância do local na história da nossa terra. É um lugar cheio de vida e de pessoas ao longo dos séculos na sua azáfama diária. Curiosamente no Inverno era o local para onde as mulheres em família se dirigiam para lavarem as tripas dos porcos após todo o ritual da matança do porco. Se o Inverno surge fortemente associado ao reforço dos laços familiares, o Verão naquele local surge ligado ao uso ancestral da água e à sua partilha comunitária, dada a riqueza dos solos anexos e dada a abundância de água, que bem partilhada tem chegado para todos. A abundância da água era tanta (e continua a ser) que servia não apenas para regar as batatas ou o milho, como também para as mulheres lavarem a roupa da família, roupa que depois secaria nas pedras soltas e pequenas eiras existentes no local. De forma singular o local surge, assim, grandemente associado ao mundo das mulheres, mas também dos filhos pequenos, dos mais velhos, mas também da roupa dos homens e do pão que depois comeriam à mesa com a família reunida.



Todo esse monumento vivo em homenagem a todos quantos fizeram esta terra vai perder-se para dar lugar a uma imundice (ainda que necessária). Estranho postal ilustrado este que preparam para a nossa terra. Ainda tenho esperança num volte face na decisão da autarquia, mas para que tal aconteça teremos de agir rapidamente. Ao que parece as obras estão já em curso, pelo menos as obras dos “emissários” (não sei se é o nome dado) secundários. A fotografia apresenta as obras em curso na Rua da Fontanheira. Num eventual compasso de espera poderiam calcetar a referida rua, bem precisa.
Como acima refiro, a população tem aqui uma oportunidade única para mostrar que está unida, deixando as tricas pessoais de lado. Pois é o futuro da nossa terra que está em jogo. E não digam os mais velhos que não irá ser já no seu tempo, irá sim, com toda a certeza, pois mais dia, menos dia, a Estação de Tratamento de esgotos estará a funcionar, como digo, nessa altura será demasiado tarde. Peço aos poderes públicos para que não esqueçam de ouvir os interessados, os quais, não são apenas os proprietários. Ouvir os interessados é ouvir o povo, pois a decisão a tomar vai afectar a população por inteiro e não apenas os proprietários. Este é o tipo de decisões que deveria merecer uma audição alargada da população, penso que as instalações da Associação seriam o local ideal para tal se concretizar, basta que a autarquia manifeste interesse em debater a questão com a população antes de assumir que a decisão está de uma vez por todas tomada.
Termino aqui o breve apelo que lanço à população e aos poderes públicos. Aos primeiros peço-lhes para defenderem os seus interesses; aos segundos peço-lhes para não decidirem sem escutarem o que os primeiros têm para dizer. Acredito que assim se alcançará um compromisso capaz de trazer benefícios a todos, no presente e no futuro, até porque tem a potencialidade de abrir uma porta para o diálogo entre ambos. Como cidadão é isso que espero e é por essa causa que deixo aqui o meu modesto contributo num processo que deve ser de todos.

José Gomes Ferreira

Adenda ao artigo: Pela minha parte escrevi estas palavras e estou disposto a lutar junta da população por uma outra localização da ETAR, espero é que a população mostre algum interesse, sobre o qual tenho infelizmente muitas dúvidas que venha a acontecer. É bom que se tenha a noção que um dia será demasiado tarde para protestar, agora é o momento certo, tenham a noção disso.
publicado por José às 10:10