Alguns dos leitores podem declarar que perco a coerência com as palavras que tenho para dizer, não será por esse receio que vou deixar de as apresentar. Digo isto porque tinha deixado claro (e mantenho) que queria ficar longe da luta partidária que culminará com as próximas eleições autárquicas. Penso que a importância do tema justifica as minhas palavras, além do mais este parece ser o momento certo para agendar tão importante questão. Também é certo que não tomo posição por nenhum dos candidatos, nem aqui sou eleitor. A questão sobre a qual me vou debruçar desta vez é a da construção incessante de novas urbanizações. Perante a gravidade do problema urbanístico no concelho, à imagem de um país sempre em obras e praticamente sob jurisdição dos construtores, deixo o seguinte apelo aos partidos concorrentes às próximas eleições e aos membros que vierem a compor as suas listas de candidatos:
“Se forem eleitos decretem um ano de quarentena urbanística para novas urbanizações”.
Façam um favor a todos nós, sobretudo às gerações vindouras, coloquem essa intenção nos respectivos manifestos eleitorais com convicção. E os que forem eleitos pelo povo cumpram essa promessa e façam dela uma das principais bandeiras do vosso mandato. A seguir regulamentem-na com celeridade e façam-na cumprir. Se o fizerem revelam coragem política, bem como uma real intenção de mudar o rumo dos acontecimentos e o rosto da nossa terra.
O concelho começa a ficar mais do que farto da especulação urbanística, veja-se o mau exemplo da vila, por todo lado e em cada dia surgem prédios com todas as formas e feitios, situados nos locais mais incríveis. Alguns como que pendurados nas nuvens, sem qualquer preocupação de pormenor com a área envolvente. E em alguns casos em ruas onde mal chegam os bombeiros. Outros com cores e formas diversas, fazem lembrar peças de um puzzle disforme. Para agravar o problema alguns loteamentos parecem ter sido feitos numa folha de papel que depois alguém colocou no bolso. Veja-se o mau exemplo do bairro junto à estação de caminho-de-ferro (sensivelmente nas traseiras do quartel dos nossos Bombeiros). Que arruamentos são aqueles? Quais os critérios subjacentes a tais opções? São erros “antigos”, eu sei, mas é a esse tipo de erros que importa pôr termo de uma vez por todas. É bom que os decisores, técnicos incluídos, e as pessoas de uma forma geral, tomem consciência de que o progresso não se expressa através de indicadores de construção.
Estabelecer um período de quarentena para novas urbanizações trará diversas vantagens, inclusive à autarquia, que ficará com tempo para recuperar eventuais atrasos na concessão de novas licenças, dando mais tempo para avaliar processos que exijam maior demora. Melhor ainda, permitirá projectar com rigor o que se construir no futuro. Por conseguinte, colmatar os erros do passado e evitar que se repitam deve ser um nobre desafio a assumir pelos candidatos às eleições autárquicas, a ser levado devidamente a sério pela nova vereação. A quarentena ajudará a atenuar tamanha febre construtiva e fomentar, em vez disso, a recuperação das edificações existentes. Corrigir os erros, planear com tempo e reconstruir o património existente são três domínios da acção política local cuja tendência negativa vamos a tempo de reverter.
Naturalmente que é preciso travar a especulação, sendo certo que os preços actualmente praticados rondam os preços praticados em grandes cidades do litoral, com o consequente abandono de habitações mais antigas, enquanto isso, tudo o que era terreno agrícola produtivo é agora um amontoado de betão e ferro. Acredito que uma das maiores vantagens resultantes dessa quarentena será o de permitir dar maior atenção ao património urbanístico degradado, que assim pode ser recuperado em detrimento da opção pela construção de novas urbanizações. Nem me atrevo a tentar dar uma ideia do que se passa em cada localidade do concelho, nem tão-pouco a identificar as situações mais preocupantes, refiro apenas dois exemplos por terem sido dos últimos a encarar. O primeiro deles, embora ainda não sendo grave, representa exactamente aquilo que tenho dito – a construção de novas urbanizações e outras infra-estruturas facilita a não recuperação do património já existente. Refiro-mo à antiga pensão Mangas, no passado um dos centros nevrálgicos da vida de Nelas e que agora não passa de um conjunto de paredes praticamente em risco de cair, logo ali, no coração de uma terra como a nossa (Se os leitores bem se lembram já referi vezes sem conta a situação do antigo Ciclo Preparatório, que a cada dia definha e se decompõem).
O outro exemplo toca-me mais de perto, não porque o retirei dos escaparates de uma multiplicidade de exemplos que invadem o nosso Folhadal mas porque, como muitos leitores sabem, uma grande parte da minha vida passou por ali. Só não é hoje a casa de família por falta de acerto no negócio.


Essa habitação possui a arquitectura de uma habitação rural tradicional destinada outrora a famílias abastadas, um exemplar único na nossa terra. Este edifício ocupa dois pisos: o piso térreo para animais e todo o tipo de arrumações, porventura com adega (o seu uso não é “do meu tempo”); o outro piso seria exclusivamente de habitação, com uma enorme varanda sobre o terreiro. Toda a estrutura era feita com base em materiais da região, as paredes exteriores e as paredes-mestras ainda se podem ver, são do nosso melhor granito. As divisões eram feitas à base de madeira, barro, palha, pequenas pedras e eventualmente terra. Como a foto documenta tudo isto está em perfeita ruína, apenas se podem ver as paredes em granito, das quais sobressai uma Alminha do lado da Rua da Vala.
Srs. candidatos! Estes são apenas dois exemplos relativamente próximos de todos nós. Infelizmente não são exemplos únicos. Ao virar de cada esquina nos núcleos mais antigos de cada uma das nossas povoações observamos exemplos destes. Como reverso da medalha, a cada dia surgem novas urbanizações, porventura nem sempre necessárias, a ocuparem áreas com outras vocações mais meritórias. Perante estes factos lanço este apelo, faço-o em nome pessoal, pensando ir ao encontro de muitas vozes. Da Vossa parte, enquanto representantes do povo e responsáveis pelas decisões políticas a tomar, espero uma atitude firme e convicta sobre esta questão. Porque o futuro está em larga medida nas Vossas mãos, p.f. não decepcionem os eleitores, nem coloquem em causa as suas expectativas sobre um futuro melhor para os seus.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 09:54