Curiosamente no mesmo dia em que as nossas televisões divulgam a notícia sobre a inauguração da maior central de energia solar da Europa, situada na Alemanha, surge a notícia de que um grupo de empresários portugueses deseja investir em energia nuclear no nosso país. É preciso desde já notar que a ameaça do regresso na aposta nuclear para uso civil é uma ameaça que passa por vários países, mesmo a Alemanha tem sofrido pressões constantes nesse sentido nos últimos anos. Todavia esses países possuem, quer massa crítica suficiente para pressionar em sentido inverso, quer empresários com uma visão mais alargada quanto às possibilidades de investimento no sector energético. Assim como a opinião pública realmente activa e preocupada com estas questões.
Claro que a situação em Portugal é diferente. Ainda assim, se alguns se lembram o país viu irromper no final da década de 70 (sobretudo em 1978) enorme agitação contra a provável construção de uma central nuclear em Ferrel, concelho de Peniche. Entretanto, por via indirecta, partilhou com o outro lado da fronteira um período de forte controvérsia relacionada com a energia nuclear – estou a falar das acções de protesto na aldeia espanhola de Aldeadavilla, e que em alguns casos tiveram como palco Miranda do Douro e mesmo a cidade do Porto. Os protestos em Aldeadavilla, entre outras repercussões, tiveram o mérito de mostrar que a opção pelo nuclear levanta problemas de difícil resolução, refiro-me, sobretudo, ao grave problema dos resíduos nucleares, ainda hoje sem uma solução definitiva, em Espanha e no resto do mundo. Relembro que o objectivo era na altura construir um cemitério atómico numa cavidade semelhante a uma gruta onde os resíduos seriam “selados” durante várias décadas.
Convém também relembrar que muitos dos resíduos nucleares tiveram outros perigosos destinos, dos quais nunca mais se ouviu falar. Enquanto em Espanha o objectivo era selar os resíduos numa gruta, lamentavelmente pelos oceanos e mares devem existir numa mistura explosiva contentores com estes resíduos. Aliás as nossas águas territoriais chegaram a ser sondadas para a possibilidade de serem “enterrados” resíduos nucleares em contentores nas fossas abissais, nomeadamente dos arquipélagos. Como acrescento mediático, o país recebeu nos últimos 20/30 anos notícias constantes sobre a passagem de navios com estes resíduos, procedentes principalmente das centrais nucleares francesas e com destino às unidades de reprocessamento no Japão. Estes são alguns exemplos do historial do problema da energia nuclear à escala nacional, mesmo não tendo nós essa energia.
Sobre a actual proposta de investimento nesta tecnologia importa esclarecer um aspecto: ao contrário do que foi anunciado o problema do nuclear não é, apenas, o problema do controlo das armas nucleares. Os novos investidores esquecem, nomeadamente, a tragédia em Chernobyl, na actual Ucrânia, em Abril de 1986, cujos efeitos ainda hoje estão a ser estudados. Mas não vamos mais longe. O problema das avarias e eventuais fugas radioactivas fez-se sentir durante vários anos mesmo no nosso país, pois se é verdade que Aldeadavilla poderia afectar o rio Douro até à foz, também é verdade que centrais como a de Almaraz, fizeram do Tejo em diversos momentos um rio radioactivo.
A novidade deste anúncio público para o nosso concelho tem a ver com a promessa de recuperação das minas da Urgeiriça. Pela minha parte confesso que essa intenção me deixou inquieto. Todos sabemos que é grave a situação das minas da Urgeiriça e pode igualmente ser grave a situação do rio Mondego, em vários momentos do passado medições feitas na zona da barragem de Aguieira vieram suscitar alarme, embora rapidamente tenha sido ignorada a gravidade da situação. Importa é que se saiba que a recuperação das minas vai avançar independentemente do novo investimento previsto, pois felizmente tem sido uma promessa dos diversos decisores políticos prestes a ser cumprida.
Fica assim no ar é a possibilidade do anúncio do regresso das intenções de investimento na energia nuclear e da sua associação com as minas da Urgeiriça não ter sido inocente, sobretudo sabendo nós que uma central necessita de muita água corrente para arrefecer os reactores. Não creio é que esta região corresponda ao local ideal para se fixar uma unidade tão perigosa como uma central de produção de energia nuclear, não deixa é de nos fazer recear o pior, um receio que da minha parte gostaria de ver desmentido. Na verdade, gostaria de ver desmentida quer essa eventual localização como qualquer outra localização, pois o país não precisa desta forma de energia, é rico em fontes energéticas verdadeiramente renováveis e com riscos reduzidos.
Não sei o que pensam os leitores sobre a questão, mas parece-me ter algum sentido de oportunidade anunciar este investimento num momento em vivemos uma das maiores crises energéticas de sempre. Na minha opinião, seria de igual ou superior relevância o país ver anunciados investimentos em formas energéticas verdadeiramente alternativas, cumprindo Quioto e investindo num futuro com menores riscos. Ao contrário do que foi anunciado a energia nuclear não é a solução para todos os nossos problemas energéticos. Se existem soluções com menor risco, embora podendo ter menor rentabilidade a curto prazo, devem ser equacionadas com prioridade absoluta e devem merecer maior atenção por parte de todos, quer sejam empresários, políticos ou apenas cidadãos. Ora, isso implica que não nos atirem areia aos olhos com promessas de enriquecimento do país através de uma valência que o pode é colocar em risco de modo irremediável.

José Gomes Ferreira

P.S. Agradeço o facto do Planalto ter ilustrado na edição imprensa este meu artigo com uma foto
publicado por José às 09:45