De forma já recorrente sirvo-me do momento eleitoral para levar a minha mensagem aos candidatos, porventura dispersos em lutas de aparelhos de partidos ou, pior ainda, com razões mais pessoais do que do interesse da comunidade. Isto para não falar num artificial sentido de oportunidade atribuído a diversas questões, sobretudo para cuja decisão não podem contribuir. Refiro-me, em particular, à discussão sobre a criação ou não do concelho de Canas de Senhorim, do qual muito se fala e não se vislumbram decisões, pois estas não passam pela esfera local, mas assim não se torna necessário os candidatos debaterem com os eleitores eventuais questões fundamentais. Em suma, trata-se de um problema que urge resolver mas que no contexto eleitoral facilita algumas fugas às questões relevantes para o nosso concelho. Sei que alguns leitores se podem perguntar sobre que assuntos mais importantes se devem os candidatos debruçar, naturalmente que essas prioridades devem ser estabelecidas pelos respectivos programas eleitorais e não por mim. Embora cada um de nós possa olhar para o lado e fazer a sua própria lista de prioridades, limito-te aqui a dar o mote: povoamento florestal, ordenamento urbano, saneamento básico, preservação do património natural e construído…
É assim que mais vez junto em palavras as pessoas, as suas preocupações e as situações do seu dia-a-dia no nosso Folhadal. Mais uma vez faço-o sem ter a pretensão de ser a sua voz ou de me colocar no lugar de guia do saber. Pelo contrário, um dos aspectos que mais me agrada é ver emergir na nossa terra, sobretudo entre a juventude, uma massa crítica transposta para momentos de labor expresso em vários contextos. Uma forma de estar que contribui, erradamente, para que outras gerações olhem com algum desdém toda essa energia, tantas vezes confundindo expressões estéticas com comportamentos errantes, argumentos de toda a conveniência quando não se está receptivo à mudança numa sociedade assumidamente pluralista.
Naturalmente que a juventude tem os seus problemas (e expectativas), mas quem os não tem? Mais importante ainda, mas quem não foi também jovem? Só não vê quem não quer, para mim parece-me inegável a capacidade de realização da juventude da nossa terra, mesmo tendo de lutar contra as vozes alheias e contra a falta de apoio dos poderes políticos. Aliás, com as suas acções de rejeição, eles mesmos facilitam a criação de uma imagem-tipo da nossa juventude, por sinal uma imagem pouco abonatória. É importante reconhecer a capacidade de iniciativa dos nossos jovens e entender que ajudar não implica obrigatoriamente dar uma contribuição monetária, tantas vezes passa apenas por expressões de boa vontade e por apoio logístico. Tudo isto, que mais não seja, para se fazer sentir a estes empreendedores que vale a pena o seu esforço e que eles são a nossa esperança, e não o nosso inferno como se ouve pelos cantos. Relativamente a esta questão do apoio logístico, o que se perspectiva é que possa ser uma autarquia vizinha a apoiar tais iniciativas, o que no presente momento seria um verdadeiro escândalo.
Sr. Presidente da Câmara Municipal de Nelas, Srs. Candidatos às eleições de Outubro próximo e Srs. Eleitores, sem discriminação de género, ignorar a capacidade de organização, de eventos culturais ou de outra índole, dos jovens do Folhadal (à semelhança dos jovens de qualquer localidade do concelho), fazendo uso de termos nada promotores do diálogo, que mais não seja multigeracional, fazendo uso de tons pouco afáveis, como para espantar os pardais do quintal, fazendo uso de estereótipos, para não darem o braço a torcer, só se pode expressar através de uma palavra: VERGONHA.
Ainda está bem presente o exemplo da organização do Rock in Mondego. Não sei de quem foi a culpa directa mas sou obrigado mencionar o Sr. Presidente da Câmara Municipal de Nelas, por eventual falta de vontade ou por mera indisponibilidade em apoiar semelhante iniciativa. Não quero com isto afrontar pessoalmente o Sr. Presidente, não tenho qualquer razão objectiva para o fazer, não deixo é de criticar o facto de não se associar a eventos como este, sobretudo quando o lugar que ocupa facilita o despoletar de vários outros apoios, exista vontade para tal. Infelizmente penso ser demasiado tarde para sensibilizar a actual equipa autárquica no sentido da mudança. No futuro, sejam quais forem os resultados eleitorais, a nova equipa terá um importante e nobre desafio pela frente: promover o diálogo com as populações que representa, quer se tratem de jovens ou não, e contribuir para a realização das suas expectativas.
Se é verdade que os poderes públicos têm uma importante responsabilidade a assumir, não apenas no que se refere aos nossos jovens, não é menos verdade que a dita sociedade civil não pode continuar de costas voltadas para a nossa terra. Escolho o exemplo da “rádio local”. Lamento que acabe por ignorar algumas das mais importantes iniciativas locais, no caso particular do Folhadal com destaque para o Rock in Mondego e o campeonato de Futsal. Mas quem fala na rádio local fala nos empresários locais e em fala na população em geral.
Em tudo isto penso que a maior dificuldade, ou pelo menos uma das maiores, prende-se com a vitória de um individualismo mordaz e arrogante, em que cada um trata apenas dos seus problemas, virando as costas a tudo o que o rodeia. Onde está o sentido de comunidade? Ou onde param as tão apregoadas solidariedade e relações de vizinhança? Apesar destas questões não me deixo vencer pelo pessimismo, pois em cada evento dou-me conta da união do povo, mesmo que os poderes políticos ou as elites lhe virem as costas. Mas um facto parece-me indiscutível, se queremos realmente apoiar quem merece, teremos obrigatoriamente de envolver toda a comunidade, colocando um ponto final à desconfiança sem sentido e a um tradicional mau hábito de se criticar tudo o que os outros fazem, sem que se apresentem alternativas. Se cada um puxa para seu lado não vamos a lado nenhum e ninguém nos levará a sério.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 09:48