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Terça-feira, 25 / 01 / 05

Desafios para 2005 (in Planalto 1 de Janeiro de 2005)

Como todos sabem, 2005 vai ser um ano de eleições quase do princípio ao fim. Por conseguinte, a identificação de vários problemas existentes no concelho é uma tarefa que ganha maior ênfase, dada a possibilidade de se concretizar uma solução para alguns deles. Todos sabemos que perante a proximidade das eleições os políticos se apressam em fazer o que não fizeram durante o resto do mandato. Lanço estes desafios tendo presente que o garante da democracia não são apenas as eleições, onde o cidadão é chamado a “pronunciar-se”, o garante da democracia é também, ou sobretudo, o exercício da cidadania activa e empenhada, muito embora com várias limitações de carácter estrutural, com destaque para o grau de literacia. Convém reafirmar que não nutro qualquer simpatia política, não me interessa a política partidária.
Após estas palavras apresento em seguida alguns dos problemas que urge dar solução neste novo ano. Lamento não abranger todo o concelho, identifico o que me está mais próximo, é provável que deixe de fora questões prioritárias. Se cada um fizer um pequeno exercício poderemos no final obter uma lista pormenorizada de prioridades. Se ainda não estamos sequer preparados para idealizar um orçamento participativo, poderemos participar na gestão local em outros moldes – definindo a agenda de prioridades. Na impossibilidade de publicar fotografias sobre cada um dos pontos e na impossibilidade de ter todas as fotografias prontas em tempo útil optei por publicar apenas duas fotografias tiradas durante a pausa do último Verão, infelizmente sempre actuais. Esclareço que se trata de uma lista não rigorosa e não hierarquizada dos problemas identificados:

Tanque público de lavar roupa existente na estrada do Folhadal – Em jeito de complemento ao importante contributo deste nosso Planalto na apresentação dos fontanários do nosso concelho, identifico a situação de abandono que se verifica no tanque público existente na estrada velha do Folhadal como uma das prioridades dos poderes locais, câmara ou junta de freguesia, para os próximos meses. Estou convicto de que no momento, mesmo em boas condições, terá uma utilização diminuta, contudo faz parte da nossa história e reflecte o domínio da técnica sobre o sentido comunitário das vivências das nossas gentes. Mesmo que não venha a ter uso merece, pelo menos, que se cortem as silvas que cobrem os tanques. A fotografia mostra bem o estado de abandono a que chegou, não tarda nem a cobertura escapa.


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Arranjo do pavimento da estrada velha de Carvalhal Redondo e da via que circunda a vila de Nelas – Relativamente à necessidade de ser arranjado o pavimento da via que circunda a vila de Nelas já fiz referência pelo menos uma vez, será desta? Quanto à necessidade de recuperação do pavimento da estrada velha que liga a sede de concelho a Carvalhal Redondo nunca fiz referência, por isso aproveito esta oportunidade. Só porque um dia foi construída outra estrada tal não deve corresponder ao abandono da antiga, a qual neste momento, desculpem o termo, quase parece “um caminho de cabras”, dado o estado de degradação em determinados troços do percurso, com verdadeiras crateras, que com o Inverno se vão acentuar.

Recuperação paisagística da lixeira de Vale de Madeiros – Vários anos após os políticos terem ido às televisões anunciar o encerramento de todas as lixeiras do país, em Vale de Madeiros a antiga lixeira parece ainda estar activa. Uma verdadeira vergonha e um total desrespeito pelas populações. Além do mau aspecto e do mau cheiro constitui um foco de contaminação dos solos e das águas, ou seja, constitui um atentado à saúde pública. Será que alguém assume a responsabilidade? O momento eleitoral é importante para que se resolva definitivamente este problema, os políticos devem-nos isso. E as populações merecem todo o nosso respeito.

Recuperação paisagística da mina da Urgeiriça – Usada nos últimos meses como “motivo” para a luta pelo movimento que pretende restaurar o concelho de Canas de Senhorim a questão da mina da Urgeiriça é grave e merece toda a seriedade. Relembro que a recuperação da mina e das escombreiras vem do tempo do início do rastreio levado a cabo pelo Instituto Ricardo Jorge junto dos antigos trabalhadores. Não é uma benesse do momento. Além de todo esse trabalho é urgente que se faça um rastreio às populações vizinhas e se façam análises aos solos e às águas – incluindo as águas da barragem de Agueira – os resultados do primeiro estudo são suficientemente graves para que se façam outros estudos mais abrangentes. A questão da radioactividade tem sido encarada no país com alguma leviandade, ignorando os poderes políticos os efeitos nocivos sobre as populações. Pela minha parte, e penso que também pela vossa parte enquanto leitores e cidadãos atentos, desejo que 2005 contribua para uma mudança de práticas quanto a tão delicada questão, na nossa terra, na Cunha Baixa, em todo o país.

A divergência com a população de Canas de Senhorim – A minha opinião sobre a criação ou não do concelho de Canas de Senhorim é pública. O país não pode continuar a criar concelhos ao sabor dos interesses de determinado partido político ou de determinado grupo de pressão. Em vez de se criar mais concelhos deveremos ir rumo a aglomerados (ou a uma efectiva concretização da sempre adiada regionalização), podendo mesmo levar à extinção de alguns concelhos, atribuindo, em contrapartida, outras competências às freguesias. Esta é em traços gerais a minha opinião sobre a questão. Neste caso concreto, seja qual for a decisão dos políticos, relembro que as populações envolvidas e o movimento social gerado em prol da elevação de Canas a concelho recebe a minha admiração, pelo activismo e pela união na defesa dos interesses locais. Claro que não são perfeitos, têm cometido alguns excessos, sobretudo quando esquecem que afectam terceiros e quando esquecem que as instituições e as pessoas que as representam merecem outro tom. Entretanto, o silêncio mantido ao longo de todo o processo pela Câmara Municipal de Nelas e pelo seu Presidente apenas serve de motivo à desagregação do concelho. Em vez de procurar unir, separa, por passividade. Em 2005 a autarquia deveria, é o mínimo que dela se espera, procurar dialogar com as populações, representa-nos a todos e é essa uma das suas competências. Se assim não for as populações vão andar cada vez mais de costas voltadas.

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Protecção da vala existe na Rua da Vala – Durante muitos anos foi uma vala aberta onde as populações se abasteciam de água não potável para lavar roupa, regar as plantas, permitir a limpeza das habitações e para dar de beber a algum animal doméstico. Depois foi calcetada a Rua da Vala, chegou a água de abastecimento público e o saneamento básico. A velha mina deixou de ser um lugar de encontro diário nas madrugadas de Verão, em que mal chegava para as necessidades de todos, obrigando ao recurso a poços privados. Se outrora mereceu umas escadas e uma cobertura, deveria agora merecer alguma protecção na entrada capaz de evitar a entrada de alguma criança desprotegida. Basta uma pequena porta com ferros verticais e um trinco seguro. Outrora a ida frequente das populações à vala retirar água evitava o seu enchimento e evitava a aproximação das crianças. Agora a vala fica com água suficiente para constituir um perigo. E quase ninguém lá vai, o que aumenta o risco.

A aplicação de medidas de minimização da poluição do ar – Ao contrário do que os leitores possam pensar em momento algum me reconheço como um cego defensor do ambiente. Se é verdade que defendo a preservação dos valores ambientais, também é verdade que reconheço que sem desenvolvimento económico o país não progride. Em síntese, defendo, isso sim, um modelo de desenvolvimento económico que não coloque em causa valores ancestrais, nem a saúde pública – se quiserem, defendo um modelo de desenvolvimento designado como sustentável. Serve isto para dizer que, se o nosso concelho é um bom gerador de emprego é, talvez como contraponto, um potencial gerador de poluição, sobretudo, atmosférica. Em 2005 seria de todo desejável existir informação sobre as emissões para atmosfera e sobre a possibilidade de serem minimizados os efeitos e a imagem pouco atractiva que deixa da vila de Nelas. Não esquecer que estamos a escassos dias de ser implementado em Portugal e em grande parte do mundo o designado Protocolo de Quioto sobre alterações climáticas.

Prevenção dos incêndios florestais de Verão – O Inverno é o momento ideal para prevenir os incêndios de Verão, intervindo no planeamento, na gestão florestal e na escolha das espécies. Este é também o momento ideal para proceder à limpeza da floresta, à reflorestação das áreas ardidas e à melhoria dos acessos às matas. Por outro lado, este é igualmente o momento ideal para melhorar os equipamentos e as condições dos nossos bombeiros, devemos-lhe muito mais do que isso. Já agora pergunto: para quando a construção de um quartel que dignifique os nossos bombeiros? Refiro-me aos bombeiros de Nelas, naturalmente que todos os bombeiros do concelho merecem igual tratamento.

Construção da totalidade do passeio na Avenida António Monteiro – A actual principal via de acesso do Folhadal a Nelas, apesar do aspecto aparentemente requintado, sofre de um importante estrangulamento. Em parte do seu percurso esquece literalmente os peões – não possui o necessário passeio em nenhum dos lados, o que constitui um grave risco para a sua integridade física. Tanto as populações que não possuem automóvel, ou preferem andar a pé, como as que usam a via para mero lazer, ambas merecem que se concretize a parte do passeio em falta junto aos eucaliptos, nem se entende porque não fez parte da transformação da via em avenida.
Termino assim a apresentação de uma lista de várias prioridades a levar em conta pelos poderes públicos, não fui exaustivo pelos motivos que acima refiro. Outras temáticas refiro-as apenas como tópicos, são os casos: da falta ou do excesso de sinalética, de trânsito e restante (a propósito não sei porque motivo o edifício multiusos da autarquia ainda exibe no exterior a placa relativa à sua construção, não tarda cai de ferrugem); da renovação da página da Internet da autarquia e da activação efectiva da página da Biblioteca Municipal na Internet, de nada serve se não possibilitar pesquisa. Ficaria feliz se alguns destes exemplos estivessem desactualizados no momento da publicação deste artigo, todos sabemos que será pouco provável. Desejo a todos os leitores e amigos um FELIZ ANO de 2005.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 09:57
Segunda-feira, 24 / 01 / 05

Novo parque infantil

O espaço do antigo parque infantil surge agora com nova cara e novo parque, penso que por obra e graça da Junta de Freguesia.

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De todos os utilizadores e seus familiares o que se espera é que sejam responsáveis pela sua conservação, os actos de vandalismos têm que ser severamente punidos, pois é uma obra que servirá todas as crianças da nossa terra e não a febre de destruição de alguns. Vamos cuidar do que é nosso, só assim se manterá por muitos e bons anos.
publicado por José às 10:42
Terça-feira, 18 / 01 / 05

Ainda o provável encerramento do Apeadeiro

Tal como referi no texto anterior não me chocaria tal encerramento. Aliás, o problema a colocar-se não se situa aí. Na verdade estamos em perspectiva de dois problemas, dependendo o segundo da decisão sobre o primeiro. Primeiro problema: o Apeadeiro e a passagem de nível que de algum modo faz parte deles constituem um grave risco para as populações que necessitam de atravessar diariamente a Linha da Beira Alta, sobretudo porque não possui guarda (a passagem de nível com guarda existente a oeste foi encerrada sem na altura quem quer que fosse tivesse como preocupação qualquer alternativa), nem possui cancelas de sinalização (na hora da desgraça um simples “Pare, escute e olhe” de pouco serve). Ciente deste problema, aproveitando porventura para “rentabilizar” os percursos, a CP pretende “matar dois coelhos com apenas uma cajadada” – encerrando ao mesmo tempo o Apeadeiro e a passagem de nível. Segundo problema: caso a opção tomada pela CP não contemple qualquer alternativa à actual passagem de nível estaremos perante uma grave afronta aos anseios da população, sobretudo de todos aqueles que habitam a norte da Linha, mas também os que lá possuem propriedade, pois vão ser privados de uma via de acesso ao Folhadal e às propriedades.
Foi consciente desses dois problemas que defendi no artigo com o título “Ganham-se avenidas, perdem-se pinhais”, publicado no nosso Planalto no final do ano anterior, a tomada de consciência da população para as decisões que podem vir a ser tomadas sem que essa mesma população venha a intervir. Seja qual for a decisão a tomar pelas entidades com jurisdição na matéria deverá necessariamente resultar não apenas de decisões técnicas, que mesmo assim devem ser sucintamente explicadas a todos nós, como deve respeitar a vontade do povo. Para o efeito, o mesmo povo deve pronunciar-se e deixar de uma vez por todos de permanecer na sombra, evitando que quando despertar o mal esteja feito. No final, seja qual for a decisão, naturalmente que a segurança de todos aqueles que atravessam a linha está em primeiro lugar, quer no presente momento, em risco constante, quer num momento futuro.
No artigo em referência defendi o recurso a técnicas de protesto activas e “populares”. Se bem se recordam (quem não se recordar pode reler aqui neste blog o dito texto), sugeri o corte simbólico da Linha de comboio, uma decisão já colocada em prática em diversas manifestações e que tem revelado ser principalmente uma chamariz para as televisões. Em momento algum defendo um corte concreto da Linha, pois afecta quase sempre quem nada tem a ver com o assunto. Convém frisar que se trata de uma iniciativa que coloca em causa o estado de direito, facto que pode trazer amargos de boca. Por conseguinte, se algum dia o povo decidir unir-se em prol de uma causa que é sua terá de repensar o seu uso, mas a imaginação pode contornar todos esses problemas: sugiro o uso de uma fita de plástico ou outro material a atravessar a Linha de um lado ao outro ligeiramente elevada, dando a ideia de o comboio estar a “cortar a meta”, desde que as pessoas estejam presentes para mostrar que estão unidas e que a decisão a tomar também lhe diz respeito. O que se espera dos decisores políticos é que não deixem chegar a essa situação, que informem a população e procurem junta dela uma solução que agrade a todos.
publicado por José às 09:42
Sexta-feira, 14 / 01 / 05

Nova cara, velhos problemas

Tal como o nosso apeadeiro “efectuei” algumas mudanças no nosso blog. Naturalmente que sem ajuda não conseguiria mudar quase nada, agradeço por isso à Júlia que lá do outro lado do Atlântico tem tido a paciência para me “ajudar” a tornar os meus blogs mais atractivos.

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Digo tal como o nosso apeadeiro, pois mais tarde ou mais cedo ele vai mudar, contudo nesse caso será certamente desactivado, decisão que, confesso, não me assusta, pois a Estação de Nelas fica mais em caminho. O problema é que essa desactivação arrasta consigo o provável encerramento da passagem de nível do lugar do Mocho, esse sim um problema grave, uma vez que não se vislumbram alternativas. Assim sendo, os habitantes que moram do lado norte da linha da Beira Alta vão ter de percorrer alguns quilómetros pelos caminhos que atravessam as matas para chegarem a Nelas, para depois irem para o nosso Folhadal se for esse o seu destino.


publicado por José às 18:26
Segunda-feira, 10 / 01 / 05

Sepulturas antropomórficas do Folhadal – conclusão (in Planalto Dezembro de 2004)

Numa altura em que a autarquia (não sei se a câmara ou se a junta de freguesia) procede ao arranjo paisagístico do Largo do Colóquio, ao que tudo indica motivado pela necessidade de preservação da sepultura antropomórfica lá existente, publico neste pequeno artigo a fotografia que identifica a sepultura antropomórfica existente no lugar do Vale/Póvoa da Roçada. Como o património do concelho é indivisível prefiro ignorar o facto de se localizar no Folhadal ou na Póvoa da Roçada, pois o importante é ser identificada, para que quem vier a seguir conheça as nossas riquezas e possa afirmar que os seus antepassados as preservaram devidamente. Esta é talvez a sepultura mais tosca, com aspecto talvez de inacabada, seja com for merece melhor sorte do que a actual. Fica situada no final do caminho que vai do Cemitério em direcção às primeiras casas da Póvoa da Roçada, fica aliás do lado esquerdo antes da primeira habitação, num estado que mais parece o que resta de uma pedreira. Merecia melhor sorte.
Uma breve alusão à intenção de requalificação do Largo do Colóquio. No momento em que escrevo estas palavras ignoro ainda o que vai resultar delas, seja como for merece duas observações. A primeira delas quase nos obriga a erguer os braços em direcção aos céus, tamanho é o milagre da concretização de uma ideia em que eu próprio me tenho empenhado nestes últimos anos, colocando um final feliz ao uso daquele pedaço de solo sagrado como parque de estacionamento, depósito de materiais ou uma pequena lixeira, pelo estado de total abandono. E não foi pelo facto dos responsáveis não saberem do que se passava, que mais não fosse poderiam ter lido com maior atenção as páginas deste nosso Planalto.

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A segunda das observações pode para muitos leitores parecer meramente estética, porventura outros podem pensar que nunca estou satisfeito. Em qualquer dos casos refiro-me às opções, aos gostos, de quem decidiu fazer a requalificação do Largo. Se é certo que as obras ainda não foram concluídas, também é certo que vão no sentido da total artificialização daquele espaço. Em vez da simplicidade venceu a opção pelo aberrante, pela colocação de cimento em tudo quanto é espaço livre. Pessoalmente acredito que ficaria melhor um passeio simples e o ajardinamento do restante espaço, mesmo que fosse com relva, com um passadiço para a sepultura. Nem sempre as melhores soluções são as mais dispendiosas. Porventura a opinião do povo teria alguma importância.
De acordo com o título deste artigo esta é a conclusão da identificação das sepulturas antropomórficas existentes na nossa terra. Não se trata, com rigor, da conclusão, pois tudo indica que existe pelo menos mais um conjunto destas sepulturas lá para os lados do Carvalhinho / Campa, no pinhal do lado esquerdo do caminho que depois se cruza com o caminho do Vale do Gato. Mais uma vez apelo a quem souber onde se encontra para entrar em contacto comigo. Melhor ainda caso alguém consiga identificar qualquer outro conjunto desconhecido da maioria. Naturalmente que eu não vou salvar as sepulturas, apenas fazer o que estiver ao meu alcance para as divulgar às gerações presentes, transmitindo esses testemunhos da nossa história às gerações futuras.

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Aproveito este pequeno artigo para exibir uma fotografia da tão falada e pouco conhecida Buraca da Moira (também designada Buraco da Moira). Da sua lenda todos se lembram mas já ninguém parece capaz de a reproduzir, uma tarefa que cabe a todos nós recuperar, para que se possa perpetuar para lá das nossas existências. E se possível transposta para a palavra escrita. Uma tarefa que as escolas podem ajudar a concretizar, basta que incitem os seus alunos a efectuarem um levantamento junto dos seus familiares e amigos, e aqui entramos todos nós. Mas também uma tarefa em que a autarquia, através dos seus técnicos, tem uma palavra a dizer, em particular o seu arqueólogo. Não termino sem deixar aos leitores Votos de Bom Natal junto dos seus.


José Gomes Ferreira
publicado por José às 09:45
Quarta-feira, 05 / 01 / 05

O que o Planalto não publicou sobre a corte dos pinheiros da Mata do General

Do último artigo que escrevi para o Planalto fazia parte uma caixa sobre a permuta que levou ao corte sem sentido dos pinheiros da Mata do General, não questiono os critérios editoriais, seja como for a população tem o direito de estar informada. Além do mais penso não ter dito nada indecente, sei bem qual o meu lugar. Fica o registo:


" O negócio da Mata do General

Quando se pensava que o derrube dos pinheiros da Mata do General se ficava a dever à construção da avenida eis um dado novo, que o rasgar da avenida expôs, a Mata serviu apenas como moeda de troca do terreno vizinho. Num negócio em que autarquia se deu ao luxo de ser ela própria a vender publicamente os pinheiros, facto que pode no futuro permitir que o local seja desclassificado de zona verde. É uma VERGONHA Sr. Presidente. Deveria ter o bom senso de pedir desculpas públicas às populações, pois fez tudo sem as consultar e sem respeitar os seus anseios.
Tão grave com o processo presente é a incerteza do futuro, sobre o qual várias questões surgem. Como se vai repercutir esse negócio no PDM? Será que a outrora zona verde vai dar lugar a uma zona urbanizável? Uma coisa devemos garantir, como cidadãos, vamos ficar alerta. Terá de haver maneira de travar a mais que provável urbanização daquele terreno nos próximos anos".


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José Gomes Ferreira
publicado por José às 13:58
Quarta-feira, 05 / 01 / 05

Ícones da nossa região

Embora sejam autênticos ícones da nossa região e testemunhas da nossa história agrária são praticamente esquecidas por quem de direito e desconhecidas dos olhares de muitos.

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Não sei se ainda estão em uso, a julgar pelo estado do edifício identificado como sendo da Federação de Vitivinicultores do Dão não parece. Curiosamente situam-se paredes meias com a autarquia.

Orca ou anta do Folhadal

Embora para lá chegar seja um martírio, pois onde antes havia um caminho rural agora nem uma caminho de cabras existe, continua a ser um dos monumentos mais emblemáticos da nossa terra. Seria bom que autarquia se desse conta da sua importância.

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O pelourinho

Naturalmente que um dos símbolos mais representativos da nossa terra é o nosso pelourinho. Simboliza a atribuição por D. Dinis do foral a 26 moradores desta terra.

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Simboliza por isso, não apenas o poder civil, como também a união destas gentes que se tem perpetuado durante séculos e séculos.

O Buraco da Moira

Símbolo de lendas sobre a Moira encantada é o Buraco da Moira (ou Buraca), cuja história oral caso não esteja colocada por escrito pode muito bem ter-se perdido, pois, ao que parece, está a perder-se na tradição oral.

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Espero o contributo da vossa parte para se recuperar essa lenda.

Marco geodésico

Embora as pessoas pouco saibam sobre ele sempre demonstraram um enorme respeito pelo nosso marco geodésico, só é pena que a área adjacente esteja cada vez mais a ser atropelada pelo fervor da construção.

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A Capela de Nossa Senhora da Tosse

Símbolo da fé das nossas gentes é a Capela da Nossa Senhora da Tosse, com uma história cheia de quotidianos de uma extrema riqueza.

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Outrora lugar de romarias onde as gentes das localizades vizinhas se reencontravam não apenas na fé mas momentos de sociabilidades muito simbólicas, apenas reproduzidos em cada procissão e na eventual ida à feira mensal.
A história da construção da capela nesta terra e com aquele posicionamento é quase uma verdadeira lenda que aos poucos será por todos desvendada, desde que colaborem.
publicado por José às 13:53
Quarta-feira, 05 / 01 / 05

Finalmente...

Embora com critérios estéticos muito duvidosos parece que finalmente a autarquia ou a Junta de Freguesia estão a cuidar a sepultura antropomórfica do Colóquio.

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Não percebo porque cortaram a oliveira, será que não percebem que as árvores também fazem parte do nosso património?

publicado por José às 13:49
Quarta-feira, 05 / 01 / 05

O urânio da Urgeiriça e o restabelecimento do concelho de Canas de Senhorim

Perdoem-me as gentes humildes de Canas de Senhorim, mas penso que o Movimento que as representa e que tem como motivo para existir o restabelecimento do concelho na localidade está a seguir uma estratégia errada e está a usar argumentos errados para o fazer. Como resultado todos atacam o Sr. Presidente da República Jorge Sampaio, parece não bastar o movimento político, e todos são orientados para manifestações que em nada beneficiam o movimento, sobretudo quando se ouve o seu líder, curiosamente também Presidente da Junta de Freguesia Local, afirmar que “podiam ter incendiado os camiões do urânio”, o que seria uma tragédia para a região de Viseu. Perdoem-me é uma afirmação apenas aceitável na efervescência do conflito, caso contrário não passa de uma quase ameaça terrorista, seja como for, é inconsciente.
Penso ser mais do que tempo do movimento escolher outro alvo, como várias vezes tenho referido, enquanto movimento social é um caso exemplar, pela união das populações em torno de uma causa própria. Deve ser para elas um grande orgulho. Apesar de tudo isso também tem defeitos, um dos mais óbvios é esta insistência no ataque ao Sr. Presidente da República, pelo veto da elevação da localidade a concelho. É mais do que tempo de tudo isso ficar para trás, caso contrário o movimento esgota-se. Vivemos um momento pré-eleitoral, totalmente à margem do cargo do Dr. Jorge Sampaio, por conseguinte, se alguma coisa o movimento deseja alcançar deve ser dirigido aos partidos, até porque são eles que no futuro podem votar ou não a elevação da localidade a concelho. Apesar de ser pública a minha opinião sobre essa matéria não podia deixar de me pronunciar sobre toda esta luta, com todo o respeito que me merecem as populações, quer sejam de Canas de Senhorim, de Nelas ou outra localidade.
publicado por José às 13:49
Quarta-feira, 05 / 01 / 05

“Será Nelas pior do que Resende?” esboço de resposta (in Planalto Novembro de 2004)

Cumpro nas palavras que se seguem o dever que me assiste, o de dar resposta aos leitores do nosso Planalto quando qualquer dúvida se levante face a algum dos meus artigos. Naturalmente que o faço com o maior gosto e com esperança de esclarecer as dúvidas não apenas do Sr. Jorge Gonzalez Esteves como as de outros leitores. Para o fazer recupero o que afirmei no artigo “Qualidade de vida nos municípios do distrito de Viseu”, o qual teve por base o estudo realizado no âmbito do Observa (ISCTE/ICS-UL), denominado “Municípios, Sustentabilidade e Qualidade de Vida: Contributos para a construção de um sistema de indicadores de monitorização da qualidade de vida nos municípios portugueses (Continente)”.
Reconheço que para os leitores as questões teóricas e metodológicas do estudo são aspectos de menor importância para o entendimento dos resultados. Eles desejam sobretudo ver retratado o seu concelho e explicados os motivos da posição que eventualmente ocupem. Mas, na minha opinião, mais importante que classificar e hierarquizar os concelhos é perceber os motivos que possam contribuir para essa classificação. Relembro que o país não é propriamente um exemplo no que se refere à recolha, tratamento e divulgação de dados. O estudo sofreu, infelizmente, esses constrangimentos, com a agravante de tratar os dados numa escala a que muitas entidades públicas ainda não se habituaram – a escala concelhia. O estudo constitui um pontapé de saída, quem sabe também para as entidades públicas terem como prática a recolha e tratamento dos seus próprios dados nessa escala concelhia. E esse pontapé de saída não pode, nem deve, ficar-se por aí, implica continuidade, a qual tem como principal barreira a atribuição de financiamentos, uma vez que implica um longo trabalho de uma equipa e por vezes implica, curiosamente, ter de pagar os dados às entidades públicas.
Entendo bem a preocupação do Sr. Jorge Gonzalez Esteves. Uma preocupação que vem, aliás, na sequência de idênticas dúvidas publicadas em diversos meios de comunicação social ou directamente remetidas ao Observa, pois cada um quer ver o seu concelho na melhor posição. Não sei se se recordam mas, após o estudo ter sido apresentado publicamente, a TVI numa das suas notícias bombásticas apresentou Manteigas como a localidade com maior qualidade de vida no país. Nesse caso não me parece que os seus habitantes concordem, nem o estudo nos diz isso. Que me desculpem os leitores pela frontalidade, mas só uma leitura superficial dos dados nos conduz a essas conclusões. Relativamente ao meu anterior artigo, uma das questões susceptíveis de suscitar discussão resulta dos critérios que eu próprio adoptei. Na altura, pela natural extensão e dificuldade em interpretar os dados na sua totalidade optei por falar apenas sobre o posicionamento síntese de cada um dos concelhos do distrito de Viseu. A leitura assim feita coloca, de facto, os concelhos de Nelas e Resende na mesma posição (a par de Viseu e Mangualde).

Objectivos estratégicos Domínios de observação

Objectivos estratégicos 1 Preservar capital natural e paisagístico
Ocupação e uso do solo
Actividades económicas
Rendimento e consumo
Participação, integração e cultura


Objectivos estratégicos 2 Preservar capital humano e social População e famílias
Saúde
Habitação e vizinhança
Transportes e telecomunicações
Mercado de trabalho

Objectivos estratégicos 3 Capacitar capital humano e social Educação e formação
Mercado de trabalho
Participação, integração e cultura

Ao refinar-se a análise dos dados pelos mencionados Objectivos Estratégicos verificamos que o concelho de Nelas surge relativamente bem posicionado em cada um dos 3 objectivos, sobretudo no Objectivo estratégico 3 – Capacitar capital humano e social. Quanto a Resende, apesar de ter idêntico posicionamento a Nelas nos dois primeiros Objectivos estratégicos, surge mal posicionado nesse mesmo Objectivo estratégico 3. É aqui que se reflectem as diferenças entre os dois concelhos, aliás Resende obtém um dos piores posicionamentos em todo o distrito neste Objectivo estratégico. Veja-se o quadro para melhor se perceber onde estão as diferenças, a ele adiciono alguns dados do estudo. Compare-se depois o que é esquematizado no quadro com os indicadores utilizados neste Objectivo estratégico, distribuídos pelos vários momentos do modelo Pressão-Estado-Resposta utilizado.

INDICADORES DE PRESSÃO-ESTADO-RESPOSTA NO OBJECTIVO ESTRATÉGICO 3 – CAPACITAR CAPITAL HUMANO E SOCIAL

• Educação e formação: Pressão – % de alunos matriculados no ensino pré-escolar, % de alunos matriculados no secundário; Estado – média das notas de Matemática e de Português nos exames nacionais do 12.º ano; Resposta – estabelecimentos de ensino por 10 mil habitantes (18-22 anos) e estabelecimentos de ensino pré-escolar por mil habitantes (3-5 anos).
• Mercado de trabalho: Pressão – inscritos em Centros de Emprego (por mil pessoas em idade activa), beneficiários do Rendimento Social de Inserção (por mil hab. com 18 ou mais anos); Estado – estrutura etária do emprego estruturado (% TPCO <25 anos), estrutura do emprego estruturado por habilitações literárias (% TPCO com bacharelato ou licenciatura), estrutura por profissões do emprego estruturado (% TPCO Quadros sup. + espec. prof. liberais e científicas + prof. nível intermédio); Resposta – taxa de colocação dos desempregados inscritos nos Centros de Emprego (desempregados colocados / desempregados inscritos), IRS per capita.
• Participação, integração e cultura: Pressão – (não foram utilizados indicadores de pressão); Estado – utilizadores de bibliotecas por população residente, operações registadas nas caixas Multibanco por habitante, taxa de participação em eleições autárquicas (% de votantes); Resposta – documentos disponíveis nas bibliotecas para consulta por habitante, caixas Multibanco por mil habitantes, investimento em instalações desportivas, recreativas e escolhas (€/hab.).

Contas feitas, Resende tem no Objectivo estratégico 3 – Capacitar capital humano e social pior performance do que Nelas relativamente aos indicadores de Pressão e de Resposta. Ou seja, tem menor % de alunos matriculados no ensino pré-primário e no ensino secundário; do mesmo modo, tem menor número de estabelecimentos que cobrem estes graus de ensino, o que pode ser sintomático ou da falta de estruturas ou, mais grave ainda, do envelhecimento da população. Por outro lado, tem maior número de inscritos no Centro de Emprego (por mil pessoas em idade activa) e maior número de beneficiários do Rendimento Social de Inserção por mil hab. (18 ou mais anos), o que resulta em parte de uma menor taxa de colocação dos desempregados inscritos no Centro de Emprego, paralelamente a um IRS per capita inferior. Por último, Resende possui menor número de documentos disponíveis para consulta por habitante, assim como menor número de caixas Multibanco e investe menos em instalações desportivas, recreativas e escolas. Apesar dessa diferença de resultados no Objectivo estratégico 3 ambos os concelhos obtiveram no cômputo geral a classificação de “Maioritariamente favorável”. Foi, apenas, o descriminar dos resultados que permitiu dar alguma razão ao Sr. Jorge Gonzalez Esteves, num aspecto chave – “Capacitar capital humano e social”. Penso que ficou claro que relativamente à educação, ao emprego e aos aspectos classificados como “Participação, integração e cultura” Resende vive momentos difíceis, que devem conduzir os poderes públicos e a tão mencionada sociedade civil (dos grupos socialmente organizados ao cidadão individual) a reflectir sobre os problemas e a colocar em prática medidas capazes de fazerem reverter a situação.
Nesta alusão aos dados um elemento a não esquecer é o da provável discrepância entre a posição alcançada e as expectativas das populações. Acrescento a estes comentários o facto de nem sempre a industrialização, a construção e a intensa circulação automóvel, serem sinónimos de qualidade de vida, muitas vezes, isso sim, são sinónimos de graves problemas. Do mesmo modo, qualidade de vida não corresponde apenas a boa performance dos indicadores de carácter meramente económico. Mas não é tudo quanto a possíveis justificações, cabe ainda referir um importante aspecto: os dados que o estudo apresenta são apenas dados objectivos, ou seja, são apenas uma leitura dos números fornecidos pelas diversas instituições contactadas. Faltou, por certo, escutar as populações, perceber os seus quotidianos e os seus anseios. Uma tarefa que comporta custos elevadíssimos pelo facto de necessitar de uma amostra representativa em cada um dos mais de trezentos concelhos do país (contando com as Ilhas). Imaginem os leitores que uma amostra para ser representativa obrigaria a inquirir cerca de 200 pessoas em cada um dos concelhos, isso implicaria ter de inquirir mais de 60 mil pessoas, imaginem só o custo. Claro que executar um estudo sem essa outra dimensão perfeitamente sociológica é deixar o estudo aberto a diversas críticas, principalmente porque se afasta das vivências das pessoas a quem é dirigido.
Termino, naturalmente, como uma resposta à pré-proposta do nosso leitor, que penso ser já do domínio público: Se é para trabalhar em prol da nossa terra estarei sempre disponível, desde que tenha disponibilidade para tal. Procurar os motivos históricos para melhor conhecer o nosso concelho, e perceber os constrangimentos presentes e as raízes no passado são sempre temáticas que me movem e me suscitam interesse. Sobretudo numa perspectiva de tempo longo como mencionado: o contraponto entre antes e depois do 25 de Abril, com o recurso ao processo histórico. Para já é bom saber que chego às pessoas, que as minhas palavras não são meros lamentos pessoais. E quando assim é acrescento aos meus motivos mais motivos para continuar e, se possível, chamar outras palavras às minhas palavras. Reafirmo que é com a acção de todos que o nosso património será preservado e divulgado.

NOTAS
* Ferrão, João (coord.), Guerra, João (2004) Municípios, Sustentabilidade e Qualidade de Vida: Contributos para a construção de um sistema de indicadores de monitorização da qualidade de vida nos municípios portugueses (Continente), Lisboa, OBSERVA. O estudo estará em breve disponível na página do Observa na Internet (www.observa.iscte.pt), contudo os leitores podem solicitá-lo antecipadamente através de correio electrónico (observa@iscte.pt).
**TPCO – Trabalho por conta de outrem.


José Gomes Ferreira

publicado por José às 13:47
Quarta-feira, 05 / 01 / 05

Ganham-se avenidas, perdem-se pinhais (in Planalto Novembro de 2004)

Tantas vezes projectada, outras tantas adiada, surge agora a avenida que ligará sensivelmente a Mata das Alminhas com a ponte ferroviária da estrada antiga do Folhadal, rasgando o Vale da Sobreira e o Coucinho. Se a memória não me falha os anteriores projectos de que tive conhecimento passavam, basicamente, pelo alargamento da designada Canada de São Miguel, que, como todos sabem, circunda a Quinta Agrícola. O projecto agora em plena execução arrasou as videiras e oliveiras por onde passou, e vai devorar uma das poucas manchas verdes da vila e da sua periferia – a conhecida pelo povo como Mata do General.
Não me cabe a mim fazer especulações. A primeira fotografia que apresento não podia ser mais expressiva, olhando bem para ela todos nós podemos levantar questões quanto à possível sujeição de Nelas aos interesses imobiliários. A construção de uma larga via como esta, associada ao corte dos pinheiros de uma mata simbólica, suscitam-nos algumas dúvidas. Não esquecer que estamos a ignorar a preservação de uma área com boa aptidão agrícola – não tenho presente qualquer elemento sobre o Planto Director Municipal de Nelas (PDM) ou sobre a tão falada Reserva Agrícola Nacional (RAN), mas seria interessante verificar o que nos dizem e as prováveis alterações suscitadas por esta construção. Infelizmente, é comum associar-se, num Portugal que deveria ser moderno, a indústria da construção civil com os atentados à paisagem e ao nosso património, natural e construído. Por ela se constroem mamarrachos, com todos os tamanhos e feitios, se derrubam árvores – agora os pinheiros da Mata do General, antes as árvores da Avenida João XXIII, no futuro outras se devem seguir –, pois o que importa é construir apartamentos, lojas e vivendas para depois serem vendidas.

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A posição privilegiada de Nelas, depois expressa em bons indicadores de qualidade de vida, por mim referidos em diversos artigos, parece implicar um amargo de boca. Os mesmos indicadores, por falta de ordenamento e gestão do território, suscitam uma enorme pressão urbanística, desencadeada pela atractividade da vila. Se o betão, o ferro e o alcatrão conquistam cada vez mais o seu espaço livre, os espaços verdes esses rareiam, na verdade pode mesmo dizer-se que não existem. O único cartão postal que a vila tem para mostrar para quem vem de fora parece ser a fumaça que se ergue da sua principal unidade industrial. Acho que ninguém sabe, nem prevê, a concretização de um Parque Municipal. Porventura os decisores devem pensar que Nelas se vê rodeada de natureza e que isso bastará, erro deles se assim pensam, pois seria bem acolhido um espaço verde de lazer num ponto relativamente central.

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Retomando a questão de partida. Se a ideia era fazer uma nova ligação ao Folhadal/Estrada da Felgueira a opção poderia, por exemplo, ligar a rotunda da Fonte do Ouro ao Apeadeiro do Folhadal, continuando pela Rua do Apeadeiro. Sei que implicaria maiores custos e maior derrube de pinheiros, mas essa solução traria algumas vantagens: 1.ª serviria as pessoas que ao longo dos anos se têm fixado no lugar do Mocho, a norte e a sul da linha de caminho de ferro; 2.ª surge directamente ligada à vantagem anterior, permitiria requalificar o bairro e a Rua do Apeadeiro; 3.ª permitiria encontrar uma solução para a passagem de nível sem guarda, que pelas vozes que se escutam será fechada mais dia, menos dia, e do mesmo modo facilitaria um provável compromisso quanto ao apeadeiro; 4.ª poderia igualmente facilitar a requalificação da rotunda da Fonte do Ouro, de momento uma porta de entrada na vila pouco honrosa; 5.ª seria uma importante via de acesso às propriedades (matas e fazendas cultiváveis) existentes nas redondezas, que se privam desse acesso desde o encerramento da passagem de nível com guarda existente outrora a oeste; 6.ª a construção dessa via permitiria o desvio de algum do trânsito que passa por Nelas com destino às Caldas da Felgueira.

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Esta minha proposta iria implicar o corte de maior quantidade de pinheiros, contudo o valor simbólico dos pinheiros que vão ser derrubados em nada se assemelha ao corte de um outro qualquer pinhal. Naturalmente que se fosse essa a opção teria de ser articulada com o tão falado prolongamento do IC 12. Relativamente ao encerramento da passagem de nível sem guarda, ao que parece já ocorreu pelo menos uma tentativa para debater a questão no final de uma missa de domingo mas o povo prefere virar as costas mesmo nas horas de aperto, quando deveria estar unido. Importa que o povo acredite que a passagem de nível será encerrada se ele deixar, se as pessoas preferirem ficar a aquecer-se ao lume nas noites frias de Inverno sem nada fazerem em prol dos interesses comuns.
Este é um daqueles momentos em que deveremos permanecer unidos, apesar das diferenças de todos os dias, para se lutar lado a lado. E lutar não significa ficar sentado, muito menos usar violência. Lutar implica que as pessoas manifestem as suas opiniões nos locais adequados e nos momentos próprios. Os meios para o fazer são diversos, vão desde a participação de alguns de nós nas reuniões da autarquia onde o assunto possa ser debatido ou então na organização de um abaixo-assinado a remeter à autarquia, à Refer, ao Provedor de Justiça, entre outros. E se tudo isso não resultar, mesmo não adeptos da violência poderemos pensar em “cortar” a linha da Beira Alta, mesmo que apenas de modo simbólico, pois não queremos lesar terceiros. Essa união e esse esforço será uma manifestação de cidadania activa e de sentido de comunidade, ao contrário do tão comum cruzar de braços, tristemente associado a um mero bate boca, que o povo tanto gosta de cultivar. Para cruzar os braços basta-nos a humilhação por que passam os nossos doentes no que é tão tristemente designado por Centro de Saúde de Nelas.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 13:47
Quarta-feira, 05 / 01 / 05

http://folhadal.blogs.sapo.pt (in Planalto Outubro de 2004, sem foto)

Pois é, amigos! Decidi dedicar um pequeno blog ao nosso Folhadal. Para quem não sabe um blog é como que uma página pessoal feita na Internet em jeito de diário, com a virtude de permitir alguma interactividade, uma vez que cada texto ou fotografia estão abertos aos comentários de quem desejar deixar os seus. Após uma breve experiência com um blog mais pessoal fiquei encantado com a reacção, pelo que, após me terem sugerido “guardar” os meus artigos, decidi dedicar um blog a eles e à nossa terra. A tarefa tem implicado algum esforço, uma vez que tenho escrito vários artigos neste nosso Planalto, contudo é facilitada pelo facto de ter todos os artigos publicados guardados em versão digital. Lamentavelmente sou obrigado a assumir a falta de rigor relativamente à data de publicação dos artigos, talvez um dia consiga superar essa lacuna, até lá decidi dividir os artigos publicados em três períodos: 1998-2002, 2003, 2004. Dentro de cada período definido, exceptuando o primeiro deles – “Recordações do meu pequenino Folhadal”, os artigos inseridos não seguem qualquer ordem. E exceptuando os artigos publicados em 2004, que a seu tempo vão ser devidamente referenciados.
O blog não segue um único objectivo Decidi atribuir-lhe duas vocações principais: servir de arquivo vivo aos artigos que tenho publicado neste nosso jornal e colocar em espaço virtual trechos da nossa terra, sobretudo algum do seu património (por exemplo, as abandonadas sepulturas antropomórficas, incluo novamente a do Colóquio em formato integral, onde parece que começa a haver luz, assim seja). Se cumprir esses objectivos acredito que venha a chegar a outros públicos que o nosso Planalto não abarca, porventura um público mais jovem e um público que tanto pode viver na nossa terra como viver em qualquer um dos cantos do mundo. De facto, uma das maiores virtudes da Internet é a de permitir chegar mais longe e a novos públicos. Ao chegar a mais pessoas será um contributo para a preservação do que é nosso e a nós cabe defender. Em suma, procura assim sensibilizar todas as gerações em todos os continentes e, em última instância, procura também sensibilizar os poderes públicos para os nossos problemas e para as nossas riquezas.

Apesar de ter sido um blog criado por mim e alimentado pelo meu próprio espólio, não é propriamente pessoal, até porque já possuo um. É dedicado à nossa terra e pretende ser um espaço aberto de debate e reflexão sobre os nossos problemas. Conto, desde já, com a visita dos que possam por lá passar e que queiram deixar o seu contributo. A navegação no blog é muito simples. O visitante ao entrar depara-se com os últimos artigos inseridos, os artigos anteriormente inseridos encontram-se nas pastas de arquivo de cada mês, neste caso basta clicar em Setembro de 2004, que se encontra do lado esquerdo do monitor, para aceder a todos os artigos por mim publicados no nosso Planalto entre 1998 e 2002. Tenho pena de não ter os necessários conhecimentos de HTML para assim melhorar todo o grafismo, sobretudo as fotografias. De qualquer modo para breve tenho prevista a inserção de diversas fotografias alusivas à nossa terra, entre as quais as relativas à procissão de Santa Eufémia.
Termino este artigo informativo com uma breve nota sobre a série que a RTP1 tem vindo a exibir desde finais de Setembro. Refiro-me à série de 4 episódios “Portugal – um retrato ambiental”, da autoria de Luísa Schmidt, na qual tive oportunidade de dar uma mãozinha, tal como é referido na respectiva ficha técnica. A série de 4 episódios tem os seguintes subtítulos: 1 episódio – “País de contrastes”, 2 episódio “Das catástrofes às fontes de energias”, 3 episódio “As águas”, 4 episódio “Paisagem & ordenamento”.

P.S. – Em próximo registo darei resposta às questões formuladas pelo Sr. Jorge Gonzalez Esteves


José Gomes Ferreira

P.S. Por um qualquer motivo não consigo inserir a foto, tentarei em outro momento
publicado por José às 13:46
Quarta-feira, 05 / 01 / 05

Qualidade de vida nos municípios do distrito de Viseu (in Planalto Setembro de 2004)

Dou início com este texto ao cumprimento da promessa que fiz aos leitores em falar sobre alguns estudos apresentados no Colóquio “Autarquias, ambiente e qualidade de vida”, que serviu de apresentação pública a um conjunto de investigações realizadas nos últimos anos no âmbito do Observa*. Por agora, refiro-me ao estudo: “Municípios, Sustentabilidade e Qualidade de Vida: Contributos para a construção de um sistema de indicadores de monitorização da qualidade de vida nos municípios portugueses (Continente)”**. O objectivo do meu esforço passa por levar ao grande público pesquisas com importância para o nosso concelho e para a nossa região. Saliento, desde já, que se trata de uma leitura pessoal, embora tenha convivido de perto com o trabalho realizado.
Tal como o subtítulo indica e os autores reafirmam, o estudo visa “debater e propor linhas de orientação para a criação de um sistema de indicadores estatísticos de monitorização da qualidade de vida nos municípios portugueses do Continente.” Segundo se pode ler, trata-se de um dispositivo que “deverá constituir, para decisores e cidadãos, um instrumento que, permitindo medir, acompanhar e avaliar a evolução da qualidade de vida ao nível local, suscite tomadas de decisão e definição de prioridades mais fundamentadas” (Ferrão e Guerra, 2004: 2).
Por economia de espaço, pois um artigo de jornal não comporta uma reflexão assim tão vasta, não me vou deter no percurso que conduziu à visão integrada do conceito de qualidade de vida. Faço somente uma breve alusão ao modo como medir essa qualidade de vida, no caso apenas uma visão quantitativa (estatística), dadas as dificuldades em medir a qualidade de vida subjectiva. Relativamente ao estudo em análise, a organização da base de dados traduz o conceito integrado de Qualidade de Vida e o modelo de sistematização de indicadores Pressão-Estado-Resposta como referenciais de natureza, respectivamente, conceptual e metodológica. A estruturação dessa base de dados obedeceu a três critérios operativos complementares: 1.º- Objectivos estratégicos; 2.º- Domínios de observação; 3.º- Natureza dos indicadores.
De acordo com a abordagem dinâmica e multidimensional do conceito integrado de qualidade de vida proposto foram definidos três objectivos estratégicos: Objectivo 1: Preservar o capital natural e paisagístico; Objectivo 2: Preservar o capital humano e social; Objectivo 3: Capacitar o capital humano e social. Em que o primeiro objectivo estratégico “visa captar os vários aspectos mais directamente relacionados com a sustentabilidade ambiental e o ordenamento do território”. Por sua vez, o segundo “procura levar em conta as várias dimensões da preservação do capital humano e social avaliada a partir de um triplo ponto de vista: vitalidade demográfica, satisfação de necessidades básicas e prevenção de riscos sociais. Finalmente, o terceiro objectivo estratégico pretende englobar facetas essenciais da capacitação do capital humano e social, nomeadamente do ponto de vista dos saberes, competências e qualificações adquiridos” (Idem: 36).
Os domínios de observação são sensivelmente coincidentes com os sectores da vida social tradicionalmente considerados de forma relativamente autónoma. O estudo identificou dez domínios de observação: Actividades Económicas; Educação e Formação; Habitação e Vizinhança; Mercado de Trabalho; Ocupação e Uso do Solo; Participação, Integração e Cultura; População e Famílias; Rendimento e Consumo; Saúde; Transportes e Comunicações.
Quanto à natureza dos indicadores, o estudo adoptou a natureza de cada indicador definida com base no modelo Pressão-Estado-Resposta. Neste caso, “as três categorias definidas foram utilizadas para distinguir, respectivamente, factores ou tendências com impacte relevante sobre a situação actual (indicadores de pressão), condições existentes (indicadores de estado) e respostas institucionais (instrumentos, investimentos, equipamentos, serviços, etc.), individuais e sociais (comportamentos) às pressões e situações existentes (indicadores de resposta)” (Idem: 37). A “identificação de indicadores de diferente natureza (pressão, estado e resposta) por objectivos estratégicos e por domínios de observação regeu-se pelos princípios orientadores de representatividade e fiabilidade, em geral, e pelo referencial metodológico P.E.R. (Pressão-Estado-Resposta), em particular”(Idem: 40/1) .
Permito-me a uma leitura do modelo P.E.R. com o seguinte exemplo, adaptado ao problema dos incêndios florestais. Pressão – abandono dos campos, agonia da pastorícia, aumento da cobertura vegetal rasteira. Estado – aumento da área ardida por concelho, aumento das espécies ameaçadas, aumento das despesas no combate aos incêndios. Resposta – necessidade de maior investimento no combate aos incêndios, necessidade de uma visão integrada da floresta e do planeamento florestal. Trata-se de um exemplo que não segue com total rigor a teoria proposta no estudo a que me refiro mas, assim penso, ilustra bem o modelo proposto.
Para uma melhor leitura dos dados o ideal seria conseguir inserir no texto cada um dos objectivos estratégicos, os respectivos domínios de observação e os respectivos indicadores – Pressão-Estado-Resposta – para cada um dos objectivos estratégicos e em cada um dos concelhos do continente. Na impossibilidade de inserir toda essa informação num artigo apenas, surge inserido o Perfil de qualidade de vida nos municípios do continente, a partir de dados de 2001, numa tipologia síntese adaptada, primeiro ao distrito de Viseu (mapa), depois à região Dão-Lafões (quadro). A legenda manifesta a maior ou menor capacidade de resposta de cada concelho face aos indicadores existentes e ao modelo proposto.

Perfil de qualidade de vida nos municípios do distrito de Viseu, 2001:
tipologia final de síntese (adaptado***)




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Nova imagem (1).jpg


Se o mapa apresenta a leitura da tipologia síntese a partir do distrito de Viseu o quadro seguinte apresenta nova leitura levando em conta a NUT III do Instituto Nacional de Estatística (INE) onde o concelho de Nelas está inserido – a região Dão-Lafões.

Perfil de qualidade de vida nos municípios da região Dão-Lafões:
tipologia final de síntese (adaptado)


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Quer numa análise por distrito, porventura a que está mais próxima do simbolismo do leitor, quer numa análise pela respectiva NUT III, a que mais serve comparações estatísticas nacionais, um dado revela-se claro – os concelhos a sul estão melhor posicionados. São eles: Mangualde, Nelas e Viseu (Maioritariamente favorável); Carregal do Sal e Mortágua (Maioritariamente favorável, pontualmente desfavorável); Santa Comba Dão e Tondela (Maioritariamente razoável). Na leitura por distrito um natural destaque vai para Resende (Maioritariamente favorável) e logo a seguir para Cinfães e Moimenta da Beira (Maioritariamente razoável).
Do lado contrário, o destaque pela negativa vai para Castro Daire, , Penalva do Castelo, Penedono, Sátão, São João da Pesqueira e Tarouca, que na análise por distrito recebem a classificação Maioritariamente desfavorável. Com a mesma classificação, agora a nível da NUT III, surgem os concelhos de Castro Daire, Penalva do Castelo e Sátão. Estes concelhos são seguidos, ao nível do distrito, pelos concelhos de Armamar, Lamego, São Pedro do Sul, Sernancelhe, Tabuaço, Vila Nova de Paiva e Vouzela, estes com a classificação Maioritariamente desfavorável, pontualmente favorável. Com a mesma classificação surgem, ao nível da NUT III, os concelhos de São Pedro do Sul, Vila Nova de Paiva e Vouzela.
Apesar deste posicionamento o estudo não pretendeu, nem eu pretendo, estabelecer qualquer ranking dos concelhos com melhor desempenho, tal como o fizeram alguns diários nacionais de referência, facto que gerou alguma polémica e confusão. Para evitar eventuais excessos será necessário levar em linha de conta que estamos perante indicadores objectivos e perante a proposta de um modelo de indicadores. Por conseguinte, duas tarefas se afiguram como cruciais para os próximos anos: – “recolha” de indicadores subjectivos, uma tarefa que se mostra difícil dados os custos que implica e dada a necessidade de ser feita de modo idêntico em todos os concelhos do país; – apuramento não de mais mas, isso sim, de melhores indicadores, uma tarefa que não cabe aos investigadores, é da responsabilidade das entidades públicas, como se sabe, pouco habituadas a serem recolectoras de informação. Naturalmente que a equipa de investigação fica com a responsabilidade de adequabilidade ou não do modelo aplicado e da selecção dos melhores indicadores que o servem.
Estas foram as palavras que tinha previstas para este já longo artigo. Pelo que chegou ao me conhecimento o mesmo assunto foi publicado num jornal da região de Viseu, num artigo que eu não tive oportunidade de ler. Seja como for aqui apresento a minha leitura do estudo em referência e faço-o para o nosso Planalto.

NOTAS
* O Observa – Ambiente, Sociedade e Opinião Pública é um Programa de investigação em ciências sociais criado em 1996 pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) e pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL). Das suas mais importantes iniciativas destacam-se os dois Inquéritos Nacionais sobre os Portugueses e o Ambiente, ambos publicados em livro.
** Ferrão, João (coord.), Guerra, João (2004) Municípios, Sustentabilidade e Qualidade de Vida: Contributos para a construção de um sistema de indicadores de monitorização da qualidade de vida nos municípios portugueses (Continente), Lisboa, OBSERVA.
*** O mapa resulta de uma adaptação dos dados do estudo referido ao mapa que consta da página na Internet da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP).

José Gomes Ferreira

publicado por José às 13:45
Quarta-feira, 05 / 01 / 05

Contributo para a identificação e preservação das sepulturas antropomórficas do Folhadal (in Planalto Outubro de 2004)

Uma primeira nota que convém desde já reter neste artigo diz respeito ao âmbito dos objectivos que cobre. Embora denominado “Contributo para a identificação e preservação das sepulturas antropomórficas do Folhadal” abrange todo o concelho de Nelas, basta para tal que se expressem as populações interessadas. Eu próprio não consegui até ao momento fotografar ou obter relatos orais sobre todas as sepulturas existentes no Folhadal, aguardo ainda que alguém me possa dizer onde estão em concreto ou me acompanhe. Relativamente às outras localidades do concelho as povoações podem, por exemplo, fotografar e identificar os locais onde se encontrem as ditas sepulturas (a existirem), enviando posteriormente o material ao nosso Planalto para eventual publicação, um pouco à semelhança do trabalho feito com os fontanários. Digo tudo isto na expectativa de mais alguém se interessar pelo nosso património, não quero sentir que vivo a ilusão da participação.
Como o título refere pretendo neste artigo deixar por escrito o que para muitos faz parte do esquecimento ou então nada simboliza. Em registos anteriores tenho feito consecutivos apelos à preservação da sepultura existente no Colóquio, onde inclui fotografias ilustrativas do desprezo que sofrem aos olhos de todos. Infelizmente, até ao momento em que escrevo estas palavras, nunca obtive QUALQUER resposta da autarquia, até parece que não é nada com ela. Pela minha parte, é por acreditar que se está a ignorar a nossa história e os seus testemunhos (os poucos ainda existentes) que alargo a extensão da minha insistência. Desta vez apresento outras sepulturas e incluo algum material recolhido. As imagens que recolhi referem-se ao conjunto de sepulturas antropomórficas existente no lugar das Fontainhas.
Menciono uma das obras que encontrei na nossa Biblioteca – Sepulturas escavadas na rocha na região de Viseu – que, se a memória não me falha, corresponde à publicação em 2000 da tese de mestrado de Jorge Adolfo de Menezes Marques. A obra em referência terá eventualmente as suas virtudes, todavia no que toca ao nosso concelho manifesta uma expressiva ausência do indispensável trabalho de campo. Sei por experiência própria que uma tese de mestrado tem enormes limitações, com todo o respeito pelo autor e pelo seu trabalho, não deixo de criticar o facto do levantamento efectuado ter sido apenas bibliográfico. Limita-se a mencionar a existência de duas sepulturas escavadas na rocha no Moledo, registe-se, que o próprio não encontrou.

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As sepulturas do Moledo parecem corresponder às sepulturas do lugar do Vale da Remolha, situadas próximo do cemitério do Folhadal. Como é do conhecimento público o Moledo e o Vale são lugares contíguos, com a diferença do Moledo ser sobretudo conotado com a própria vila e o Vale fazer parte dos lugares da nossa aldeia. Espero em breve ter as fotografias que comprovem a existência destas sepulturas, as quais vão ser apenas um mero adereço, uma vez que os relatos orais comprovaram tal existência. Lamentavelmente ainda não obtive confirmação da existência de outras sepulturas de que a minha memória guarda uma imagem desde uma visita na infância. São esses os casos das sepulturas que muito provavelmente existem para lá dos lugares da Campa e do Carvalhinho, quem vai para o caminho do Vale do Gato, segundo penso junto ao que é mencionado como Poço do Urânio (um dia gostaria de saber a história da exploração do urânio neste local). A minha memória teima ainda em se lembrar de um eventual conjunto de sepulturas junto à Orca do Folhadal (diria matagal do Folhadal), na Infesta. Por mais que queira dessa eventualidade não consigo nem ter relatos orais.
Tenho-me refiro-me às sepulturas como sendo antropomórficas mas, de acordo com vários estudos, algumas delas podem não ser antropomórficas. Gradualmente, o contributo de várias variáveis terá permitido o seu uso apenas antropomórfico. Uma outra questão extremamente importante tem a ver com a idade destas sepulturas, ao contrário do que eu próprio pensava não são tão antigas assim. Sempre pensei que seriam pré-romanas. Embora ainda não seja consensual, uma grande parte dos arqueólogos tem vindo a considerar, sobretudo após pesquisas efectuadas na década de 80 do século passado, que existe proximidade entre estes elementos e as necrópoles dos templos cristãos. Sendo por isso pós-romanas e relacionadas com os rituais de inumação cristãos.

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Num estudo dedicado a sepulturas do mesmo género existentes em concelhos bem próximos do nosso – Carregal do Sal e Gouveia (muitos mais preocupados com o seu estudo, sensibilização e preservação) – Catarina Tente e Sandra Lourenço esclarecem-nos várias questões. Pela leitura do artigo síntese percebemos que a discussão sobre a idade tem sido longa, mas que tem vindo a afirmar-se o argumento de que datam de um período entre os séculos VII a XI, provavelmente associadas a uma forma de povoamento disperso. Todavia, em alguns dos exemplos que as autoras estudaram as sepulturas permaneciam durante os séculos XIII e XIV. Segundos nos dizem, devido à inexistência de vias de comunicação e à ausência de um contacto inter-regional, “em algumas áreas mais isoladas as pervivências de rituais e formas de inumação ter-se-iam prolongado no tempo” (Tente e Lourenço: 18). Um dos argumentos (nem sempre confirmado) que comprova a idade das sepulturas, para além do seu tamanho e localização, prende-se com a sua orientação. Dizem-nos as autoras que são cristãs: “se admitirmos que os cânones cristãos relativos à orientação eram respeitados, ou seja com a cabeça virada para Oriente, onde é suposto aparecer Deus no dia do juízo final” (Idem).
Estas são as sepulturas antropomórficas que com alguma certeza existem na nossa terra, naturalmente que espero o contributo dos amigos e leitores para a sua correcta identificação, destas ou de outras que possam por cá existir. Só após serem identificadas se pode pensar na sua divulgação e preservação, uma responsabilidade que cabe a todos nós, para que o crime do Vale do Gato não se repita. Este é o meu contributo sobretudo para a sensibilização das populações para a preservação de algo que é muito seu. É também um alerta à autarquia para que faça algo, sugiro a colocação de placas a identificar as sepulturas e, porque não, o estabelecimento de uma rota do património municipal, a ser percorrido pelas crianças das escolas, pelos nossos idosos, por todos nós e quem nos visitar.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Marques, Jorge Adolfo de Menezes (2000), Sepulturas escavadas na rocha na região de Viseu, Viseu 2000
Tente, Catarina e Lourenço, Sandra (1998), “Sepulturas medievais escavadas na rocha dos concelhos de Carregal do Sal e Gouveia: estudo comparativo” in Revista Portuguesa de Arqueologia, Vol. 1, número 2.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 13:45
Quarta-feira, 05 / 01 / 05

Triste fim o do casario do Vale do Gato (in Planalto Setembro de 2004)

No momento em que procuro alinhar estas palavras num artigo o nosso Folhadal vive um inquietante e desconcertante burburinho. Alguém por mero apego aos bens materiais delapidou parte do nosso património e da nossa história, como que dizendo que os nossos antepassados e tudo o que nos legaram de nada nos serve, que cada um pode fazer dessa herança o que bem entender. Assim desapareceu grande parte do casario do nosso Vale do Gato, num gesto ignóbil e revelador da mais pura ignorância da parte de quem o cometeu. Um gesto cometido por alguém nada preocupado com o interesse público das pedras da nossa memória ainda viva e documentada através delas, nem tão pouco, ao que parece, com respeito pela propriedade privada.
Pelos testemunhos que tenho recolhido ou que chegam a mim voluntariamente acredito que o meu inconformismo e revolta é o inconformismo e a revolta de muitos de nós. Este é um daqueles actos que apenas encontra justificação nos interesses alheios de alguém movido pela mera gula ou então por interesses de um egocentrismo atroz. Seja qual for a explicação possível ou equacionável uma verdade parece inquestionável: o Folhadal perdeu o que para muitos é o seu berço. E tudo se passou diante de nós (ainda que, como me foi dito, tudo se tenha passado como pela calada), sem que fosse possível uma simples intenção de reacção. É nestes casos que as populações se sentem mais desprotegidas e mais se dão conta da enorme herança a proteger. Enquanto isso a autarquia nem boceja. A rádio local nem sabe o que é o Vale do Gato. A imprensa local e regional ou fecha os olhos ou tem os seus ritmos. No fim de contas, com todos praticamente ilibados, fomos todos nós e o nosso Folhadal a perder parte da sua história e um dos principais símbolos da sua identidade.
Pessoalmente não faço qualquer menção específica a quem cometeu tal acto, até porque penso ser já do conhecimento geral. Seja como for, estas ou outras “pessoas” um dia teriam um gesto destes. Quanto ao espólio que sumiu é praticamente irrelevante entrar em pormenores, uma vez que sejam quais forem os pedaços a desaparecer perdeu-se a integridade do Vale do Gato, o que restou foi apenas um amontoado de pedras e lixo. Ainda assim pelo que me foi dito desapareceu um antigo forno e algumas das habitações das ruínas do secular aglomerado Agora que o mal está feito importa o povo precaver-se, pois, mais dia, menos dia outros atentados ao que é de todos vão acontecer. Apesar dos clamores constantes, quer meus quer de outros filhos da terra, o povo prefere permanecer como que em estado de coma, prefere sacudir a água do capote como se nada fosse com ele. Só quando o caso afecta directamente algum dos habitantes é que o povo se agita e leva as mãos à cabeça.


vale do gato.png


Neste caso o desgosto é maior por se tratar de um local com importância histórica local e regional, motivos que no devido tempo deveriam ter levado a Câmara Municipal de Nelas a classificar o aglomerando como património de interesse municipal. Mesmo que tal classificação ou outra viesse a obrigar a adquirir aquele espaço, acredito que não faltariam mecenas interessados em colaborar na preservação dos testemunhos históricos da nossa terra. Infelizmente a nossa autarquia confunde cultura com festas de arromba, onde gasta fortunas para potencial turista ver e voltar. De que nos servem as festas se um dia nada existir para mostrar da nossa história? Nessa altura, tal qual uma família rural antiga sem recursos e num ano de boa colheita vinícola, iremos oferecer vinho a quem nos visita, pois o nosso pão será devorado pela nossa insensatez e pela nossa ignorância.
Desde tempos idos as casas do Vale do Gato sempre foram olhadas como a nossa “jóia da coroa”, pela importância que as referidas ruínas e o lugar tiveram no suceder da nossa história (digo ruínas mas parte delas foram ainda recentemente usadas para guardar ovelhas ou apenas para as proteger de algumas chuvadas). Nesse elogio era reforçada toda uma tradição oral de momento ofuscada pela ausência de identificação das populações com os lugares, exceptuando alguns habitantes que têm atravessado gerações e perpetuado essa memória colectiva. O recurso à memória e aos relatos que atentamente escutei em todos estes últimos dias, permitiram concluir que o Vale do Gato com o seu casario e a Quinta da Barca, por onde os antigos atravessavam o rio Mondego, constituem os lugares mais emblemáticos do nosso Folhadal. Curiosamente são lugares praticamente não lugares, pois a história e as pessoas se encarregaram de os remeter ao mais puro esquecimento. Curiosamente, também, são dois lugares profundamente ligados.
No caso particular do Vale do Gato a sua história confunde-se com a própria história do Folhadal. Presume-se que a importância da “estrada velha” e do casario seja anterior à atribuição do foral por D. Dinis em 1286 a 26 moradores do Folhadal. A “estrada” faria parte da designada Rota do Sal, que da Foz Dão seguia em direcção ao Mondego e por aí passava grande parte do sal que se dirigia a Além-Mondego, provavelmente através da Barca, e ao sopé da Serra da Estrela. Do casario faria parte, nomeadamente, uma estalagem e vários estábulos onde os animais poderiam repousar e ser alimentados durante as penosas viagens. A tudo isto se acrescenta, entre outras infra-estruturas, um forno. Com a água a correr nos ribeiros próximos e os solos propícios à agricultura, acredito que os viajantes não seguiriam viagem à míngua. Muito provavelmente grande parte da economia local estava virada para a estalagem, pois haveria que alimentar homens e animais em esforço.
Desde já encantado pela ligação do Folhadal à actividade salineira, permito que algumas dúvidas surjam. De onde de facto vinha esse sal de que se fala? Seria sal marinho? Se assim fosse porque vinha da Foz Dão para o Mondego? Não sei se os seus rios permitiriam uma ligação fluvial às zonas costeiras produtoras de sal marinho, como é o caso de Aveiro e da Figueira da Foz. Mas não sendo sal marinho só poderia ser sal-gema, de onde viria? E permitam-me os leitores uma última questão importante. Porquê o nome de Carregal do Sal e as referências às salinas?
É de supor, pelo que consegui averiguar, que se tratava de facto de sal marinho, a julgar pelos vários argumentos a favor. Um deles, é de que não parecem existir registos da exploração de sal-gema, muito menos nesse período, foi descoberto na Europa bem mais tarde, em Portugal as primeiras ou pelo menos as mais conhecidas salinas do género (não sei se únicas) ainda hoje existem em Rio Maior. Outro argumento, prende-se com a origem do Carregal do Sal, de onde Carregal deriva de uma planta que abundava na região – a cárrega –, a que se juntou a palavra Sal, uma vez que existiam, num local chamado Salinas, armazéns de sal, exageradamente denominados de salinas. Um terceiro argumento a favor do sal marinho é dado numa nota de rodapé na obra que José Pinto Loureiro dedicou a Nelas, a seguir transcrita:

“Anteriormente à exploração do caminho de ferro, as ligações desta região com Coimbra e com o mar faziam-se pelo Mondego, navegável, então como hoje, a partir da Foz Dão, assim se compreendendo o enorme desinteresse na construção da estrada de Mangualde à Foz Dão, passando por Nelas. Posteriormente à inauguração da estação da Mealhada (10-IV-1864), e uma vez aberta a estrada de Santa Comba Dão àquela vila, já o movimento da Foz Dão declinava, para quase desaparecer vinte anos mais tarde, após a inauguração do caminho de ferro da Beira Alta” (Loureiro, 1988: 221).


De facto, a importância do Mondego enquanto via de comunicação com o litoral parece deitar por terra qualquer dúvida sobre se se trataria ou não de sal marinho. Assim parece ser. Um artigo publicado no nosso Planalto pelo recém falecido Sr. Manuel Borges reforça a importância da “estrada velha” do Vale do Gato na Rota do Sal (que me desculpem os leitores mas não sei precisar a data em que foi publicado). Segundo nos dizia nesse artigo, a importância da “estrada” era tanta que ao ser construído o Caminho de Ferro da Beira Alta a companhia concessionária se viu obrigada a construir uma segunda ponte na Fonte do Ouro para que assim manter a circulação na dita “estrada velha”. [Verifiquei que a velha ponte sobre o linha de caminho de ferro está agora abandonada e sem qualquer protecção lateral, apenas serve como depósito de lixo]. Ainda segundo a opinião do mesmo autor, o mesmo Caminho de Ferro, inaugurado em 1884, associado à construção da estrada Foz Dão/Mangualde, que em 1859 teria o seu troço dentro do concelho de Nelas em construção, e associado à reparação do caminho Nelas/Ponte Nova, em 1864, aspectos de que também nos fala Pinto Loureiro, ditaram o fim da importância da estrada do Vale do Gato, que com o fim do tráfego se viu confinado no último século a um caminho rural.
Esta foi, genericamente, a maior parte da nossa história que se perdeu com a venda das pedras do velho casario do já abandonado Vale do Gato. Penso que após este gesto teremos ainda mais motivos para descruzar os braços, só assim se conseguirá proteger o que é de todos nós. Ficou bem provado que só uma iniciativa das populações impedirá novas campanhas de barbárie sobre o nosso património. Concluo este texto com uma nota de agradecimento à minha tia Eugénia que mais uma vez, como o teu feito sempre, me deu todo o apoio e todas as indicações na realização deste artigo. A ela e a todas as vozes anónimas ou não o meu muito obrigado. Não somos muitos quando se trata de zelar pela nossa terra.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Loureiro, José Pinto (1988), Concelho de Nelas (Subsídios para a História da Beira), Câmara Municipal de Nelas.
www.carregal-digital.pt


José Gomes Ferreira

publicado por José às 13:44
Quarta-feira, 05 / 01 / 05

Incêndios em prime time (in Planalto Agosto de 2004)

Em cada Verão o país fica suspenso em chamas e clamores. É o drama dos incêndios que se repete. Tudo se repete, apesar das promessas, e com maior gravidade que no ano anterior. Promessas, promessas, vãs promessas. Mal o Verão acaba nunca mais se volta a ouvir falar no assunto. Antes disso, são as promessas na melhoria de meios de combate, na sensibilização das populações, na reflorestação das áreas ardidas… Na prática pouco é feito, veja-se o nosso concelho, o que foi feito após os incêndios dos últimos anos? Nada, absolutamente nada. E essa é a imagem de um país que se vota ao abandono e desperta angustiado três meses por ano.
Quando se trata de apoiar a Selecção Nacional de Futebol todos somos orgulhosamente portugueses. Passada a euforia do Euro 2004 os portugueses voltam a pronunciar a frase que parece petrificar-lhes a auto-estima – quando algo não corre de feição logo desabafam “Detesto este país!”. Curiosamente apontam essa frase apenas quando se trata de “apresentarem trabalho”, pois na hora de mostrarem que merecem realmente o país onde vivem proclamam a sua negação.
Recordo-me de em tempos idos o povo ser chamado a combater qualquer fogacho que aparecia na nossa terra. Mal tocava o sino da capela lá íamos todos nós. Os bombeiros, a serem precisos, chegavam mais tarde, até porque a prioridade era envolver as pessoas mais próximas. Ora, o que se tem registado nas últimas décadas é uma inversão total destes comportamentos. Agora ficamos onde estamos, enquanto isso os bombeiros são os primeiros a ser chamados e muitas vezes os únicos a combater os incontroláveis incêndios.
Naturalmente que o drama não se reduz a estas causas. Para os governantes a culpa foi da onda de calor, como se não fosse recorrente a situação de altas temperaturas. Da oposição desde os primeiros dias praticamente apenas se escuta o silêncio. Já os ditos líderes de opinião insistem na necessidade do país adquirir meios pesados de combate aos incêndios e os especialistas relembram a falta de ordenamento florestal. Este Verão, talvez não por coincidência, os mais graves incêndios começaram por irromper em áreas secundarizadas na prevenção e vigilância. Referi acima que o povo agora não ajuda no combate aos fogos, acrescento que estamos a falar principalmente de riscos rurais, que ocorrem em áreas já elas socialmente fragilizadas. Nove meses votadas ao abandono ou deixadas aos idosos que já não podem partir, ao contrário dos mais jovens que seguiram outros rumos. Em muitas das aldeias afectadas o que se tem constatado é o progressivo aumento das áreas de floresta e mato e a diminuição das áreas de cultivo. A explicação é simples, cerca de dois terços dos portugueses amontoam-se numa estreita faixa litoral.
Não bastam desculpas, o combate aos incêndios de Verão terá de ser efectuado no Inverno, aliás, durante vários Invernos. Além do mais terá de resultar de políticas concertadas, nomeadamente, entre os Ministérios da Agricultura, o Ministério do Ambiente e do Ordenamento do Território e o Ministério da Administração Interna, entre outros. Naturalmente todo esse esforço implica o ordenamento florestal, onde se inclui a escolha das espécies mais adequadas, implica, igualmente, a eterna ideia do ordenamento do território. Por um lado, tem que terminar a insistência na plantação de espécies que apenas servem os objectivos de alguma da indústria nacional. Por outro lado, o país não pode ver construídas habitações por tudo quanto é sítio, para usufruto privado mas com custos públicos. De igual modo, o país não pode ser falsamente mobilizado, com promessas de soldados, da paz e da guerra, e de muitos mais.
Com essas ou outras causas, nos últimos dias, simultâneos ao escrever destas palavras, os incêndios têm devastado o país de Norte a Sul, sem dó nem perdão. Após a sua passagem resta a cinza, de novo as lágrimas e uma imensa inquietude, um desespero que prolifera por entre gentes simples e indefesas, que tudo perdem e ninguém lhes pode valer. Coincidência ou não, por vezes, dá a sensação que os próprios incêndios escolhem o prime time televisivo para serem notícia. Assim aparecem no Jornal da Tarde ou no Telejornal da noite, enchem os ecrãs de chamas, suor e lágrimas.
Este ano a agravar o drama dos incêndios repete-se a vaga de calor, estranhamente num ano em que vários especialistas vieram a público afirmar que este Verão não se iria registar uma vaga de calor como em 2003. Quer devido a causas naturais ou devido a causas antrópicas uma coisa parece certa, vivemos uma vaga de calor aparentemente não prevista ou então menosprezada. Parece ser uma manifestação de desagrado dos Deuses face à inoperância dos decisores políticos e face à passividade dos cidadãos.
O problema dos incêndios parece ser paradigmático, pois é uma matéria que todos os anos entra na agenda política, basicamente como resultado da sua mediatização. Mas mal a temática é afastada da agenda mediática a agenda política centra-se bem longe do calor das chamas de Verão. Segundo um estudo em que participei, em Agosto de 2003 foi enorme o peso das notícias sobre catástrofes naturais no conjunto das notícias sobre Ambiente publicadas em dois diários – o Público e o Correio da Manhã. As notícias foram recolhidas, classificadas e analisadas a partir de uma tipologia de referentes temáticos, que agregados resultaram em 12 temas ambientais, identificadas no gráfico.
Um primeiro aspecto a referir prende-se com distribuição geográfica dos registos, a qual cobriu praticamente todos o país, ao nível das NUT II, sequencialmente, a região de Lisboa, Centro, Alentejo e Algarve, com posicionamentos distintos segundo cada jornal. Um segundo aspecto prende-se a diferente cobertura temática. O Gráfico mostra a distribuição temática dos registos, destacando-se no caso do Público as seguintes categorias: Recursos e riscos naturais 49%, Gestão do território 15%, Ambiente e Mundo energético 7%, Mundo vegetal e Poluição 5%, totalizando 88%. Por sua vez, as principais categorias temáticas do Correio da Manhã foram: Recursos e riscos naturais 51%, Mundo animal 14%, Gestão do território 11%, Mundo vegetal e Poluição 5%, Ambiente 4%, Mundo energético 3%, totalizando 90% dos registos.

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Fonte: Schmidt e Ferreira (Observa: 2004)



Os dados parecem deixar clara a enorme mediatização dos incêndios e da vaga de calor do Verão de 2003, correspondendo a cerca de metade dos registos de notícias de Ambiente publicadas mo mês de Agosto, com a particularidade de uma grande percentagem destes registos, respectivamente, 78% e 87%, no Público e no Correio da Manhã, ter sido publicada na primeira página destes jornais. Estes dados parece que não nos servem de exemplo, pois este ano mal começou o Verão tudo se repetiu. Quando vamos inverter este drama? Para quando um Verão em descanso? Para quando um Inverno dedicado à floresta? Estas são algumas das muitas questões que ficam no ar. Por mim ficarei satisfeito se pelo menos uma delas obtiver resposta. Basta de choros, de angústias, de promessas vãs. Chega de enganos e de decisões de gabinete tomadas para um curto prazo inexistente. Do mesmo modo, basta da apatia das populações, que se ergam em sua defesa e em defesa dos seus pertences, que se unam em redor de uma causa comum, tal como o fazem para outras causas com nobreza discutível ou pelo menos com uma nobreza de hierarquia discutível.

NOTA BILIOGRÁFICA:
Schmidt, Luísa e Ferreira, José Gomes, “O ambiente na agenda mediática em 2003” in AAVV (2004), Actas do V Congresso Português de Sociologia, Braga, 12-15 de Maio, Associação Portuguesa de Sociologia.

José Gomes Ferreira

publicado por José às 13:43
Quarta-feira, 05 / 01 / 05

Manifesto (tardio) contra o corte de árvores na Av. João XXIII (in Planalto 2004)

Dou início a este artigo com um pedido de desculpas aos leitores pelo facto de me ter remetido ao silêncio durante algum tempo, nem eu próprio estou habituado a tal mudez, mas a vida tem momentos em que se revela impossível uma presença em todas as frentes. Mesmo distante por momentos não deixo de aproveitar a oportunidade para agora vir a público denunciar mais uma atrocidade cometida mesmo à nossa frente. Este parece por vezes um concelho dominado por coronéis, que põem e dispõem sem dar satisfação a ninguém. Os mesmos que falam em democracia e em incrementar a participação dos cidadãos, quando convém suspendem a voz do povo e decidem sobre o seu futuro num monólogo dissimulado de diálogo entre os pares.
Durante meses esteve em construção na nossa vila o que se pode designar à escala local como uma mega-torre. Um edifício com critérios estéticos muito duvidosos e com o recurso a materiais que nos deveriam envergonhar, principalmente pelo desperdício energético que promovem. Horrores sobre os quais já deixei publicadas algumas palavras em anteriores registos. Mas, quando todos pensavam que esse seria o maior drama, eis que a conclusão da aberrante estrutura vem deixar a descoberto uma situação vergonhosa. Retirados os tapumes que escondiam a obra fomos capazes (Finalmente!) de descobrir que algumas das árvores que caracterizavam a Avenida João XXIII tinham desaparecido sem deixar rasto.
Não sei se o desaparecimento das árvores tinha alguma vez sido notado pelos habitantes de Nelas. Eu sou suspeito a falar sobre tal sumiço, pois só de passagem me reencontro com as nossas gentes e lugares. Acredito não ter sido o único apanhado nessa distracção. Não sei como foi possível, nem quem foi capaz de cometer tal acto ou de o facilitar fechando os olhos. Sei, isso sim, que com esse gesto desapareceu parte do nosso património vegetal e um dos emblemas da vila sem que nenhum de nós tenha sido chamado a dar a sua opinião.
É assustador o desinteresse que a árvore vem sofrendo nos tempos ditos modernos. Logo após a instauração da República o país festejou durante décadas a Festa da Árvore, uma festa que envolvia não apenas as crianças das escolas, envolvia igualmente as altas figuras da Nação e da sociedade civil. Mais de meio século depois a Festa da Árvore foi reinventada com a designação de Dia da Árvore, uma comemoração já sem a pompa e a celebridade de outros tempos. Um festejo meramente simbólico, sem o compromisso de respeito e glorificação dos valores naturais.
Este episódio do corte das árvores na Av. João XXIII teve outro desfecho num caso idêntico ocorrido em Abril de 1925 na estrada de Povolide, onde a câmara de Viseu dinamitou as árvores lá existentes. Ao contrário do actual silêncio, na altura alguns dos mais importantes intelectuais do país insurgiram-se contra o que apelidaram de um “acto de barbárie” levado a cabo por uns poucos. Em artigo assinado por Aquilino Ribeiro, Almeida Moreira e Samuel Maia, denominado “Desafronta aos beirões” e publicado no jornal O Século de 13 de Abril de 1925, estes afirmavam o seguinte: “A inteligência mais rudimentar entende que a eleição para um cargo envolvendo a administração de um património não confere o direito de submeter esse património a caprichos desordenados. Há sempre que respeitar a opinião pública, quando ela se manifesta, prevenir o consenso público sempre que se trate de inovações”. Mais adiante afirmavam ter sido aquele um acto praticado contra a “inteligência, contra o sentimento, contra o interesse colectivo, contra todos os princípios da moral governativa e ainda da boa educação”. Apontando para os poderes locais concluíam: “Estes homens são indignos da nossa confiança, porque atraiçoaram o mandato de zelar os bens comuns, a nossa dignidade e nome colectivo (…)”, fim de citação. Acrescento que o manifesto acima mencionado gerou várias reacções, sobretudo no Chiado, em Lisboa, onde foi organizado um peditório para que fosse angariado dinheiro para replantar no ano seguinte as árvores cortadas, intenção que foi concretizada. De salientar que para o sucesso da iniciativa muito contribuiu o próprio jornal O Século, que a ela se associou.
É desolador verificar que passados todos estes anos o nosso concelho regrediu, no respeito pelos outros e no respeito pelo património natural, que é de todos nós e não de quem quer decidir por si. Não quero com o recordar deste episódio acusar ninguém pelo corte das nossas árvores. Como repetidamente tenho defendido, sejam os poderes públicos, sejam os interesses privados ou corporativos, cabe ao cidadão estar alerta. Um cidadão passivo é pior que um moribundo, pois do moribundo já pouco se espera e do cidadão passivo guardamos a ilusão de um dia afirmar “Presente!”.
Por agora foram estas as matérias sobre as quais tive oportunidade de reflectir. Desejo num próximo registo deixar algumas palavras relativas ao colóquio que tive oportunidade de organizar no meu Observa (ISCTE / ICS-UL). Denominado “Autarquias, Ambiente e Qualidade de Vida”, serviu para apresentar publicamente alguns estudos realizados pelos meus colegas nos últimos anos, dois deles com relevância na vida autárquica: “Municípios, sustentabilidade e qualidade de vida”, que na prática é uma proposta de indicadores à escala concelhia – daí a importância de escrever algo sobre ele neste nosso Planalto; “Os Primeiros Autarcas do séc. XXI: Novas Estratégias Ambientais”, o qual na prática é um inquérito amostral aos autarcas portugueses sobre a implementação da Agenda 21 Local no país, 12 anos após a sua aprovação na Conferência do Rio. Faço votos para que a pausa prevista para o mês de Agosto me permita reflectir sobre estes estudos.

José Gomes Ferreira


publicado por José às 13:43
Quarta-feira, 05 / 01 / 05

Quem aprovou esta regionalização? (in Planalto 2004)

Nos últimos meses muito se tem visto decidir sobre a criação de “novas” áreas metropolitanas e de comunidades urbanas, cada uma delas, ao que parece, com competências próprias. Digo ao que parece, pois, muito tem sido dito e nada tem sido esclarecido. O caricato de tudo isto é que em alguns casos assistimos à discussão (porventura negociação) sobre onde irá ficar instalada a sede da futura estrutura administrativa, contudo não somos informados sobre que estrutura se trata. Nomeadamente, quais as suas competências e em que domínios as irá exercer, ou ainda, como se vão relacionar institucionalmente com as autarquias e qual o futuro dos Governos Civis e das Comissões de Coordenação de Desenvolvimento Regional?
Consta que as novas estruturas administrativas surgem no sentido de articularem a acção das autarquias em áreas de interesse supramunicipal, entre elas, os investimentos em sectores como o saneamento básico, a saúde, a educação, o ambiente, as acessibilidades e transportes, o turismo, a cultura, o desporto e o planeamento. Também se sabe que as novas entidades podem ser de dois tipos: as mais importantes são as Grandes Áreas Metropolitanas, as quais devem ser constituídas por um número mínimo de 9 municípios e pelo menos 350 000 habitantes; as outras são as comunidades urbanas, as quais devem integrar um mínimo de 3 municípios e pelo menos 150 000 habitantes. Mas tudo isto são apenas as formas que o processo virá a ter, nada nos diz sobre a sua aplicação no terreno. Em concreto, até agora parece que as novas estruturas apenas servem para renomear as anteriores associações de municípios e as suas competências.
Surpreende-me, ou talvez não, que os mesmos protagonistas que estiveram na linha da frente contra a regionalização, com consulta popular, venham agora, porventura suportados por laivos de solidariedade partidária ou pela conivência com algum do poder local, apresentar, não uma proposta de regionalização mas, a regionalização como facto consumado. A tudo isto se acrescentam os contornos do processo de escolha – porventura arbitrária, porventura conseguida em negociações entre as partes – de integrar esta ou aquela área metropolitana ou esta ou aquela comunidade urbana. Já para não falar da eventual exclusão de algum concelho de qualquer uma das estruturas administrativas. Num mundo que prima pelo individualismo não nos bastam os indigentes, poderemos ser contemplados com concelhos sem-abrigo.
Relativamente ao concelho de Nelas, naturalmente que tenho de concordar com a sua inclusão na Área Metropolitana de Viseu, outra coisa não seria de esperar, levando em linha de conta que a decisão dos governantes será, mais uma vez, irreversível. Esta parece vir a ser a única área metropolitana do interior, o que deve orgulhar os concelhos que a constituem, pois é sintomático da importância nacional da região. Por conseguinte, não devem é fugir a essa responsabilidade, para o que necessitam de trabalhar mais e melhor, aproveitando a vantagem de passarem a estar agregados numa estrutura que, bem vistas as coisas, deveria ser de nível hierárquico superior.
Como sabem, ou penso que sabem, sou um defensor da regionalização, principalmente face ao enorme hiato existente entre o poder central e o poder local (e na mesma ordem de ideias, entre governantes e cidadãos). Sem me querer colar à opinião de qualquer partido, até porque não me revejo em nenhum deles, custa-me como cidadão assistir à ausência, mais uma vez, de consensos mínimos numa matéria tão importante como esta. Umas vezes são as discordâncias sobre o mapa da regionalização e o surgimento de um pelotão de burocratas. Outras vezes, assistimos a tomadas de decisão unilaterais, sem o consentimento de quem quer que seja e sem qualquer visão integradora de todo o território nacional. Na minha opinião, o problema do mapa parece-me fácil de ultrapassar, dependendo da estrutura que se pretende e do território a que possa estar adstrita, basta que os políticos dos mais variados quadrantes estabeleçam um pacto sobre uma matéria tão importante como esta. Mas, não vamos alimentar ilusões, qualquer que seja o modelo a seguir necessitará de burocratas, sendo certo que quanto mais divisões forem feitas mais burocratas vão existir, nem sempre com correspondência directa no melhor exercício das suas competências.
As ambiguidades de todo este processo não se ficam por aqui. Alguém nos explica, se for capaz, como é possível defender esta regionalização e ao mesmo tempo, de modo a cumprir promessas eleitorais, apoiar a criação de novos concelhos? Penso que todos concordam que é óbvio que assim se esgotam os poucos poderes das câmaras, o que nos conduz a uma importante questão: “Para que servem num futuro próximo os concelhos?”. Se for apenas para agregarem freguesias, não servem para nada. A nível local, com este processo vai esgotar-se todo o esforço do movimento de elevação de Canas de Senhorim a concelho, talvez agora se perceba o desespero das últimas declarações públicas dos seus dirigentes. Também se esgota o próprio concelho de Nelas, que perderá a identidade em prol da região.
Ainda recentemente defendi a necessidade de serem repensados os concelhos, mas nunca me passou pela cabeça que iriam perder competências. A solução aparece mal equacionada, pois não devem ser os municípios a abdicar de competências, deve, isso sim, ser o poder central a atribuir algumas das suas actuais competências às novas estruturas. Em suma, o objectivo deve ser descentralizar e não (re)centralizar. Não quero com estas minhas palavras deixar de reconhecer que em algumas matérias as sinergias intermunicipais podem trazer benefícios operacionais a todos, todavia as actuais estruturas, com menor peso na despesa pública e, porventura, com a mesma eficácia, mostram-se capazes de desempenhar as tarefas que lhe forem destinadas. De nada serve uma regionalização que apenas se prevê que traga despesas acrescidas ao país.
Estas são algumas das minhas preocupações sobre as novas estruturas administrativas. As dúvidas que apresentei resultam, sobretudo, da ausência de informação, nem o recurso diário aos mais importantes meios de comunicação supriu essa lacuna. É em conta-gotas que um ou outro governante deixa escapar alguma informação, ou nos damos conta que determinada autarquia decidiu optar por esta ou aquela área metropolitana ou comunidade urbana. Mais uma vez continua sem existir informação concreta para o grande público e quando este se der conta será demasiado tarde. “De que nos falam os nossos políticos ao referirem-se vezes sem conta a participação e cidadania?”. É mais uma importante questão que fica sem resposta.

José Gomes Ferreira

publicado por José às 13:42
Quarta-feira, 05 / 01 / 05

Diferentes com direito a iguais (in Planalto 2004)

Quase às escuras, mas não pelos mesmos motivos de quem vou retratar, deixo neste nosso jornal algumas palavras sobre o exemplo de afirmação e convicção dado pelo Sr. Prof. Fernando Pereira, que limitado nas suas funções físicas não deixa de ter um importante papel na sociedade portuguesa. Falo às escuras porque não vi nenhuma das reportagens nas nossas televisões, nem o conheço pessoalmente. Pelo meu sobrinho, que aliás esteve presente nessas reportagens e directos, sei que é professor de Português e de História na Escola E.B. 2.3 Fortunato de Almeida, em Nelas. Paralelamente usa a música como forma de expressão, trocando sons por imagens que não pode ver, tocando horizontes com as notas das cordas, talvez pensando serem menos longínquos os céus que a realização dos sonhos. Através do projecto Fernando Pereira & os Stoures, pelo que me foi dado a entender através da consulta da página da Internet (www.escoladetodos.com), a música não se limita a ser uma paixão ou uma forma de expressão, a dimensão lúdica da música tem como esfera de intenções o enriquecimento e a facilitação das sociabilidades dos alunos.
Falo às escuras para me colocar em pé de igualdade com o retratado. Faço-o tentando imaginar quotidianos sem espreitar o azul dos céus, sem me deixar contagiar pela felicidade estampada nos rostos dos outros ou sem sentir no coração o palpitar de olhares ofegantes. Falo das dificuldades de alguém específico, todavia milhares de portuguesas e portugueses debatem-se todos os dias com problemas acrescidos, tantas vezes sem o apoio de ninguém, outras vezes com a sensação de serem vistos como “a coitadinha” ou “o coitadinho”, desabafo que acaba por resultar num “lavar as mãos”. Digo isto sem culpar ninguém, em vez disso uso como exemplo para todos o exemplo de luta e vida dado pelo Sr. Professor.
Não deveremos ter medo, teremos porventura algum pudor, em reconhecer que na sociedade moderna, tecnológica e competitiva, é promovida sem cessar a perfeição do homem. Sei que não é fácil de aceitar mas, silenciosa e lentamente, são promovidas expressões de eugenismo que nos lembram páginas dramáticas da história da Civilização. Por culpa da tecnologia (ou dos seus usos humanos), à semelhança do século anterior, o séc. XXI é também ele o século do corpo, por sinal um corpo que agora se assume cada vez mais em objecto da tecnologia. Estamos, por conseguinte, perante um corpo apenas assumido como matéria e é nessa condição que se presta a ser manipulado no sentido do belo e do sublime, rejeitando todos os outros moldes.
Não é preciso ser-se nenhum especialista para se reparar em algumas expressões de censura a que os corpos menos “perfeitos” se vêm votados. Se antes “gordura era formosura”, agora quem não consumir produtos light e não frequentar um ginásio pode enfrentar o olhar devorador da censura alheia. Semelhante exemplo é o da calvice, se outrora “era dos carecas que elas gostavam mais” agora, excepto se for um exercício de vaidade, a calvice é alvo de forte preconceito. Entretanto, o corpo, de tão exposto que é, já nada tem para revelar, é um mero artifício, produzido uma vezes por necessidade, outras vezes por mera vaidade de um sujeito que se aproxima do arquétipo do cyborg.
Este quadro de institucionalização de práticas sociais resulta (e porventura em alguns casos poder-se-à pensar que é o resultado) num conjunto de actividades aparentemente ao serviço do corpo. São exemplos as biomedicinas, que tanto permitem o nascimento, outrora negado, como o prolongamento da vida, mas também as cirurgias estéticas que permitem artificializar o que era natural. O mesmo se pode afirmar de algumas práticas de aborto, cujos objectivos passem pelo evitar do nascimento de bebés que depois se possam revelar um peso para os pais e um custo para os serviços de saúde de cada país. Não distante das biomedicinas surge a indústria farmacêutica e a cosmética. Num outro extremo aparece a produção e comercialização de produtos alimentares. Como agregadora de muitas destas actividades está a moda – a roupa, o desporto, o lazer, entre outras. Estes são alguns dos exemplos, a lista é infindável e vai sempre no sentido da procura da perfeição do homem-matéria, menosprezando tudo o que não corresponda a um homem-modelo.
Através destes e de outros exemplos fica a ideia de que quem não tem todos os predicados da “perfeição” poderá ser remetido para um lugar não lugar da sociedade. Curiosamente muitas vezes as tecnologias são adoptadas com o argumento da promoção da cidadania, ora, o que na prática se pode constatar é que algumas opções na era das tecnologias acabam por acentuar as diferenças e promover a exclusão. Assim vemos os idosos serem colocados em lares, alguns deles a fazerem lembrar os outrora asilos, com o que a designação tem de depreciativo. Embora o termo lares não possua a carga negativa do passado, contudo a recente avaliação feita pelo Ministério que os tutela dá uma clara ideia de como são hoje tratados os idosos. Mas não são apenas os idosos a serem remetidos para lugares marginais da sociedade contemporânea. Talvez de forma ainda mais grave as pessoas com deficiência, física ou outra, em poucos casos conseguem ver reconhecido o seu lugar como cidadãos. Muitos exemplos se poderiam dar sobre as limitações à dignidade de todos os homens, sugiro apenas dois deles, com a triste virtude de serem comuns a muitos cidadãos deficientes.
O primeiro dos exemplos a que me refiro dá conta das dificuldades de acesso ao mercado de trabalho, importante para a sobrevivência material de cada um e também para a realização das suas ambições e expectativas. O segundo exemplo é exterior aos contextos de sociabilidades do cidadão com deficiência, contudo atravessam de forma estrutural o seu dia-a-dia, refiro-me à falta de planeamento das cidades, vilas e aldeias, como se sabe nada apropriadas a todos os cidadãos. Se nas ruas são as barreiras físicas, o estacionamento automóvel sem regras, os buracos e o lixo, no interior dos edifícios, com relevância para os públicos e para os espaços de cultura, a falta de planeamento ou a ausência de soluções posteriores dificultam ainda mais as acessibilidades no dia-a-dia.
Muito se fala em solidariedade para com a pessoa deficiente, a prática continua a ser o que sempre foi, ou seja, pouco ou nada significativa. O deficiente não é tido na sua autonomia, nem considerado uma pessoa com a sua própria dignidade, ambições e com um papel social igualmente importante. Ainda assim o pouco que tem sido feito – muito a exemplo do contributo na primeira pessoa do Sr. Professor Fernando Pereira – é só por si motivo para se ter esperança num futuro melhor, mas muito mais é ainda necessário fazer. Acredito que precisamos não apenas de políticas capazes de promoverem o que é comum designar-se como discriminação positiva, mais importante ainda é a necessidade de se mudarem as mentalidades e se afastarem preconceitos mesquinhos. Acredito que só a mudança de mentalidades conferirá a ao cidadão com deficiência, como a qualquer outro, o seu devido lugar na sociedade portuguesa, não um lugar à parte, antes sim, o lugar de cidadão de pleno direito. Em suma, o lugar de diferente a quem deverá ser reconhecido o seu estatuto de igual.
Não termino este meu breve artigo sem deixar uma nota de pesar pela morte do Sr. José Matias, o oleiro do Folhadal, cuja notícia da sua perda me deixou consternado. Uma triste perda para a aldeia e para o concelho, pois, não se perde apenas mais um habitante, perdeu-se uma instituição difícil, porventura impossível, de substituir. Se bem se lembram no ano passado dediquei um artigo aqui no nosso Planalto ao nosso oleiro e ao seu papel na preservação de tamanha herança. Embora não lhe restitua a vida sinto-me honrado pelo facto das minhas palavras e fotografias documentarem a passagem por nós de cidadão tão ilustre. E são uma prova de que o valor social de cada um não se mede pelo poder, pelo dinheiro, pelos títulos académicos ou qualquer outro atributo material que se diga possuir. Antes sim pela sua capacidade de entrega aos outros e a causas comuns. Lamento que em vida nada tenha sido feito para dar sequência à sua obra, acredito que em nós ficará a sua memória.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 13:41
Quarta-feira, 05 / 01 / 05

Primavera silenciosa (in Planalto 2004)

Uso para rosto deste artigo o título de uma das obras mais emblemáticas quanto à relação homem-natureza e aos efeitos nefastos desse mesmo homem nessa mesma natureza e na sua própria saúde. Estou a falar do clássico Primavera silenciosa, de Rachel Carson, que, se a memória não me falha, foi editado pela primeira vez na sua versão original em língua inglesa em 1962. Essa obra alertava pela primeira vez para os perigos do uso dos pesticidas na agricultura. Aqui a minha preocupação será outra. De modo prioritário, quero falar-vos acerca de algumas questões locais que irradiam um silêncio fétido e preocupante. Ainda que o uso de pesticidas por todos nós, ao longo dos anos, deva só por si ser motivo de preocupação ou pelo menos de estudo.
A primeira das questões de que vos quero falar não é apenas local, é um drama nacional. Refiro-me ao clima de insegurança e impunidade em que o país tem vindo a ser mergulhado. Não nos bastam as ameaças do horror terrorista, por vezes aqui tão perto e para nós ali tão longe (porque a dor dos outros não é a nossa). Como devem perceber, estou a falar da onda de furtos recentemente registada. Com tudo o que tem acontecido pelo mundo fora e entre nós somos levados a pensar que a Civilização entrou num período de retrocesso, sobretudo, tendo em conta que um dos aspectos que distingue um Estado moderno de qualquer um outro é o facto de ser este a possuir o controlo dos meios de violência. Ora, o que na prática ocorre é que os Estados estão a perder cada vez mais esse seu atributo.
Internamente, regressa o fantasma da justiça popular, uma afronta ao estado de direito e, mais ainda, uma afronta às instituições. Gera-se aqui um paradoxo, uma vez que, curiosamente, é a ineficácia das instituições que fomenta e alimenta a ideia da justiça popular. Por exemplo, neste drama dos assaltos o que na prática tem ocorrido, de norte a sul e agora também na nossa terra, é que irrompem em catadupa nas nossas vidas sem que se veja nenhuma acção eficaz no combate a esse flagelo. Um processo a revelar uma clara falta de capacidade de intervenção por parte de quem deveria intervir. Umas vezes é a falta de meios, outras a falta de preparação dos profissionais, outras então a falta de coordenação, desculpas não faltam. Aí surge, então, o fantasma da justiça popular, achando os seus protagonistas que vão ser capazes de resolver os problemas pelas suas próprias mãos. Embora não simpatize com este ideia reconheço que o desespero possa mobilizar as pessoas para áreas que não lhe estão atribuídas, espero por isso que sejam as instituições a evitar estes extremos errantes
Talvez mais grave ainda é quando os criminosos são apanhados e depois a culpa não é formada. Face a uma justiça tardia e, pelo que cada mais se escuta, injusta, não cessa de aumentar o sentimento de impunidade. Como disse publicamente um mediático advogado: “Em Portugal, quem tem estatuto social e político e poder económico, safa-se sempre”. Isto para não falar nos tribunais a abarrotar e nos processos que prescrevem sem ser feita justiça.
Sobre a nossa terra e o clima de insegurança a que se viu submetida resta-me pedir a todos para não facilitarem. Lá diz o ditado: “A ocasião faz o ladrão”. Longe vai o tempo em que se podiam deixar abertas as portas das casas. Mesmo assim, se algo ocorria lá existia o bode expiatório de sempre, mas à custa dele muitos devem ter ficado regalados. Naturalmente que não deixo de alertar as autoridades com algumas responsabilidades para as assumirem, entre elas a GNR. Pois é esse o seu papel, garantirem a segurança dos cidadãos e o estado de direito, se assim não fosse estaríamos num país de pistoleiros. Infelizmente nem a nossa terra, de algum modo tranquila numa certa pacatez, escapa à perversão das mentes criminosas.
A segunda questão que me levou a deixar estas palavras para os leitores é já uma questão de política local clássica, mas também muito à semelhança do que se passa com o próprio país. Refiro-me ao seu excessivo pendor centralista, com visibilidade depois na sua macrocefalia, ou seja, a persistência da ideia de que “o país é Lisboa e o resto é paisagem” teima em concretizar-se na vila de Nelas. Os exemplos não param, alguns deles capazes de alcançarem impacto nacional, neste caso fico-me com o que para muitos pode ser um pormenor, mas para mim é uma questão de postura dos responsáveis políticos locais face às populações.
A capa do número de dia 1 de Abril do nosso Planalto dava destaque à iluminação pública na Av.ª António Monteiro, de ligação do Folhadal a Nelas. Não deixo de expressar a minha satisfação pela magnificência da iluminação da dita avenida, contudo, não deixo de expressar, igualmente, a minha indignação. Como se pode reparar a iluminação apenas serve os interesses da vila, pois após a última rotunda reina o breu e o jejum. Felizmente o Folhadal tem atributos próprios e não se fina perante esta afronta. Tem boas gentes, é um lugar com uma esplanada sobre o coração da beira, tem o céu iluminado pelas estrelas, neste último caso ao contrário da vila que se ilumina com partículas incandescentes libertadas na combustão dos seus maiores ícones (desenvolvimento a quanto obrigas!).
Não fosse a dependência energética do país – das reinantes energias fósseis, diga-se – e a iluminação pública seria sinónimo de modernidade. Com tantas energias que a natureza nos dá, com destaque para a solar e a eólica, vivemos na terra da abundância e do desperdício. É lamentável que não se recorra a uma dessas opções, talvez assim as luzes que iluminam a avenida fossem capazes de pelo menos iluminar o largo do cemitério ou então fossem capazes de acompanhar toda a Estrada da Felgueira até terminar o Folhadal. Seria uma atitude reveladora do maior respeito pelos seus habitantes.
Apesar desta imagem negativa nem tudo no nosso concelho é mau. Uma outra ideia de primavera silenciosa parece querer brotar. Por ela e pela esperança num amanhã melhor termino o meu artigo com merecidas palavras de apreço para com algumas boas mudanças que lentamente ocorrem., como se a permanência não fosse apenas sinónimo de atraso, fosse, antes de mais, cuidar do passado e garantir a sua manutenção para os nossos herdeiros (futuros) ou para os actuais visitantes das nossas terras. Convicto da necessidade dessa esperança menciono, igualmente, dois exemplos.
Congratulo-me com o anunciado projecto para a transformação da Quinta da Cerca num parque ecológico, um espaço projectado para cumprir a dupla função de educação ambiental e procura de novas vocações, com é o caso do turismo ambiental e cultural. Reconheço, desde já, a prestação positiva da autarquia em todo o processo, que se espera venha a assegurar os sempre necessários financiamentos. Tenho por hábito fazer alusão às gerações futuras e este é marcadamente um passo importante na preparação do futuro, numa perspectiva de médio prazo. São de louvar as iniciativas em prol da educação ambiental. E se neste caso a encaro, basicamente, como destinada aos mais novos, os adultos também dela necessitam. Por exemplo, muitas pessoas teimam em não utilizar o ecoponto ou a fazerem-no mal, não sei se por teimosia, se por resistência, se por ignorância, se por ausência de campanhas de sensibilização ou se por falta de informação. A verdade é que o fazem. Porque não mudar? Um pequeno gesto nosso em cada dia equivale a um dia melhor para todos nós. Mas tudo isso é um processo de aprendizagem.
Outra notícia que me cabe louvar é a referente ao anunciado circuito ciclo-pedreste a criar no concelho, que a concretizar-se será uma importante mais-valia (caso não se concretize será apenas uma mentira do primeiro de Abril, mas recorrente na política). Mais do que uma estrutura destinada ao desporto e lazer uma obra destas é um excelente catalisador para promoção da mudança de mentalidades, principalmente porque permite que se acabem as desculpas e os medos para o cidadão não fazer ou não saber. Trata-se de uma estrutura capaz de complementar de forma subtil o esforço feito no futuro Parque Ecológico da Quinta da Cerca, talvez com a vantagem de ser mais aberta a todos.
Depois do anúncio destas estruturas, ao nível das grandes estruturas ficará a faltar um parque de campismo, preferencialmente junto às termas das Caldas da Felgueira e ao rio Mondego. Se um dia se avançar com ele, colocará a região em definitivo na rota do turismo natureza. E, claro está, falta-nos um Museu Municipal, Etnográfico, o nome pouco importa desde que seja um reservatório da cultura popular. Estes laivos de esperança permitem-nos acreditar que a primavera silenciosa poderá corresponder à edificação de um concelho melhor. Mas se tudo isto são coisas boas, muito falta ainda fazer. Da parte que me toca vejo com optimismo a obra feita mas, como não simpatizo com o cruzar dos braços, reafirmo que deveremos avançar e trabalhar mais e melhor em prol de todos.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 13:40
Quarta-feira, 05 / 01 / 05

A doença da Saúde (in Planalto 2004)

Não é necessário grande esforço para se concluir que, a cada dia, um direito inscrito na Constituição se revelar um direito adquirido não concretizado. Exemplos não faltam. Sirvo-me apenas de um deles, num apontamento que procura ir ao encontro dos anseios e inquietações dos utentes do Centro de Saúde de Nelas. Como podem deduzir estou a falar no acesso à Saúde, evocado na sua expressão local, mas com episódios semelhantes neste Portugal que se reivindica de moderno – pelo menos a julgar pelos festivais de música e pelos torneios de futebol que organiza.
Embora fosse minha intenção ter deixado já algumas palavras sobre a turbulência diária no Centro de Saúde só agora o faço. Todavia, por mera coincidência, não poderia escolher ocasião mais apropriada. Vivemos momentos em que o Ministério da tutela parece interessado em actualizar as listas de doentes e a respectiva distribuição pelos médicos de família. Numa primeira leitura direi que se trata de uma decisão louvável, pois, permitirá melhor gerir os utentes face aos recursos médicos disponíveis, ao ponto de se falar em deslocação geográfica de alguns profissionais. Infelizmente a ideia de actualizar os doentes nas listas dos médicos de família não vem só, mesmo com alguns desmentidos o que mais se ouviu falar ultimamente foi da possibilidade de não serem apenas actualizadas as listas. Muito se tem falado sobre a vontade de alguém, seja com que critérios, “abater” das listas os indivíduos “saudáveis” que não recorreram ao seu médico nos últimos três anos. Uma intenção sem qualquer sentido de equidade e que revela um enorme desconhecimento das necessidades do país. Na verdade, colocar em prática uma medida dessa natureza necessitaria de ver implementado um modelo de segurança social capaz de se constituir como alternativa ao actual. Nomeadamente, capaz de permitir ao utente optar por um ou outro modelo. Sem essa alternativa tudo o que se disser será pura demagogia. E a concretizar-se representará um gesto danoso dos direitos dos utentes.
Apesar deste enfoque anteriormente não previsto recupero agora o motivo principal deste meu breve artigo. Mais uma vez recorro a realidades não por mim vivenciadas mas a testemunhos transmitidos através de diversos meios. Falo mais com o conhecimento de algumas realidades próximas, semelhantes às que me foram relatadas, não me fixo, no entanto, no que me foi transmitido, sem que com isso me afaste da realidade quotidiana de muitos dos utentes do nosso Centro de Saúde. Em Nelas e um pouco pelo país, vivemos num labirinto de promessas vãs e políticas tantas vezes desajustadas, outras vezes mesmo obsoletas, que retiram ao cidadão o pouco que lhe pertence – acima de tudo, o direito de ser respeitado na sua integridade. Só o desrespeito por esse direito permite entender porque motivo se vê esquartejado e empurrado para a calada da noite para conseguir obter uma consulta para si ou para um familiar ou amigo seu na manhã seguinte. Sem que saiba se chegará a tempo de a conseguir.
É humilhante só de pensar que muitos dos utentes deste como de outros Centros de Saúde – diria de doença – passam a noite inteira na expectativa de obter uma consulta com o seu médico de família. Até onde chegou o respeito das instituições públicas ou privadas pelo próximo?! Num concelho e num país em nítido processo de envelhecimento, assim se tratam os que trabalharam a vida inteira e os enfermos. Estar doente parece ser um luxo ao qual nem todos se podem dar, coitados de nós, corremos o risco de sucumbir antes de serem prestados os primeiros cuidados. Para agravar o problema, lamentavelmente a figura do que ainda se chama médico de família não passa de uma memória do passado, reabilitada por mera necessidade figurativa, sobretudo porque aos profissionais é deixado pouco espaço de manobra, dada a enorme quantidade de doentes que são colocados ao seu cuidado.
Sem querer entrar em polémicas não deixo de contestar a pouca dedicação pública de alguns profissionais, desdobrados entre consultas no Serviço Nacional de Saúde e a sua actividade privada. Muito se poderia dizer sobre a questão da exclusividade ou não, contudo essa discussão caberá em primeiro lugar aos profissionais, ou aos seus representantes, e aos representantes do Ministério, sem que esqueçam que a opinião pública, porque é ela que vai ser servida, deve ter uma palavra a dizer. Mesmo assim não deixo de manifestar a minha descrença, pois, por muito que nos custe estou convicto que os poderes instituídos em qualquer esfera social dificilmente cedem o seu lugar, face ao risco de se verem confrontados com outros ou mesmo de se verem subalternizados por estes.
Entre o predomínio de poderes e a inconstância das decisões políticas o país vê-se reflectido no modo como trata os seus doentes e os seus idosos. Revela ser incapaz de curar, revela também não ter coragem para implementar medidas preventivas e, porque não, de medidas paliativas, num esforço de apoio a todos aqueles que se encontram no próprio limiar da vida. Veja-se a timidez com que se tem falado em medidas anti-tabágicas, nem a lei actualmente em vigor é cumprida nas instituições públicas. Lá por fora bons exemplos não faltam. A Irlanda deu o mote no momento em tinha à sua responsabilidade os destinos da União Europeia. A cada dia pelo mundo todos se preocupam com as doenças que podem atingir gerações inteiras, nós portugueses, atlânticos e pequeninos, pensamos estar livres desses problemas. Um motivo para regozijo apenas válido até serem efectuados rastreios à população.
Veja-se, igualmente, o que tem sido feito quanto a uma rede nacional de cuidados continuados, prometida foi, não parece é que tenha sido concretizada. Se bons exemplos existem, ainda que poucos, são fruto da dedicação de alguns profissionais e voluntários que fazem da dor dos outros uma causa sua, outras pessoas preferem escolher o caminho mais curto – o da eutanásia como única solução. Um dado parece certo, cada vez mais as doenças do foro oncológico não escolhem idade, raça ou credo, irrompem em forma de dor no interior das famílias. Uma invasão da tranquilidade familiar que obrigará a que qualquer intervenção a levar a cabo deva incidir não unicamente sobre o doente, até porque lhe restam poucos meses de vida, mas também sobre a sua família ou sobre o seu cuidador. E que se deverá prolongar, sempre que necessário, durante o luto.
Sem cair no habitual lamento sobre o país não posso deixar de expressar a minha indignação face à sua capacidade de curar, prevenir e cuidar dos seus doentes. Não por falta de dedicação da maioria dos seus profissionais mas, sobretudo, pela falta de adequação das medidas e políticas a quem devem servir. Como em todas as dimensões da vida política e social, políticas e cidadãos não devem no sector da Saúde continuar teimosamente de costas voltadas. Se assim for, quem protege os cidadãos?

José Gomes Ferreira
publicado por José às 13:40
Quarta-feira, 05 / 01 / 05

Relembrar 2003 (in Planalto Janeiro 2004)

O ano de 2003 pode em boa verdade ser classificado como o ano de todos os sofrimentos. No plano internacional, sem ignorar os efeitos da crise económica e a segunda guerra do Iraque, que culminou com a ida de soldados da GNR para aquele país, foi marcado por graves acontecimentos. Um dos mais importantes acontecimentos foi a pneumonia atípica, que afectou principalmente a grande China e o Canadá. Entretanto, a maré negra provocada pelo afundamento do petroleiro Prestige na Galiza prosseguiu os seus efeitos, chegou mesmo a afectar a costa francesa, sendo certo que sem o problema resolvido o futuro continua incerto. No fechar do ano merece ainda todo o destaque um acontecimento dramático. Falo com tristeza do sismo que derrubou uma cidade inteira no Irão (Bam), em resultado do qual milhares de vidas se perderam - as estimativas apontam para 40 mil mortos. Aos leitores não sei, pessoalmente os sismos causam-me pavor e num caso desta amplitude mostram que o homem pouco é face ao poder imenso da natureza, resta a esse mesmo homem criar as condições para que o sofrimento seja o menor possível. Nesta matéria Portugal esquece que está numa região de risco, por isso cada dia é um dia de aflição.
Outro destaque do plano externo vai, não para um acontecimento como os restantes mas, para um problema do foro meramente político, falo das alterações climáticas e da assinatura ou não pelos EUA e pela Rússia do chamado Protocolo de Quioto sobre a mesma matéria. Se os leitores pensam que a questão pouco tem de relevante estão muito enganados, sobretudo porque não é apenas um questão ambiental, é a prova provada que o ambiente atravessa todas as esferas. O nosso país parece nestes últimos meses ter despertado para o problema, a Confederação da Indústria Portuguesa tem-se mostrado preocupada com as prováveis falências nas indústrias, pois se as empresas não conseguem reduzir as emissões, porventura porque não têm meios para o fazer, a “solução” será o encerramento. O Governo parece também ter despertado. Seja como for, o problema mais grave nem é o da indústria (de tão pouca que é), são bem mais graves os efeitos do trânsito das grandes cidades e o desordenamento do território (para não falar nos malditos efeitos do confortável ar condicionado). No caso português o que é mais grave é que as emissões previstas em Quioto já foram ultrapassadas, sabem qual vai ser o remédio? Entrar no mercado de emissões. Sabem quem vai pagar tudo isso? Nós todos. Andou o país a poupar o que não tinha para em Janeiro de 2005 começar a pagar pelo que não fez.
Em 2003 a nível interno diversas temáticas atravessaram a sociedade portuguesa, destaco em primeiro lugar a crise dos nitrofuranos, um caso suscitado pela vontade de alguns empresários avícolas apostados em retirar o máximo de lucros das suas explorações, sem se preocuparem com os mais que prováveis efeitos sobre a saúde pública. Este foi um caso que chegou a envergonhar Portugal perante a União Europeia e a deixar cada vez mais o consumidor em dúvida sobre que produtos consumir. Felizmente nestas situações muito se fala em agricultura biológica, agricultura de protecção integrada, ou rótulos como o de denominação de origem, ainda muito embora não se assumam totalmente como alternativas, perante a impossibilidade de satisfazerem um mercado de massas, pelo menos alertam para a necessidade de se mudar as práticas e os hábitos de consumo, ainda que o preço a pagar na hora seja maior, mas a saúde de cada um agradece.
Logo após a polémica dos nitrofuranos um outro acontecimento levou a destruição e morte a muitas famílias portuguesas, provavelmente numa escala nunca imaginada. Estou a falar dos incêndios que sensivelmente a partir de 29 de Julho reduziram a nossa floresta praticamente a cinzas, num primeiro momento no Centro do país e no Alentejo, vindo depois a atingir no Algarve. Entre as causas mais prováveis estiveram: as naturais, ajudadas por elevadas temperaturas, a vaga de calor de que tanto se falou; a mão humana; o progressivo abandono dos campos; o desprezo com que tem sido olhada a floresta nacional, tanto pelos governantes, como pelos empresários florestais e pelo cidadão comum; a falta de coordenação e a falta de meios no combate aos sinistros, com destaque para a inércia funcional resultante da fusão, entre outros organismos, do Serviço Nacional de Bombeiros e do Serviço Nacional de Protecção Civil. Sem se esquecer que a prevenção deveria ter sido a primeira e verdadeira política a seguir, mas o português é bem conhecido por ser o desenrasca, o problema é que a tragédia dos incêndios que afectaram o país no Verão de 2003 não ficou solucionada com a lógica do desenrasca, por conseguinte, apenas sobrou o desespero onde havia dor e destruição.
Sem dúvida que a polémica dos nitrofuranos e a tragédia dos incêndios foram dois factos que estiveram sempre na ordem do dia no momento em que ocorreram, fazendo a abertura dos telejornais ou merecendo honras de primeira página nos jornais. Descendo de escala dois assuntos houve que, muito embora numa escala local, também deram origem a notícias nos meios de comunicação publicados à escala nacional. Refiro-me à larga divulgação que mereceu toda a controvérsia sobre a elevação ou não de Canas de Senhorim a concelho e ao rastreio a alguns dos antigos mineiros da Urgeiriça, motivado pelos prováveis efeitos na saúde da radioactividade das velhas minas. Infelizmente nenhum deles ainda encerrado.
Ao nível estritamente local relembro alguns assuntos que eu próprio a seu tempo agendei e fiz questão de sobre eles falar neste nosso Planalto. É com pesar que afirmo que não imagino o que se passa com o edifício do antigo Ciclo Preparatório, que como disse seria o espaço ideal para instalar o que poderia, ou deveria, ser o Museu Municipal, por nada saber quanto a essa questão nada posso adiantar, pelo que confirmei ainda se encontra à venda. Por certo que ao nível local muito haveria para dizer, basta olhar para a vila, que a cada dia se parece mais com uma cidade mineira do início da Revolução Industrial – poluída e desordenada – matérias que até hoje ainda não abordei, mas nunca é tarde. É o progresso, dizem. Estranha ideia de progresso, digo.
Sobre as outras questões, para não me limitar a uma lista exaustiva elejo apenas dois exemplos, acompanhados com fotografias alusivas ao momento em que escrevo o artigo. Os dois exemplos permitem verificar “o que mudou” e “o que permaneceu na mesma” em 2003 no nosso concelho. Têm a virtude de serem exemplos fotográficos e, como é do conhecimento geral, a imagem fala mais alto que algumas palavras e tem maior impacto.
O que mudou em 2003
Se bem se lembram no terceiro trimestre de 2003 tomei a iniciativa de publicar um artigo sobre o escândalo da utilização do campo de tiro como lixeira a céu aberto. Pois bem, as imagens são claras, após a publicação do artigo algo foi feito. A imagem não nos diz mas se forem ao local percebem que foi apenas uma mera intervenção cirúrgica, logo, não preventiva, deixando cicatrizes visíveis por tempo indeterminado, uma vez que o lixo não foi propriamente retirado, mas antes arrastado pela colina abaixo. Mesmo assim é de louvar a iniciativa. O campo de tiro encontra-se agora limpo e com a entrada condicionada, e com uma placa a indicar que é “Proibido vazar entulho”. Todos nós ficamos a ganhar com esse gesto, foi uma vitória da cidadania sobre a apatia. Uma coisa parece já ser certa, teremos de continuar atentos, até pelo que me foi dado observar os prevaricadores estão agora apostados em despejar os detritos noutros pontos, a cerca de meio quilómetro mais acima num troço da estrada velha. Só com a atenção de todos e a aplicação de pesadas multas estes atentados ao que é de todos nós podem terminar.
O que foi ignorado em 2003
Mais uma vez, teimosamente, sem querer acusar ninguém aproveito o poder da imagem para insistir na necessidade de ser condicionada a acção humana numa pequena área que circunda as sepulturas antropomórficas existentes lá para os lados da Rua do Pombal/Largo do Colóquio. As ditas sepulturas podem não ter grande valor nem ser bonitas para os outros, mas para o concelho, de modo geral, e para o Folhadal, em particular, são partes do seu passado que deveriam merecer outra sorte. As imagens são bem explícitas, o que se assiste é um persistente crime contra o nosso passado. Estes não me parecem ser modos sensatos de cuidar do local de repouso dos nossos antepassados mais longínquos. Não culpo quem estaciona praticamente em cima das sepulturas, nem quem sobre elas coloca tijolos, culpo, isso sim, quem nem o espaço limpa, nem tem qualquer ideia em mente para o local, pelo menos a julgar pelas intervenções não levadas a cabo. Por mim – e, penso, pela grande maioria dos habitantes do Folhadal – peço apenas que o espaço seja devidamente cuidado e assinalado, podem até reduzir a faixa de terreno onde estão inseridas, para permitir obter lugares para estacionamento, mas, POR FAVOR, nos metros quadrados que restem façam alguma coisa: coloquem relva, plantem uma árvore, coloquem uma placa identificativa, seja o que for, FAÇAM!
Estas foram em síntese algumas das questões em agenda no ano de 2003 nos diversos planos: internacional, nacional e local. Termino com um desejo, que neste novo ano cada cidadão não abdique de participar em todos os processos para que é solicitado ou nos processos em que acha que o deve fazer, que seja capaz de ir para além de protagonismos em conversas de café. Pela minha parte, reconhecendo as minhas limitações e prováveis falhas, estarei sempre disponível para fazer algo mais pela nossa terra. Resta-me desejar a todos que 2004 seja bem melhor que o ano anterior. BOM ANO.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 13:39
Quarta-feira, 05 / 01 / 05

Aleg(o)ria de Natal (in Planalto 2003)

Como por magia chega mais um Natal. Nesta quadra cidades, vilas e aldeias enchem-se de luz e esplendor. As crianças quase negociam o presente que desejam, os adultos atafulham de ilusões os grandes espaços comerciais e as pequenas lojas. As estradas ficam subitamente bloqueadas perante o vai e vem dos portugueses de um lado para o outro, não tardará partem das grandes centros rumo à chamada “terra”. Em breve a família alargada se unirá, para que assim se cumpra a magia, feita com as alegrias dos corações nos momentos de reencontro e de permanência.
O Natal é também feito de memórias. O frio dos primeiros dias do mês de Dezembro lembra tempos e festejos idos, em que as famílias se aconchegavam no carinho da lareira. Tempos em que se aproveitava para descansar do frio que tido invadido o corpo na apanha da azeitona, tempos também dos enchidos a preencherem a casa de esperança, e em que nas noites longas ao calor da lenha se recordava com saudosismo todos os que já tinham partido, mas que permitiam aos mais velhos recuperar quotidianos, gentes e lugares.
Em contextos como o nosso, o Natal assume-se enquanto momento de exaltação dos laços de família e das redes de sociabilidade. Em contraponto, nos meios cosmopolitas o Natal viu-se reduzido a um mero lugar de troca, principalmente das prendas que agora não se penduram na chaminé mas se escolhem criteriosamente e se entregam em mão, muitas vezes como instrumentos de uma verdadeira acção de marketing. Assim se tecem as relações entre instituições e profissões, do mesmo modo assim se modelam as relações de consanguinidade. Enfim, esta é a quadra da solidariedade, expressa em diversas formas.
Na nossa terra, felizmente, o Natal é mais do que a festividade em si, com os seus próprios rituais. Acima de tudo é um ritual de união da família, consagrado sobretudo na noite da consoada e no almoço do próprio dia. E em alguns casos na missa do galo ou na missa do dia, embora a missa do dia seja, em parte, um ritual consagrado a um primeiro momento de sociabilidade, com visibilidade no traje que se guardou para o momento e na cumplicidade vivida na passagem de quase todos os habitantes da aldeia pelo largo onde arde a fogueira alusiva às festividades. Mesmo os que, por algum motivo, não participem na eucaristia de Natal é certo que mais tarde vão encontrar oportunidade para se deslocarem para junto dos troncos que ardem no largo.
Se a casa é o lugar da família, a capela o lugar da fé, da festa religiosa e a primeira oportunidade de sociabilidade, o largo da aldeia com a sua fogueira é o lugar das sociabilidades por excelência, lá se juntam ricos e pobres, adultos e crianças, habitantes, familiares não residentes e convidados. O largo funciona também como estruturador dos papéis sociais. Tem a particularidade de ser basicamente um lugar de sociabilidade masculina, onde os homens se assumem como que porta-vozes da família. Às mulheres continua a ser reservado um outro papel, o de em conjunto preparem o almoço e de assim facilitarem mais um reencontro de todos.
É junto à fogueira que se trocam as primeiras palavras, é também junto à fogueira que os que partiram para lugares distantes recuperam amizades e laços de vizinhança. Depois, quase à mesma hora, todos partem para junto dos seus, trocam até à derradeira encruzilhada as últimas sílabas da manhã. Alguns partilham o aperitivo para o almoço, quer nas tabernas, quer por vezes em casa. Note-se que o convite para um vizinho tomar um aperitivo em casa, embora feito pelo homem, passa pela confirmação da dona da casa, com um cordial “Entre Sr. António, venha beber qualquer coisa!”. Por norma o almoço é em família, alargada nomeadamente pela presença dos filhos e filhas, das noras e dos genros, e dos netos e das netas.
Horas mais tarde os habitantes hão-de voltar ao largo, como que convictos de que as sociabilidades na aldeia não iludem a permanência. Entretanto, os filhos da terra agora distantes partem em direcção ao destino que os trouxe. Os que ficam recuperam tradições e conversas. Os que partem desejam permanecer e, tantas vezes, impedir a contingência da fuga necessária, mas as suas vidas são também feitas de outros lugares e outras sociabilidades. Antes de partirem, em vez de lágrimas e constrangimentos, preferem sentir mais uma vez as fragrâncias da terra e do pinhal. Respiram fundo silenciosamente! Com esse gesto escondido querem fortificar a ambição de regresso e de constância. Antes que tudo isso aconteça ambos esperam tornar inalteráveis tantas outras festividades natalícias.
Mais uma vez como por magia se cumprirá o Natal. Para todos os amigos e leitores deste nosso Planalto deixo uma ideia de Natal que, felizmente, ainda se concretiza na nossa terra, embora a sua virtude vá sendo dissimulada por objectos e rituais pouco característicos desta quadra. A ideia de Natal que aqui quis deixar não é a de um Natal de luxúria e esplendor. Em vez dessa ilusão escolho a ideia de festa, de familiaridade, e a de reforço dos laços de vizinhança e da manutenção das redes de sociabilidade. São estas ideias as associadas ao Natal, associadas à ideia de reprodução dos laços que nos unem e ao seu fortalecimento.
Não termino sem desejar a todos um BOM NATAL e que o ANO 2004 nos traga muitas alegrias. Votos sinceros de BOAS FESTAS.

José Gomes Ferreira

publicado por José às 13:38
Quarta-feira, 05 / 01 / 05

Este património que nos resta (in Planalto 2003, sem fotos)

Mais uma vez uso a palavra escrita para insistir que nos cabe a todos nós, sejamos autarcas, empresários, agricultores, profissionais liberais, operários, donas de casa, encarregados de educação ou cidadãos, na sua formulação mais genérica, lutar pelo cuidar da nossa herança cultural e patrimonial. Mais, ainda, acredito que é nos contextos locais que se joga o nosso futuro. Não vale a pena dizer que não é connosco, pois somos todos responsáveis e enquanto tal deveremos participar no esforço de melhor decidir o futuro. É tempo de mudar e essa mudança envolve-nos a todos, só assim se promoverá a preservação da nossa herança cultural, testemunho vivo do passado, no presente, a legar às gerações vindouras.
O nosso concelho, com a riqueza natural e patrimonial que o caracteriza, tem tudo para ser um local de atracção, contrariando a tendência do país, de concentração em duas grandes Áreas Metropolitanas – Lisboa e Porto –, tarefa que exige pessoas empreendedoras e com uma visão de futuro. Estamos no coração do Dão, mais um motivo para se ter orgulho nas nossas gentes, nas nossas aldeias e vilas, sem esquecer que a nossa história, bem expressa através de monumentos vivos, faz parte de nós e assim deverá permanecer para quem no futuro por cá ande. Incumbe-nos honrar e dignificar as nossas heranças, é nossa responsabilidade enquanto cidadãos fazê-lo. Não vamos mais uma vez virar as costas.
Em alguns momentos confesso algum desalento face à letargia vivida na nossa terra, ante momentos em que as nossas memórias e os nossos anseios por um mundo melhor são interrompidos por avassaladores sobressaltos, sem que se entendam os motivos da supressão da glorificação de um ideal-tipo de vivência em comunidade com respeito pelas heranças culturais. Como se pode constatar nas fotografias é desse desalento que vos falo, cujo epicentro se localiza na própria sede do concelho de Nelas.
Caros Amigos! É de palavras e imagens que me sirvo para expressar publicamente a minha profunda tristeza e indignação face ao estado de abandono a que chegou o edifício do antigo Ciclo Preparatório, um mau exemplo para quem nos visita, sobretudo ao estar exposto para quem o quiser ver logo ali em frente da Estação dos Caminhos-de-ferro, e um mau prenúncio para os nossos sucessores. Veja-se o cenário que se nos apresenta, o de um edifício em ruínas, moribundo, por quase todos esquecido, em que no momento da recolha das fotografias podia ler-se numa pequena placa um lacónico «Vende-se», como que a colocar em leilão parte da memória colectiva e da vivência das nossas gentes.
Confesso que desconheço qual a história do velho edifício e qual o motivo de ter chegado ao actual estado. Do mesmo modo, ignoro se se trata de propriedade privada ou pública. Seja como for, com um passado mais ou menos importante, propriedade privada ou não, deveria ser recuperada a dignidade de um edifício que durante muito anos recebeu centenas dos nossos pequenos alunos, agora homens e mulheres já adultos. Pelo menos por todos nós, que fizemos daquele espaço um espaço de saber e de sociabilidades juvenis, deveria merecer o mínimo de respeito e atenção. Embora sabendo-se de antemão que o país vive momentos de crise e que as autarquias são quem mais sofre.
Um espaço como aquele, com toda a sua história, seria o local ideal para instalar o que poderia ser um Museu Municipal ou Etnológico, pelo menos por mim sonhado ao longo de várias páginas aqui publicadas, sem que alguém com reais interesses no futuro do concelho tenha feito nada. Sei bem que a cultura “não enche a barriga”, mas sem cultura um país não se justifica enquanto tal, ao não permitir a transmissão da memória colectiva e ao não facilitar a configuração dessa mesma memória. Pior ainda, a história tem sido testemunha de que a ignorância apenas serve regimes de cariz autoritário. Não é isso que desejamos para Nelas, nem para o país. Num Portugal que se deseja moderno as palavras de ordem deveriam ser (entre várias) agir, informar, participar, partilhar espaços e preservar.
Resta a esperança de ver a autarquia ou qualquer outro organismo público assumir qualquer iniciativa, mesmo que seja em parceria com entidades privadas, a lei de mecenato, a concretizar-se, serve é para estas iniciativas, já para não falar nos Programas Operacionais de tudo quanto mexe. Como último recurso resta a esperança de pessoas individuais ou colectivas fazerem avançar essa obra que nos poderá orgulhar. Não se trata de inveja mas os nossos vizinhos possuem o já famoso Museu do Pão, nós, contrariamente, parece que estamos mais apostados em deixar erguer espaços comerciais, onde se vendam os tapetes de arraiolos feitos na China, os aparelhos eléctricos e electrónicos da Coreia do Sul e, porque não, as gangas vindas directamente da Tailândia. Penso que concordam comigo se eu disser que para quem se preocupa com a nossa terra, mas também com o país e com o planeta, estas coisa doem. Para todos deixo o desafio.
Termino o meu artigo com uma última nota de lamento. Sem querer acusar ninguém, até porque não me vejo no papel de delator, não deixo de manifestar o meu profundo pesar pela situação de desprezo que vive a sepultura antropomórfica existente no Pombal. Move-me o desejo de um Folhadal melhor, capaz de ser um exemplo para todos. Entristece-me ver o que já foi um lugar de repouso para os que partiam transformado em parque de estacionamento ou depósito de materiais. Não procuro culpados, no entanto penso que em última instância caberá à autarquia (e que é feito do IPPAR quando se precisa dele?), a responsabilidade de proteger o que é de todos. Uma protecção que poderia apenas passar pelo ajardinamento e vedação da área, com uma placa identificativa da sepultura. Será pedir muito?

José Gomes Ferreira

publicado por José às 13:37
Quarta-feira, 05 / 01 / 05

Natureza para que vos quero (in Planalto 2003)

Convicto da importância do meu olhar, tantas vezes incrédulo, sobre o quotidiano nos nossos lugares e na nossa presença em comunidade – na qualidade de cidadãos, de quem se espera que exerçam em plenitude esse seu atributo –, aqui deixo mais algumas palavras para os leitores mais atentos ou apenas para os simples interessados. Nessa sã convivência entre autor e leitor partilho convosco uma preocupação já tantas vezes expressa e idolatrada, a minha preocupação e dedicação à natureza, sobretudo à natureza vivenciada.
Não me vou deter em aspectos mais académicos, esses são alvo de reflexão em tempo e lugar próprios, no entanto, não deixo de enunciar algumas das minhas devoções e percepções sobre o que se pode pronunciar como “esta ideia” e “aquele lugar”, ou mesmo sobre o Planeta e a ideia e percepção do Cosmos organizado. São essas algumas das alusões correspondentes a uma noção de natureza por vezes entendida como colocando o ser humano fora de si mesma, pois não raramente o homem é referenciado como situado num patamar superior, dada a sua capacidade de agir sobre esta, capacidade que, como se deverá supor, lhe confere responsabilidade na sua acção sobre aquela outra. Sendo certo que esse mesmo homem é apenas mais uma espécie a juntar a tantas outras que corporizam a natureza, com a particularidade de ser a única espécie a agir sobre ela, o que faz dele responsável tanto pela espécie humana como pelo futuro de todas as espécies e de todas as paisagens.
A partir deste enquadramento, percorrendo uma escala que vai do âmbito global ao local, decidi falar-vos sobre uma realidade com que me deparo praticamente em cada visita que faço ao nosso Folhadal. Em cada uma dessas visitas constato um progressivo afastamento das pessoas em relação aos campos, sobretudo os mais jovens, os quais olham com desdém a inocência fatigante dos trabalhos agrícolas, como que rejeitando o suor neles deixado pelos seus antepassados. Não condeno esse quase total alheamento, sei que muito se deve a causas externas, como sejam as políticas agrícolas, a busca de novas oportunidades; ou então a causas internas, genericamente relacionadas com a gestão de expectativas e com as discrepâncias geracionais. Seja qual for a explicação parece tirada de uma qualquer ideia de progresso apenas com registos urbanos, uma ideia com pressupostos falaciosos. Considero, genericamente, que sem a ideia e a prossecução de uma relação primordial homem-natureza não haverá progresso, apenas terá lugar a incessante artificialização do que outrora acreditávamos ser o meio natural.
Em termos sintéticos esta é a realidade com que nos confrontamos nesta nossa terra e em muitas outras comunidades. Paradoxalmente esta não é a realidade sonhada e por vezes concretizada por jovens e adultos que habitam uma qualquer grande urbe. Curioso ou não é que estes últimos anseiam por possuírem um pedaço de terreno onde possam ignorar o ruído e a poluição das grandes cidades, e onde possam viver o compasso das colheitas em detrimento do compasso de chegar a um qualquer lugar.
Os jovens dos meios tradicionalmente rurais fogem de tudo o que de natural os rodeia, exaltam o urbano e os seus valores, ignoram a possibilidade de poderem estar a viver num paraíso anunciado aos segundos [embora seja um paraíso na terra, por conseguinte, com defeitos]. Em contrapartida, os citadinos desejam recriar nas suas vidas a relação milenar do homem com a natureza, substituindo o perverso confronto com o que os rodeia pela vontade de equilíbrio entre eles e a natureza, que é seu desejo os venha a rodear. No campo perdem-se profissões, perdem-se saberes que não se sabem perpetuar, enquanto isso é promovido, sem que se saiba por quem, o desejo de um quase determinismo cultural identificador das grandes metrópoles, infelizmente em inúmeros casos tal desejo aponta para o lado obscuro da vida social urbana. Contrariamente, na cidade imaginam-se saberes, sabores e odores, sonha-se com um recanto picotado pelas estações do ano e pelo silêncio das plantas no quintal e das aves no horizonte.
Em suma, nos contextos agrários são rejeitadas as ideias de natureza e de permanência, optando-se pelo percorrer de uma representação de cidade como sustentáculo de uma ideia de progresso; na cidade, por sua vez, sonha-se com o paraíso, com a imagem e o imaginário campestre, ou então revisita-se a memória. Com ou sem paradoxo um elemento parece ser merecedor de consenso, a natureza é só uma, o que muda em cada contexto é a intervenção do homem sobre ela, ao espelhar diversas matizes do processo de artificialização do meio natural.
Como filho desta terra tento sempre que posso alertar para alguns sintomas de indiferença face ao que nos é exterior. Termino exactamente da mesma forma que iniciei, a expressar o meu desejo pela transformação do que nos é mais querido em todas as suas expressões, ou seja, a nossa terra e tudo o que a ela se refere e em todos os domínios. Não me canso de clamar pelo fim do vosso silêncio, pelo exercício pleno dos vossos direitos e responsabilidades, ou seja, pelo exercício da vossa cidadania, claro está uma cidadania participativa. Só através dela o país fará sucumbir o marasmo e a passividade em que gosta de estar. Sendo certo que do silêncio apenas brotará a ignorância, pois, somente a participação promove uma sociedade mais justa e mais igualitária, com decisões partilhadas e não tomadas pelo grupo dos designados pares. A diferença é que no primeiro caso as decisões servem os interesses da comunidade, de uma comunidade interessada, no segundo caso as decisões apenas servem o grupo restrito de interessados e estão por isso ao serviço destes.
Estas são esquematicamente algumas das questões que sobre a vida quotidiana se colocam, e não apenas sobre a natureza, embora esta seja cada vez mais um forte alvo de cobiça. Estas e outras questões deveriam ser na prática motivo para a tomada de decisões que interessam ao futuro Planeta e à própria Humanidade. Através delas será possível minorar o lado irresponsável da acção humana sobre os seus próprios futuros e a falta de equacionar as questões na perspectiva de tempo longo, e eliminar a desmedida preocupação geracional.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 13:37
Blog do Folhadal e de todo o concelho de Nelas

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