Novos ventos sopram no terreiro, levando à sua frente a poeira dos tempos e a passividade dos momentos. Para trás fica a teimosia e a ausência, como se as memórias fossem mais do que oratória ou nostalgia, fossem o espelho da nossa matriz cultural, autocrática e sem grandes revelações. Para a frente está a esperança e a incerteza, como se o amanhã fosse um sorriso, por vezes desfeito pela desilusão, o mesmo é dizer, como se uma máxima fosse uma sentença. Basta de saudosismos e basta desta espera pelo salvador feito homem, como mera exibição de um lamento generalizado. É chegado o momento de se concluir, nem que seja tarde, que as principais mudanças, pelo menos aquelas que criam raízes, começam por nós. Deveremos olhar em frente. É tempo de se alimentar o orgulho de ser português, não como mera reivindicação de obra feita mas, isso sim, como participantes num colectivo que é a comunidade, o concelho, o país.
Amainando o vento teremos tempo para olhar para trás e escrever a nossa história. Nessa altura talvez se aceite que as sociedades têm os seus protagonistas, preferidos pelo povo quando estão na ribalta e preteridos quando a permanência significa desgaste. Nessa altura talvez se constate que não existem heróis entre os homens, apenas personalidades marcantes e cidadãos comuns, e que ambos são válidos no processo democrático, embora com papéis distintos, mas sem que qualquer um deles seja um mero figurante.
Serve este prólogo para antecipar uma breve reflexão crítica sobre o ano 2005 e sobre algumas das potenciais expectativas para 2006. Parece-me ser consensual que, em particular ao nível do concelho, o ano findo marcará de forma singular os anos seguintes, perante a alteração dos protagonistas políticos locais. Uma alteração, estou convicto, que não aconteceu por mero acaso, terá tido diversas causas – para além do arranjo eleitoral com Canas. Acredito que as elites locais teriam elas a seu tempo desviado silenciosamente o sentido da sua influência para outros domínios, outras personalidades, eventualmente outras convicções. Ora, uma certeza temos desde já, esse desvio marcou o processo eleitoral e marcará os próximos anos. Um desvio que até se entende, dado o notório desgaste dos outrora eleitos, e até como resposta à radicalização e autismo praticados pelos menos durante a última década. Tal postura ficou expressa exactamente nessa divergência com as gentes de Canas de Senhorim e através de diversas decisões unilaterais em construir ou destruir o que sempre foi património comum, sem um claro argumento de utilidade pública. Predominando aqui vários exemplos do que parecem ter sido tentativas de ficar para a posteridade um vasto espólio de obras de regime, de funcionalidade discutível.
A luta política, no que tem de poderoso e de motor da mudança, parece querer dar um ar da sua graça neste contexto de transição, deixando acreditar que existe outro caminho, mesmo para os que não fazem derivar as suas convicções de cumplicidades partidárias, como é o meu caso. A esperança renasce, enérgica e catalisadora de empatias e certamente de repulsas, esses são aliás alguns dos seus atributos. Em boa verdade o espaço público político não assume a sua glória se for mera pose ou mero local de discurso, tem de ser também um lugar dos que sabem ouvir e dos que se querem fazer entender, mesmo que para tal os eleitos tenham de venerar os deuses e expulsar os demónios dos pequeninos – sem que cheguem ao ponto de abdicarem dos seus princípios, não se trata aqui de ninguém vender a alma a ninguém, apenas de se colocar no lugar de outrem para que entenda as suas angústias e expectativas. Isso sim, é a política em todo o seu esplendor, com essa outra particularidade surge assente em decisões que a todos interessam e implica o envolvimento de todos. Contrariamente, não é política a mera simulação da discussão participada, com raízes bem profundas no saber ser português.
Convém salientar de que quando falo em envolvimento de todas as pessoas, ou em participação nos processos de tomada de decisão, quero mesmo dizer todos os cidadãos. Nessa qualidade de cidadãos somos todos iguais perante o Estado e perante os nossos semelhantes, ainda que depois as estratégias de dominação ou a mera vaidade pessoal se sobreponham a esse princípio básico de igualdade. Em jeito de parênteses, não posso deixar de manifestar o meu desagrado face a determinadas mordomias. Refiro-me aqui, diria com todas as letras, ao tratamento por títulos de doutores ou engenheiros, mesmo para aqueles que não exercem e mesmo que exerçam é nos respectivos empregos e não na relação com um igual na esfera pública. Esse tratamento apenas tenta legitimar estratégias de dominação, pois na prática quase somente os cargos políticos são adequados a títulos, o que nem sempre passa pela referência a qualquer canudo, mas sim a uma determinada função ou cargo público.
Este é o pano de fundo do país, ao qual o nosso concelho não está a salvo, somos basicamente reprodutores de lógicas já gastas um pouco por todo lado. Como se a vida em comunidade, com as suas regras e instituições, fosse um fardo, sem deixar de ser uma pedra basilar da própria existência enquanto cidadãos, a maioria dos quais com causas próprias, mas sem deixarem de viver esse sentido de comunidade. É através deste equacionar da influência de diversos grupos de pressão, quer promotores de novas práticas, quer fazendo tudo por tudo para manterem um aparente estatuto, que reúno mais motivos para deixar esta breve reflexão.
A minha intervenção em 2005, à semelhança dos registos em anos anteriores, incidiu em muito sobre esse quase determinismo da obra sem função e da obra com função mas sem discussão pública. Ao mesmo tempo que procurei trazer à agenda mediática diversas outras matérias normalmente residuais, com o objectivo de as ver consolidar na agenda pública política, quer junto dos poderes públicos, quer junto da população. Aliás, mais do que procurar influenciar ou notar a intervenção dos poderes públicos, o objectivo da minha exposição pública através do Planalto passa por suscitar junto das populações esse sentimento da necessidade de serem elas a cuidar em primeira instância da herança dos antepassados. Só tomando consciência dessa necessidade teremos consciência de que podemos e deveremos dar um importante contributo na esfera política, nomeadamente, participar e ser auscultados no processo de tomada de uma qualquer decisão que nos afecte, fazendo-a depender da nossa opinião.
Mas se, por um lado, faltam dispositivos formais que permitam a participação das populações, sem esquecer depois a boa vontade dos eleitos; por outro lado, é desmotivante o virar de costas dessas mesmas populações face ao que é do seu interesse, habituadas que estão em falarem sem intervirem. Sou mesmo levado a afirmar que continuamos indiferentes e nem do que é do interesse colectivo cuidamos, grande parte das vezes nem do que é propriedade individual. Assim muito menos do que é património comum. Sobre este último aspecto basta lembrar o drama dos incêndios que sazonalmente nos colocam em risco e ao meio natural que nos envolve, sendo praticamente inaceitáveis os custos colectivos face ao que é suposto ser propriedade privada, defendida como se fosse do interesse comum.
Ainda relativamente à mobilização das populações ou à falta dela, pois é dela que aqui se fala, se foi verdade que uma decisão como a do corte dos pinheiros da Mata do General, culminando na destruição desta, indignou toda a gente; também foi verdade que uma decisão como a de localizar perto de elementos de interesse colectivo a Estação de Tratamento de Águas Residuais, destinada a tratar os esgotos do nosso Folhadal, não mereceu sequer uma conversa de café, pelo menos em tempo útil. Ainda que a seu tempo eu próprio tenha deixado uma advertência e tenha apelado ao bom senso dos decisores.
Acredito que esta postura continuará a marcar 2006 e os anos seguintes. Em causa está um aspecto importante – a proximidade ou afastamento das populações face aos problemas. Na prática, proximidade tomada aqui como familiaridade com esses problemas, responsável efectivamente pela mobilização das populações. No reverso, afastamento é sinónimo de indiferença. Este aspecto não se separa de um outro mais estruturante, que passo a explicar. Muitos são os que reivindicam um Estado forte e capaz de decidir por eles, chegando ao ridículo de proclamarem o regresso a tempos idos; sendo que curiosamente alimentam aqui um estranho paradoxo: defendem um Estado paternalista, que as salve e que por elas decida, ao mesmo tempo que anseiam por um país moderno.
Praticamente a terminar este meu artigo peço aos leitores habituados a lerem os meus registos, mais concretos e expostos numa linguagem mais simples, que entendam a necessidade desta reflexão mais abrangente. Até por respeito a esses mesmos leitores, tenho privilegiado os registos meramente descritivos, em detrimento de uma qualquer ensaísta, que tem lugares próprios para acontecer. Mas é um facto que não bastam comentários de circunstância, por vezes importa que se promova e desperte, em nós e nos outros, alguma reflexão crítica. Que mais não seja a mudança do ano velho para o ano novo impulsiona este tipo de reflexão, embora não seja motivo suficiente. Seja qual for o formato, apesar das críticas que se possam fazer ao nosso Planalto, algumas delas naturalmente legítimas, outras não, este continua a ser a nossa referência, o espaço da nossa identidade e o receptáculo esquecido, mas vivo, que testemunha o quotidiano das nossas gentes e a sua história. A terminar deixo expressos a todos leitores e suas famílias os meus votos de BOM ANO de 2006.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 09:10