Fale mais, muito mais, com muito mais gente, gente que não imaginaria nunca falar. Fale para muitos lugares, nem imagina quantos. Nem quem terá o prazer de o ouvir. Fale tanto, tanto, que corre o risco de não se conseguir ouvir. Fale muito, fale mais. Fale tanto, mas não comunique. Não comunique qualquer mensagem, não chegue a quem pretendia chegar, aliás, vá a tanto lado, fale com tanta gente, mas não diga nada. Fique sem fôlego, sem coragem para continuar aos gritos ou a ouvir a conversa dos outros. Mas, apesar de tudo isto, fale mais, dizem eles. Não sei se sabem porque o dizem ou o que dizem, pois na verdade não falamos, falando, e ninguém nos ouve, ouvindo.

Saiba que a Gertrudes foi para o hospital e que está bem, mas que o Felisberto, coitado, não se sabe se voltará. Saiba que a menina Amália deu à luz um lindo menino ou que vai ser convidado para um casamento, sem conhecer os noivos. Saiba tudo isto e muito mais. Fica é por saber quem são esses personagens. Fica por saber como está a sua família e como se portam os seus amigos. Saiba tanto e fique sem nada saber. Pois escuta conversas que não deseja sequer pensar ouvir. Fale com pessoas com as quais não desejaria falar, muito embora mereçam todo o seu respeito. Fale do lado de cá para o lado de lá e fique sem saber onde está. Fale, fale! Com todos. Consigo mesmo. Com ninguém. Uma coisa é certa, paga o mesmo no final do mês, aliás, paga é mais, pois assim a falar tanto ninguém o cala. Fala tanto que se sente um rouxinol encantado ou a tentar encantar a sua musa.

Cruze as pernas. Não descruze as linhas. Mas porque não descruza os braços? Têm amarras? Ou você tem uma carteira recheada? Mas não se incomode, se não descruzar os braços e não se mexer ninguém o defende. O seu dinheiro é ouro sem esforço, se não zelar por si mais valor tem para os outros. Você assim vai ser eleito o cliente do ano, dá lucro a cada minuto, sem despesa e se refilar. Ah! É isso que você quer?! Entendo!

Estou longe mas ouço-o sussurrar, diz à esposa que a factura do seu telefone este mês tem uma prenda. Ela ainda lhe diz: “Mas que conversa tivemos de jeito para pagar tanto?”. Os seus filhos logo se descartam: “Não fui eu! Não apontem para mim. Tenho um telemóvel de Terceira Geração que funciona na boa, mesmo cá na aldeia”. A sua esposa ainda o fita com olhar reprovador, mas logo desiste, confia em si, sabe que não foi você. No dia seguinte começa a indagar os vizinhos. Descobre que todos falam, falam, sem comunicarem. Você assim fica satisfeito e resolve o seu problema, basta-lhe desabafar: “É uma coisa lá deles!”. Ainda se pergunta: “Que haveremos de fazer?”. Faz bem desabafar e indagar, mas lembre-se que não está a alimentar um porco, não vai ter direito a presunto, por isso não tem de participar na sua alimentação.

Se não quiser pagar não fale, refile, proteste, defenda os seus direitos. Só assim comunica, só assim se faz ouvir e, talvez, só assim alguém descodifique a sua mensagem. Assim será feliz, pelo menos será cidadão pró-activo, mesmo que outros fiquem menos felizes, mas é a si que cabe mover-se em prol do bem comum. Não espere milagres. Públicos, privados, mistos, revistos, alterados, nenhum deles o defende, mostre a todos que sabe comunicar e tem presença. Seja altivo, perspicaz, por vzes insolente, mas respeitoso, seja cidadão, pessoa, cliente, não deixe é de ser quem é. Não vá com os outros. Reúna os outros. Juntos comunicam verdadeiramente mais e têm muito mais força e mais grandeza. Juntos não são um código, são uma multidão exigente, a reivindicar pelos seus direitos, a lutar pelos seus princípios. Não deixe é de acreditar, teimar com os outros se for necessário, mas comunique se achar que está certo. Faça agora valer a sua voz. Fale agora. Fale, fale, fale muito. Fale muito, se quiser não ter de pagar. Gesticule, brilhe, não faça cerimónias. Em casa, na rua, na Associação, no largo, onde quiser. Faça sentir aos outros que eles não têm razão e que você mora no interior mas tem direitos, que você é cliente mas paga para ter acesso a um serviço. Exija os seus direitos, exija qualidade, exija eficiência na prestação do serviço, garanta a qualidade desse serviço.

Por mim escrevo estas palavras em jeito telegráfico para relatar a sua causa, que é a nossa. Faço-o de modo directo, após ter usado o telefone fixo com uma ligação pretendida para a nossa terra, mas que acabou por ser apenas mais um debate num local público não identificado, tal é o estado das comunicações telefónicas. Sem querer cruzamos alegrias com desgraças, namoros com separações, calor com frio. Uma coisa é certa, ninguém se sente só. “Afinal existe uma comunidade global”, ainda se pensa.

Se o problema fosse apenas de agora ainda poderíamos inventar uma qualquer desculpa, todavia, o que espanta é a nossa falta de intervenção. Algo tão repetitivo deveria merecer intervenção por parte da população, em defesa dos seus direitos. Não sei de quem é a culpa, mas “ceder” a plataforma de comunicações fixas à principal operadora não permite concorrência, pior ainda, condena alguma da regulação que o sector deveria ter. E quem paga tudo isto? Somos todos nós. Sobretudo, quando tudo aponta para um virar de costas em relação ao interior do país.

Penso que nos resta pedir às entidades com competências ou com força institucional para o fazerem por nós e ao nosso lado; para que assumam o seu papel, mesmo que este não esteja tradicionalmente designado. Mas podemos, e deveremos, recorrer, principalmente unidos, às diversas instituições que no país, ainda, defendem os consumidores. Ou mesmo à entidade reguladora, é esse o seu papel, para que não se limite a zelar pela atribuição de licenças, para que defenda, também, o consumidor, uns e outros deveriam estar ao nosso serviço, não ao contrário.

Termino aqui este meu texto, escrito numa toada diferente, pois só a brincar poderemos perceber o que se passa. Não cito nomes de empresas, pela alusão parecer clara. Refiro nomes, apenas por serem ícones, não por representarem pessoas que se conheçam, podem representar outras que também sofrem com a mesma situação e é esse o objectivo: dar conta de um problema que não se fica pela Folhadal ou por Nelas, afecta uma região, uma parcela do país, quem sabe mais. Peço desculpa por eventuais erros ou por eventuais faltas de sentido em algumas das afirmações, o tempo que me resta de momento é limitado, por esse facto escrevo estas palavras confiando que estão bem, sem qualquer revisão. Desde que atinjam o objectivo pretendido são importantes palavras – e o objectivo é alertar todos para o que se passa.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 18:16