Dizem-me a cada dia que a sociedade é incessantemente mediada pela tecnologia e pela ciência ou, simplificando, pela tecnociência. Uma das principais conclusões que se pode retirar deste debate é que o acesso ou não à tecnologia atenua ou promove diferenças sociais. É bem conhecida a expressão info-exclusão, usada a pretexto de fazer referência aos cidadãos que ao longo da vida não desenvolveram as necessárias competências para que possam aceder sem problemas às novas tecnologias de informação e de comunicação. Mas se os leitores pensam que as assimetrias apenas se situam ao nível da aquisição de competência estão enganados.
O que se passa na prática é que, por exemplo, a construção ou não de uma determinada infra-estrutura – uma estrada, uma ponte, um túnel, um produto da tecnologia por excelência –, determina também assimetrias entre os cidadãos. Quem conhece um pouco da Área Metropolitana de Lisboa terá bem presente o que digo: porque motivo foi construída na altura a Ponte Vasco da Gama entre a zona da Expo 98 e Alcochete e não foi construída entre Chelas e o Barreiro? Basta ver o resultado. Com a actual ponte em ambas as margens do rio floresceram urbanizações destinadas a determinado estrato social, em contrapartida as zonas preteridas continuam a ser vistas como zonas operárias, ou seja, são zonas estigmatizadas.
É um facto que soluções tecnicamente mais simples podem não ser as que verdadeiramente melhor servem as pessoas a que se destinam. Um problema que se agrava quando as decisões são tomadas por quem deseja, tantas vezes, resolver à sua maneira um problema que pode afectar muitos. Esse parece ser o contexto em redor do encerramento da passagem de nível do Mocho e que a médio prazo pode conduzir ao encerramento do Apeadeiro do Folhadal.
Defendi em tempos idos o encerramento daquela passagem de nível, sugerindo na altura a construção de um túnel, acompanhado da requalificação da Rua do Apeadeiro, inserida num contexto de requalificação do próprio bairro. Infelizmente trata-se de um aglomerado urbano que nunca mereceu a devida atenção dos responsáveis políticos. Mesmo assim em pior estado de abandono está o Bairro do Picoto, que nem uma rua merecedora desse nome nunca mereceu, sempre foi tratado como um pardieiro, embora lá vivam pessoas que merecem ser tratadas como iguais.
Quanto ao encerramento da passagem de nível do Mocho o que é grave é que praticamente ninguém sabe o que se projecta, a única coisa que se sabe é que está a ser rasgada um estrada paralela ao caminho-de-ferro, no seu lado norte, de ligação entre a saudosa Mata do General e o Apeadeiro do Folhadal. Mas a construção desta via não é a nossa única preocupação. O que se passa é que a construção de uma via com as características desta pode ser, a breve trecho, um elemento catalisador da dita explosão urbanística em terrenos que deveriam estar bem protegidos, dada a sua apetência agrícola.


PROBLEMA ACTUAL:
Encerramento da passagem de nível, associado à construção de uma via “alternativa”.

PROBLEMA FUTURO:
Risco de explosão urbanística em terrenos de reserva agrícola, ligando a projectada urbanização do Vale da Sobreira ao Apeadeiro do Folhadal.

O QUE PODEREMOS FAZER:
Ficar alerta para impedir alterações de uso dos terrenos de reserva agrícola e apresentar queixa às instituições competentes (por exemplo, à Inspecção-Geral do Ambiente e do Ordenamento do Território).

O que nos deixa ainda mais apreensivos é o facto de no futuro todo o Bairro do Mocho vir a ser atravessado pelo prolongamento do Itinerário Complementar 12 (IC12), de Canas de Senhorim a Mangualde. Pelo menos ninguém nos diz nada, nem a favor nem em contrário.
É demasiada apreensão para uma localidade tão pacata quanto a nossa. Sendo que a manutenção da passagem de nível para peões não nos deixa propriamente descansados, poderá significar o adiar do encerramento definitivo do Apeadeiro. Além desse risco, se por um lado, quem mora do lado norte e do lado sul apenas se pode contactar via pedestre, com a agravante de não ser requalificada a Rua do Apeadeiro; por outro lado, quem tem as suas propriedades (terras de cultivo ou pinheiros) do lado norte da Linha da Beira Alta, terá de dar uma volta de cerca de 2 km. Se para uns fica caro construir determinada infra-estrutura em detrimento de outra, para a população interessada parece não ficar caro contornar parte da via-férrea.
A gravidade do problema aumenta perante a inexistência de informação directa a toda a população, os mais bem informados foram, provavelmente, os proprietários em cujas terras passa a nova via, quem sabe movidos pelo interesse em realizarem o negócio. Não vamos acusar, como sempre o fazemos, os políticos por decidirem nas nossas costas, podendo ser verdade, também é verdade que as populações continuam a defender apenas os seus interesses. Ou como alguém dizia no outro dia: “O povo quer é falar na vida dos outros”. De facto, a gula de alguns e a conversa sem sentido de outros, retiram-nos energia para o que é fundamental – a união em redor de causas comuns.
“Não moro lá e não tenho lá nenhuma propriedade, quem tiver que se defenda”. Não acreditam, mas ouvi diversas vezes afirmações como esta no caso da construção da ETAR. Pior ainda, teve pessoas que me perguntaram se teria por lá algum terreno. Algumas pessoas não percebem que deveremos estar unidos na defesa da nossa terra e juntos dialogar no sentido de se influenciarem futuras decisões. Se cada um apenas defender o que é seu, apenas legitima as decisões dos poderes políticos e deixa a capacidade de avaliar às elites. De nada nos serve exigir maior abertura dos poderes públicos relativamente aos nossos problemas, quando nos falta essa capacidade de envolvimento na vida pública.
Acreditam que o Apeadeiro irá permanecer a funcionar durante muito mais tempo? Apesar das prováveis promessas em sentido contrário, o que parece mais certo é que se projecta a médio prazo o seu encerramento. Entretanto, relativamente aos terrenos de cultivo, vamos assistir a uma febre desmedida pela venda ao melhor preço. O que poderá ser legítimo. Só não é legítimo é os nossos representantes influenciarem pela negativa o nosso futuro: por falta de planeamento e por não explorarem o potencial das decisões participadas, sobretudo quando se convencem que a participação das populações se faz através de Editais ou de um qualquer debate formal para cumprir calendário.

José Gomes Ferreira
publicado por José às 17:44